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‘O filme e o livro são criaturas bem distintas’, diz autora de ‘Nomadland’

Em entrevista a VEJA, a jornalista e escritora Jessica Bruder fala sobre o processo de criação da obra de não-ficção que inspirou o vencedor do Oscar 2021

Por Tamara Nassif Atualizado em 21 jul 2021, 18h50 - Publicado em 21 jul 2021, 11h39

Entre as fronteiras do México e do Canadá, estendem-se mais de 3 600 quilômetros – e essa distância é atravessada por comunidades nômades americanas sem muito alarde. Mas, para uma pessoa dita “sedentária”, trata-se de uma baita aventura. A bordo de uma van carinhosamente batizada de “Van Halen”, em homenagem à banda homônima, a jornalista americana Jessica Bruder decidiu passar três anos nas estradas para escrever uma longa reportagem sobre a crescente cultura de trocar moradias tradicionais por “propriedades sobre rodas”. O resultado da empreitada culminou no livro Nomadland: Sobrevivendo aos Estados Unidos no século XXIrecentemente publicado no Brasil pela Rocco e que ganhou notoriedade ao servir de base para o grande vencedor do Oscar de 2021. Dirigido por Chloe Zhao, também oscarizada, o filme Nomadland também premiou a protagonista Francis McDormand com a estatueta de melhor atriz e conquistou milhares de admiradores, além de iluminar o pouco conhecido fenômeno do nomadismo moderno para muita gente ao redor do mundo.

Em entrevista a VEJA, a autora Jessica Bruder conta sobre o processo de criação de seu livro de não-ficção, e fala também sobre a vida dos nômades nos Estados Unidos antes e durante a pandemia. Confira abaixo:

NOMADLAND: SOBREVIVENDO AOS ESTADOS UNIDOS NO SÉCULO XXI, de Jessica Bruder (tradução de Ryta Vinagre; Rocco; 304 páginas; 41,90 reais e 28,40 reais em e-book)
NOMADLAND: SOBREVIVENDO AOS ESTADOS UNIDOS NO SÉCULO XXI, de Jessica Bruder (tradução de Ryta Vinagre; Rocco; 304 páginas; 41,90 reais e 28,40 reais em e-book) Rocco/Divulgação

Como você começou a escrever o livro? Um dia, eu topei sem querer com uma grande reportagem sobre o programa CamperForce, da Amazon. Um dos entrevistados trabalhava sazonalmente em um galpão, porque não conseguia se aposentar e, assim como muitos outros atendidos por esse programa, morava em tempo integral em um trailer. Eu já sabia que o trabalho em depósitos era difícil, mas o que mais me surpreendeu foi o fato dele ser feito por idosos já em idade de aposentadoria. Comecei, então, a investigar sobre esse programa da Amazon e percebi que havia inúmeros tipos de empregos como este espalhados pelos Estados Unidos, em que pessoas pulavam de um lugar para outro durante o ano inteiro. Normalmente atingidas pelo aumento do custo da habitação e por salários muito baixos, elas viam um modo de levar a vida nesse sistema, e eu imediatamente quis saber mais sobre essa comunidade que se formava em torno de empregos temporários.

E como o filme de Chloe Zhao se diferencia do seu livro? Fundamentalmente, eles são criaturas diferentes: meu livro é de não-ficção e o filme, apesar de baseado no livro, é ficcional. Por exemplo: o filme mal toca no assunto dos galpões da Amazon, o que é algo que eu definitivamente esperava. Afinal, é uma obra de Hollywood. Consegue imaginar a Francis McDormand disfarçada em um depósito? Acho que as pessoas que ficaram entediadas na pandemia queriam que eu batesse no filme com uma vara, dizendo que tal coisa deveria ter sido mais parecida com o livro e por aí vai, mas são, de fato, criaturas distintas. Eu sou uma pessoa da não-ficção e trabalhei como produtora-consultora do filme, então não tive nenhum papel no roteiro. Apenas introduzi a Chloe e a equipe de gravação aos nômades que conheci, o que foi muito bacana.

  • O que sentiu quando viu que Nomadland levou três estatuetas do Oscar para casa, incluindo a de melhor filme? Foi insano. Para mim, a parte mais empolgante foi ajudar Linda Mae e Swanky, mulheres que conheci na estrada e que interpretam a si mesmas no filme, a se arrumarem para a cerimônia. Foi tão divertido, senti como se estivesse ajudando minhas avós a se prepararem para um baile do colégio. Mas, de resto, a minha vida permanece a mesma, só tenho recebido mais e-mails. Até agora, tudo bem. Eu gosto de ser anônima, até prefiro.

    Por que tanta gente vem aderindo ao nomadismo? Muitas pessoas que conheci foram apanhadas pelo baixo salário mínimo dos Estados Unidos, que ainda é 7,25 dólares por hora, e pelo custo de manter uma casa, que continua subindo. Esse paradoxo é muito complicado. Também tem o fato de que a moratória sobre despejos na pandemia está terminando, e é possível que a assistência para aluguel não chegue a tempo. Muitas pessoas que não puderam ser expulsas por seus proprietários durante a pandemia serão expulsas agora e podem acabar morando em abrigos de último recurso ou em veículos. Ao mesmo tempo, a degradação da nossa economia é outro grande problema, e um que já acontecia antes mesmo de o ex-presidente Donald Trump assumir.

    Qual o perfil e a motivação dos nômades? Tenho percebido que cada vez mais pessoas jovens têm decidido viver na estrada. A faculdade por aqui é muito cara, e os alunos entram em dívidas enormes para arcar com os custos de ter uma educação e, mesmo assim, não sabem se vão ter um emprego que os ajude a quitar a dívida. Tem muita gente nessa situação que pega a estrada enquanto jovem, então veremos mais pessoas morando em seus veículos em breve. Espero que não fique mais difícil do que já é. Por outro lado, coexiste também a motivação espiritual, minimalista e até anti-capitalista de buscar uma vida mais simples. Muitas pessoas com quem me encontrei contaram sobre a aventura maravilhosa que estavam tendo no minimalismo, e como sentiram uma conexão espiritual com isso.

    O senso de comunidade para os nômades é um dos grandes elos emocionais do seu trabalho. Como eles têm lidado com o distanciamento social na pandemia? Os nômades usam muito a internet, já o faziam mesmo antes da pandemia, e muitos conseguiram manter contato online. Foi animador ver pessoas ajudando umas às outras, e com coisas que nós normalmente nem pensaríamos. Por exemplo, muitos parques nacionais e estaduais fecharam de início, e isso impactou profundamente aqueles que estacionavam as vans por lá. Os que usavam chuveiros nas academias de ginástica tiveram que achar outro lugar, já que elas passaram grande parte do tempo fechadas. Se o governo dissesse que deveríamos manter um suprimento de comida para o mês inteiro, como eles pagariam por isso e onde arranjariam espaço para alocar tudo em uma van? Muitos encontraram soluções criativas para esses problemas e compartilharam informações online, e os que eu conheci encontraram ajuda nessa comunidade virtual, especialmente por terem com quem conversar sobre essa situação única que é viver em um veículo durante uma pandemia. Mas, definitivamente, não foi fácil.

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