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O ‘BBB14’ e a cultura das periguetes

A ‘casa mais vigiada do Brasil’ se aproveita, cada vez mais, do excesso de exposição física, característica que marca o reality show no país, na tentativa de manter o interesse do público e investimento dos anunciantes

Por Raquel Carneiro 9 mar 2014, 11h33

Da Polônia aos Estados Unidos, já foram feitas as mais variadas versões para o reality show que confina em uma mesma casa um grupo de pessoas em busca de fama e de um tentador prêmio em dinheiro, e que talvez seja o mais popular do mundo no gênero, o Big Brother. Na sua fórmula de sucesso, que explica a difusão e a longevidade do programa, criado em 1999 pelo holandês John de Mol, está uma apurada escolha dos participantes. Escolha que tem cores locais, de acordo com os gostos e a cultura de cada país, e que no Brasil costuma privilegiar corpos bombados e sarados, com destaque para aquela figura que já tomou o centro na teledramaturgia nacional: a periguete. Protagonista da versão do reality exibida pela Globo, o tipo parece chegar ao auge nesta 14ª edição, em que, além de ser representado com louvor pela eliminada Letícia, tem outras várias candidatas (e até candidatos) a carregar adiante o seu estandarte.

Dos vinte participantes iniciais da casa, todas as mulheres se encaixavam num padrão. Eram todas esbeltas, torneadas e jovens – as duas mais velhas, Princy e Aline, têm apenas 32 anos. Entre os homens, o modelo é parecido, com uma explosão dos músculos, é claro. Deles, o já eliminado Vagner era o mais velho, com meros 37 anos.

“A periguete já se tornou um arquétipo feminino. Seus principais atributos são a determinação e o apelo sensual, bem ao gosto popular. Ela tem admiradores tanto quanto provoca repulsa”, diz Wilson José Gonçalves, professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e autor do estudo Periguete – Arquétipo Feminino.

Há tempos a mulher que veste roupas curtas, tem personalidade forte e aposta nas curvas para chamar a atenção da rapaziada faz parte dos roteiros de novela. Bons exemplos disso são a Darlene (Deborah Secco) de Celebridade (2004), a Suelen (Isis Valverde) de Avenida Brasil (2012), e, recentemente, em uma versão por assim dizer diferenciada, a Valdirene (Tatá Wernek) de Amor à Vida. A última, aliás, passou 12 horas confinada no BBB14 com os demais participantes do reality, período em que, pautada para fazer graça, despejou no ar todos os clichês conhecidos da atração, como dançar até o chão nas festas, fazer amizades eternas em vinte minutos ou levar um dos rapazes descamisados para debaixo do edredom.

Porém, justiça seja feita: os homens do BBB14 provam que os sintomas de “periguetismo” não são inerentes apenas às mulheres. Assim como as moçoilas, os brothers exibem corpos esculpidos à base de muita malhação (e whey protein), sensualizam à beira da piscina e não perdem tempo na tentativa de levar a melhor com as garotas da casa. Roni e Júnior que o digam. O primeiro fez par com a sonsa Tatiele, mas era um poço de atenção com o “irmão” Marcelo. Enquanto Júnior, no pouco tempo que ficou confinado, se envolveu com Angela e Letícia, sendo que tinha uma namorada fora da casa.

Segundo a socióloga Claudete Pagotto, da faculdade Metodista, é normal o espectador assistir a um programa de TV e se sentir atraído por aquela trama, por se identificar com o que vê ou por querer ser igual ao que está no ar. “Se alguém tem o corpo bonito, é extrovertido e chama a atenção, essa pessoa tem características que promovem o desejo no outro, que busca se espelhar.”

Jovens e belos – A persistência do formato em alguns países, como Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido, e o tipo de participante escolhido fazem com que o Big Brother seja uma espécie de espelho da sociedade em que ele é exibido. Se no Brasil existe a predominância do silicone e da juventude, em outros lugares a seleção é mais variada. Na Alemanha, por exemplo, a última edição do programa tinha quatro participantes entre 60 e 70 anos. O país que é tido como frio pelos brasileiros, aliás, já teve muito mais cenas de nudez e sexo no Big Brother, outro diferencial cultural. Já no Big Brother de Israel, dos 23 últimos candidatos selecionados, seis tinham entre 40 e 60 anos, e a maioria era feita de pessoas comuns, com belezas variadas e poucas beldades. As inevitáveis comparações entre os exemplos citados e a edição nacional revelam a diferença de valores da sociedade brasileira para a europeia, por exemplo. Ser velho, em terras tupiniquins, é sinônimo de rugas e não de experiência.

