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O avesso do mofo: cogumelos viram tendência na moda

De desenhos coloridos e variados, eles inspiram coleções de reputadas marcas internacionais e são usados como matéria-prima de roupas e acessórios

Por Mariana Rosário Atualizado em 18 jun 2021, 10h19 - Publicado em 18 jun 2021, 06h00

Os cogumelos caminham pelas estradas coloridas da cultura pop há muito tempo. No país das maravilhas de Alice, de Lewis Carroll, de 1865, representam o atalho para viagens alucinógenas. Em Fantasia, o clássico desenho de Walt Disney, lançado em 1940, dançam ao som da suíte Quebra-Nozes, de Piotr Ilitch Tchaikovsky. É de estranhar, portanto, que tenham demorado para brotar nas passarelas da moda, em vestidos, blusas, saias e calças. Mas chegou a hora. Há uma evidente tendência da primavera do Hemisfério Norte em coleções europeias e americanas: a profusão de peças inspiradas nos tons, formatos e camadas dos fungos.

Um dos primeiros estilistas a abraçar a ideia foi o indiano Rahul Mishra, na semana de alta-costura de Paris, que começa agora em 2021 a respirar depois do auge da pandemia. Das criações de Mishra, nascem aplicações de lantejoulas, miçangas, bordados coloridos e sobreposições de tule, com delicadas transparências, formando sofisticadas estruturas circulares. “Os cogumelos são obras-­primas da engenharia”, disse o costureiro. O designer alemão Daniel Del Core usou a parte superior de um vestido longo para abrir leques de tecido, em referência a esses organismos. Os modelos mais arrojados, no entanto, são os da holandesa Iris van Herpen, por meio de drapeados volumosos e tecidos esvoaçantes que lembram caules, raízes e brotos. Mas por que cogumelos, para além do ar evidentemente hippie e florido? “Por remeter à energia da natureza, algo de que estamos precisando muito nos últimos tempos”, diz João Braga, professor de história da moda da Faap.

É movimento que ultrapassa a barreira estética. Há materiais feitos para costura à base de fungos. Uma das novidades é um couro inovador, que não representa sofrimento animal, nas versões naturais, e tampouco usa petróleo, como acontece nos cortes sintéticos. Trata-se do Mylo, tecido vegano que leva em sua composição o chamado micélio, um tipo de filamento que compõe o cogumelo. Dele, montam-se placas têxteis que podem ser usadas em trajes e acessórios. Apostaram na nova onda a estilista britânica Stella McCartney, que lançou um conjunto de top e calça; a alemã Adidas, com um par de tênis; e a francesa Hermès, que preparou uma bolsa feita com o material. Ainda que essas peças não estejam disponíveis para a compra, indicam o que virá. “É o estopim para uma definitiva mudança de mentalidade”, diz a professora do curso de moda da Faculdade Santa Marcelina Monika Debasa.

Tecidos inovadores andam de mãos dadas com o espírito do tempo. Pesquisas mostram que 57% dos consumidores estão dispostos a mudar hábitos para reduzir o impacto no planeta. Na vanguarda dessa postura estão os millennials, nascidos entre 1981 e 1996. E não há, na natureza, elemento mais adequado a essa estrada do que os cogumelos, que brotam com facilidade, de traços diversos — afeitos, portanto, a levar os consumidores a viagens fashion, como ensinaram Lewis Carroll e Walt Disney.

Publicado em VEJA de 23 de junho de 2021, edição nº 2743

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