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O homem e o muro

Roger Waters apresenta 'The Wall' no Rio com tijolos do século 21

Por Luís Bulcão, do Rio de Janeiro 30 mar 2012, 12h40

“Descobri que o muro não era só sobre mim. Era sobre o Jean. E sobre todos vocês”, disse Waters logo após tocar a primeira parte de Another Brick in The Wall

O filósofo grego Heráclito de Éfeso sintetizava a permanente transformação do mundo com uma afirmação. Ninguém pode passar pelo mesmo rio duas vezes. Tudo flui. Roger Waters, líder conceitual e letrista de uma das bandas mais inventivas da história, reconstruiu na noite de quinta-feira, no Rio, tijolo por tijolo, o muro que concebeu há três décadas. E como Waters, 68 anos, não é o mesmo dos tempos de Pink Floyd, seu muro também precisou mudar. As 48 mil pessoas que foram ao estádio Engenhão, na zona norte do Rio, testemunharam e foram bombardeadas por um espetáculo de luz, som, imagens reais e projetadas, num concerto que reaviva a emoção e se mostra grandioso o suficiente para refletir os novos e velhos anseios projetados pelo artista. Waters vai reconstruir e destruir o muro mais duas vezes em São Paulo, neste domingo, 1º, e na terça-feira, 3, para fechar a turnê brasileira que começou no domingo, em Porto Alegre.

INFOGRÁFICO: Saiba como é o show de Roger Waters, que retoma o histórico The Wall

O novo The Wall incorpora não só a tecnologia, mas também as problemáticas do mundo de agora. E emociona até um espectador que jamais tenha tido contato com os delírios lisérgicos do Pink Floyd. Mas é bom não perder de vista o ponto de partida do trabalho de Waters à frente da banda. Era 1979 quando o Pink Floyd lançou o álbum duplo The Wall. Waters, tomando para si a incumbência de definir os caminhos do Pink Floyd, arquitetou e construiu uma obra dotada de inserções autobiográficas na qual ergue um muro ao redor de si, que o isola do mundo e o deixa preso em seus próprios sentimentos reprimidos pelo julgamento e pela reprovação daqueles que o cercam. Na época, os fãs da banda, já consagrada por obras como Dark Side of The Moon e Wish You Were Here, receberam o trabalho não apenas como a trilha sonora de um drama pessoal com o qual poderiam se identificar. Foi a conexão clara e direta com o Muro de Berlim.

O novo muro – Mais de 30 anos depois, sem a cortina de ferro soviética, The Wall ganhou novos significados. Um deles é uma homenagem feita especialmente para as apresentações no Brasil: o rosto de Jean Charles de Menezes, o brasileiro morto em uma estação de metrô em Londres, em 2005, ao ser confundido com um terrorista, ganha destaque entre as imagens de outras pessoas que perderam suas vidas dolorosamente em guerras e conflitos. A primeira fotografia projetada é do próprio pai de Waters, que morreu em uma batalha da Segunda Guerra Mundial, episódio que coloca o primeiro tijolo em seu muro: a ausência da figura paterna. A imensa parede que percorre o palco de uma arquibancada a outra do estádio reflete centenas de fotos enviadas por fãs, oferecendo um conceito mais amplo para a obra.

“Descobri que o muro não era só sobre mim. Era sobre o Jean. E sobre todos vocês”, disse Waters logo após tocar a primeira parte de Another Brick in The Wall.

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Na ausência da Guerra Fria – a mãe que poderia jogar a bomba não é mais a “Mãe Rússia” – Waters ataca a sociedade supervigiada com câmeras de segurança, o consumismo excessivo, as guerras religiosas e a ganância por petróleo. O muro do século 21, segundo Waters, é o muro da desinformação, aquele que separa o que as pessoas sabem do que realmente se passa nos corredores do poder. E funciona. Os imensos bonecos do velho professor que reprime, da mulher que abandona e da mãe superprotetora da obra original interagem bem com as projeções ultratecnológicas sobre o muro cenográfico.

Esforçando-se para falar em português, interagindo com o público, correndo de um lado para o outro e dançando com um grupo de crianças da Rocinha encarregadas de figurar durante o coro da segunda parte de Another Brick in The Wall, Waters também pouco lembra aquele cara “miserável” de alguns anos atrás, como ele mesmo se descreveu antes de tocar a canção Mother. Afinal, The Wall começou a ser concebido após Waters ter cuspido em um membro da plateia que, segundo ele, fazia barulho demais e se mostrava alienado à música durante um show do Pink Floyd em 1977. Daí a ideia de criar um muro que o separasse do público durante o show. Nesta quinta-feira, ao incentivar a plateia carioca a bater palmas e a cantar “olê, olê, olá”, Waters demonstrou que pelo menos esse muro ele já derrubou.

Mas ainda há outros no caminho, e outros que ele simplesmente decidiu ignorar. O fato de Waters conseguir renovar sua obra e convertê-la em um espetáculo sem parâmetro de comparação – não só pelos efeitos de última geração, mas também pelo formato único de ópera rock moderna -, mostra que, ao mesmo tempo em que critica a lógica do lucro, o decano do rock progressivo também comanda uma estrutura milionária que integra o showbiz internacional. Nada que retire a força da crítica a marcas como Shell, Mercedes-Benz e outras salpicadas ao longo do espetáculo.

A barreira que parece consolidada e intransponível, no momento, é a que separou Waters de seus velhos companheiros de banda. E esta sim, pode dizer um pouco sobre os muros que as pessoas constroem ao redor de si. Por melhores que sejam os guitarristas e vocalistas contratados por Waters, nenhum deles é David Gilmour, dono do feeling e do timbre tão característico ao Pink Floyd, algo tão característico quanto a própria acidez de Waters. Mesmo de cima do grandioso muro, os solos de Comfortably Numb, ainda que executados com perfeição, deixam transparecer a sensação de que nem tudo está completo. Ainda assim, Waters reconstrói e põe abaixo o seu muro diante de uma plateia estupefata pelo espetáculo.

Na quarta-feira, ao conceder entrevista coletiva em um hotel no Rio, Waters falou sobre a constante mudança e sobre a iniciativa de erguer novamente o muro depois de tanto tempo. Em forma de poema, recitou a letra de uma canção sua, Flickering Flame, lançada em 2002: “Quando minhas sinapses pausarem em minha busca por aplausos/Quando meu ego permitir que eu me desfaça do meu pedaço de osso/Para focar, ao invés, no amor daqueles que me são preciosos, então serei livre“.

Waters fez uma breve pausa e concluiu: “Eu não poderia ter escrito isso em 1978. Então, até algumas coisas que parecem estar bem agora se devem ao fato de que estou 35 anos mais velho. E estou feliz em estar aqui e ser capaz de informar aos mais jovens que há vantagens em envelhecer. Você tem a oportunidade de ser mais compreensivo, talvez de se tornar um pouco mais humano. Eu era muito raivoso quando eu tinha 35 anos e sou menos hoje”. Tudo flui.

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