“Nas primeiras edições do Big Brother, o espectador podia ter a sensação de que era fácil entrar na casa. Essa ilusão tem se dissipado, pois agora se sabe que sempre são escolhidas as pessoas plastificadas, com padrões que, embora admirados, são fora do comum”, diz Cosette Castro, professora de Comunicação da Universidade Católica e autora do livro Por que os Reality Shows Conquistam as Audiências? (editora Paulus, 72 páginas, 2006). “Vivemos no Brasil a cultura das periguetes, em que não é valorizado o que você pensa, mas o que você mostra fisicamente.”

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Reality shows – Nada de George Orwell. Nada de literatura. Foi ao ouvir falar do experimento científico Biosfera 2, que se tornou uma piada no meio acadêmico, que o produtor de TV holandês John De Mol teve a ideia de criar o Big Brother, há 15 anos. Com um investimento de 150 milhões de dólares, o Biosfera 2 instalou nos Estados Unidos uma estufa gigantesca com uma reprodução, em seu interior, de cinco ecossistemas do planeta em miniatura: deserto, oceano, floresta tropical, savana e pântano. Foi confinada ali uma equipe que deveria criar uma comunidade autossustentável, durante um isolamento de dois anos. Se funcionasse, a estrutura seria implantada em Marte. Contudo, o projeto fracassou. As plantações não supriram a fome, o oxigênio não foi reciclado corretamente, levando à injeção de novo ar fresco na estufa, e os candidatos sentiram falta das facilidades do mundo exterior – um chegou a adoecer e ser retirado para tratamento. Após três anos e duas equipes que se revezaram no confinamento, os participantes deixaram o experimento famintos, pálidos e infelizes.

Vexame para a ciência, um marco para a televisão. “A meu ver, os fatores que levaram ao fracasso do Biosfera 2 são exatamente os ingredientes que fazem o sucesso do Big Brother“, contou John De Mol à revista VEJA. “Entrevistamos pessoas que ficaram isoladas no projeto e tiramos lições que foram aproveitadas na TV”, disse.

Apesar de ser um dos principais sucessos no formato, o Big Brother não foi o primeiro reality show. Quem segura o título de precursor do formato é o programa An American Family, exibido nos Estados Unidos em 1973, pelo canal PBS. Durante cerca de sete meses, a família Loud, composta pelo casal Bill e Pat e seus cinco filhos, foram filmados e tiveram suas vidas editadas em um documentário de 12 horas, divido em capítulos. O reality não terminou bem e culminou com o divórcio do casal. Mais tarde, o drama serviu de inspiração para o cineasta e ator Albert Brooks criar o filme Real Life (1979), em que um produtor sem pudores manipula a vida de uma família enquanto roda um programa de TV sem roteiro.

Foi só em 2000, com a criação do Big Brother, na Holanda, e do show de resistência americano Survivor, lançado no Brasil no mesmo ano, com o título No Limite, que o gênero caiu no gosto dos espectadores e se tornou um fenômeno de audiência.

A partir daí, tais programas se disseminaram para todos os tipos de público em versões variadas, e os que esperavam que o Big Brother e companhia não passassem de uma moda descobriram que esperaram em vão.

Segundo a lista de programas mais vistos nos Estados Unidos em 2013, divulgada pela revista americana TV Guide, Survivor e os reality de calouros American Idol, The Voice e Dancing With the Stars (no Brasil, Dança dos Famosos) aparecem entre os vinte mais assistidos no ano passado, totalizando quase 100 milhões de espectadores.

O que todos têm em comum? O anseio dos participantes (e dos que assistem) pelos almejados 15 minutos de fama e, também, a possibilidade de ganhar uma bolada em dinheiro. Além disso, o público tem o poder de decidir os destinos de pessoas que lhes agradam, ou não. Um poder simbólico, que não existe fora da televisão.

“Um dos motivos por que o reality show faz tanto ou até mais sucesso que as tramas da ficção é justamente esse: o espectador pode fazer parte do enredo. Em uma novela, por exemplo, você se sente representado quando se identifica com o personagem. Já no reality, não são atores, são pessoas, e o público tem o direito de participar, de eliminar candidatos ou de ajudá-los a vencer”, explica a psicóloga Kathya Mutti, coordenadora Cultural do Departamento de Psicodrama do Instituto Sedes Sapientiae (DPSedes).

A opinião é compartilhada por Aurélio Fabrício Torres de Melo, professor de Psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “No auge da sociedade do espetáculo, a fama é almejada, assim como a participação em programas que dão o poder de decidir quem fica e quem sai. Queremos estar do lado de dentro da vitrine, mas também queremos ter o poder do lado de fora”, completa.

(Colaborou Rafael Costa)

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