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O adeus à mamãe foi cruel, lembra Beth Goulart

A atriz, de 59 anos, fala sobre a perda repentina da mãe, Nicette Bruno, para a Covid-19

Por Raquel Carneiro Atualizado em 15 jan 2021, 09h00 - Publicado em 15 jan 2021, 06h00
Beth Goulart
Arquivo Pessoal/.

Há quase um ano temos aprendido diariamente sobre o que é a Covid-19. Mas, na prática, ninguém consegue se preparar para a perda de uma pessoa amada de um jeito tão rápido como o provocado pela doença. Entre o diagnóstico e a despedida da mamãe, foram apenas 21 dias. O adeus foi cruel. A ausência ainda é muito forte. Eu me solidarizo com as pessoas que sofreram perdas para esse vírus. Posso dizer que a ferida aos poucos está cicatrizando, pois me alimento das boas memórias e da fé que minha mãe me ensinou a ter. Ela era uma mulher positiva, uma fonte inesgotável de alegria. Meu pai (o ator Paulo Goulart) dizia que todo mundo nasceu chorando, mas que a Nicette nasceu sorrindo.

Fizemos tudo para proteger minha mãe. Ela era uma “tempestade perfeita”, pois, além de ter 87 anos, sofria de diabetes e já havia passado por um procedimento cardíaco. Sabíamos que uma pessoa assim, se pegasse a doença, poderia sofrer mais. Por isso, ela ficou isolada em casa, no Rio de Janeiro. Até que, no fim do ano, recebeu a visita de um parente de outra cidade, que não sabia, mas estava infectado. É uma situação delicada. Como recusar a visita de alguém querido que tem saudade? Como dizer não para um afeto e um carinho? É muito difícil. Logo depois da visita, no dia seguinte, esse familiar, de quem preferimos não revelar a identidade, descobriu que estava doente e nos avisou. Eu não estava no dia da visita, então não fui infectada. Mas quatro pessoas que estavam ali foram — sendo a situação mais grave a da minha mãe. Embora eu fique triste por tudo, não cabe a mim julgar. Oro por esse parente, e para que tudo que ocorreu seja ferramenta de aprendizado.

No início, achamos que a mamãe estava assintomática. Demorou uns cinco dias entre o teste positivo e a chegada dos sintomas. Logo surgiu a febre e médicos da família passaram a acompanhá-la de perto. Começamos o tratamento com antibióticos em casa, até que a internação se mostrou necessária. Ela ficou por três ou quatro dias em uma unidade semi-intensiva, com uma máscara respiratória não invasiva. É desse momento a última imagem que guardo dela, quando mamãe sorriu e me deu um tchauzinho de longe. Depois desse dia, ela foi para o centro de terapia intensiva (CTI), até ser intubada. É uma doença muito cruel, pois isola o paciente e isola a família. Um não tem acesso ao outro. Não podemos conversar, dar um carinho. É difícil, como família, vivenciar o dia a dia de uma pessoa com Covid-19. Foi por isso que dei início a uma campanha de oração nas redes sociais. Para que ela ficasse fortalecida, assim como nós, que estávamos longe.

No final, quando ela faleceu, entramos no quarto, totalmente paramentados, e fizemos nossa última oração de despedida. A falta de um velório normal é outra tristeza provocada por essa doença. Por isso me dói ver as imagens de fim de ano, com praias e bares lotados. É importante que as pessoas, especialmente os mais jovens que acham que estão protegidos, tenham cuidado. Que não pensem só em si mesmos, mas no próximo. Você pode voltar para casa e levar o vírus para quem ama. Tome cuidado. Aprenda a cuidar de você e do outro. Esse vírus veio nos ensinar a ser menos egoístas. Sabemos que ninguém transmite um vírus para o outro por vontade própria. Por isso, prefiro não apontar o dedo e julgar ninguém, pois a consciência faz isso por si só. Se for visitar alguém, tenha cuidado para não pôr essa pessoa em risco.

Espero que a partida da minha mãe sirva para um propósito maior. Que famílias despertem para a necessidade de cuidar uns dos outros. A Nicette foi um símbolo de amor, de alegria, de união e de fraternidade. Uma artista maravilhosa que, agora, levou sua arte para mais perto de Deus.

Beth Goulart em depoimento dado a Raquel Carneiro

Publicado em VEJA de 20 de janeiro de 2021, edição nº 2721

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