‘Nosso compromisso era honrar as vítimas’, diz Marina Merlino, de ‘Emergência Radioativa’
Atriz paulistana interpreta Catarina, mãe de duas crianças contaminadas pelo césio-137 em Goiânia
Dona de uma das trajetórias mais impactantes da série Emergência Radioativa, da Netflix, Catarina é a mãe de duas crianças que acaba separada da família por ser a única entre eles que não se contaminou com o césio-137, substância que provocou um desastre radioativo em Goiânia, em 1987. A personagem é encarnada com vigor pela paulistana Marina Merlino, 32 anos, atriz ainda pouco conhecida na TV, mas veterana do teatro e do cinema independente. Personagem ficcionalizada, Catarina mescla histórias distintas de várias mulheres reais, especialmente a sobrevivente Lourdes de Neves Ferreira, mãe de Leide, garotinha de 6 anos que virou símbolo da tragédia. Confira a seguir entrevista da atriz a VEJA.
O que mais a surpreendeu ao longo do processo de fazer Emergência Radioativa? Eu já conhecia o caso, era parte do meu imaginário desde criança — a história do “pó azul”, tão próxima do acidente de Chernobyl. Mas eu nunca tinha investigado com profundidade o que aconteceu. Quando recebi o teste, mergulhei de forma obsessiva: li tudo, vi entrevistas, assisti a reportagens e filmes. Pesquisei o processo de responsabilização, as indenizações e como estão as vítimas hoje. O que mais me impressionou foi perceber como se fala pouco sobre isso. Não é um tema tão presente nas escolas, apesar de ser um capítulo enorme da história do país — tanto pelo impacto humano, quanto pelo fato de que médicos brasileiros criaram um protocolo que virou referência mundial. Também me fez pensar em como o Brasil lida com grandes calamidades: muita coisa ainda se repete, para o melhor e para o pior.
Logo após o lançamento da série levantou-se a polêmica de que a produção não consultou os sobreviventes. O que acha dessa escolha? Esse é um tema delicado. Entrei no projeto duas semanas antes das filmagens, então muitas decisões já estavam tomadas. Sei que a produção entrevistou alguns sobreviventes, mas não todos. Na minha percepção, a série não tenta fazer uma cinebiografia fiel. Os personagens são condensações de várias histórias reais. A Catarina, por exemplo, reúne experiências de diferentes pessoas, não só da Lourdes, mãe da garotinha contaminada, com quem minha personagem tem mais paralelos: quando ela é separada da filha, a Catarina é liberada para o convívio social, algo que a Lourdes não foi, ela continuou isolada, mas outras pessoas foram. Então, vejo essas personagens como representações amplas — especialmente de mulheres que sustentam o mundo em situações extremas. Nosso compromisso no set era honrar as histórias das vítimas com respeito e dignidade.
As mulheres foram essenciais para que essa tragédia não fosse maior. Como foi integrar esse time? Sim, as mulheres meio que salvam o mundo. Isso se repete em várias situações, inclusive na pandemia vimos essa presença racional feminina forte. Na série, havia uma consciência coletiva disso. Para mim, o símbolo disso é a cena da separação entre mãe e filha no ônibus. A cena não era exatamente daquela maneira como foi feita. Mas nosso diretor, Fernando Coimbra, que é muito generoso, muito sensível, notou que era uma cena desafiadora, que tinha uma coreografia envolvendo muita gente e crianças, então ele nos deixou criar e ficou daquela forma. A cena ficou muito potente, pois estávamos todos juntos colaborando.
Como foi trabalhar com as crianças, especialmente a Mariana da Silva, que interpreta a Celeste? Foi muito especial. A Mariana e o Enzo Ignácio, que faz o Claudinei, são talentos incríveis. Havia um cuidado enorme no set, com equipe dedicada ao elenco infantil, acompanhamento dos responsáveis e pausas sempre que necessário. Mesmo não estando em cena na sequência do hospital, por exemplo, eu participei de momentos sensíveis nos bastidores, justamente para que ela se sentisse mais segura: estavam nos bastidores a mãe dela na vida real e eu, a mãe na ficção. Então foi um ambiente muito respeitoso — algo que nem sempre acontece, mas que fez toda a diferença.
Como analisa esse momento da sua carreira? Estou muito feliz, mas ainda assimilando tudo. Comecei no teatro muito jovem, aos 16 anos, e venho de uma formação muito ligada ao teatro e ao cinema independente, autoral. Essa é a primeira vez que meu trabalho chega a um público tão amplo. E isso abre portas — novas parcerias, novas possibilidades, inclusive internacionais, o que me anima muito. Neste momento estou envolvida com projetos em desenvolvimento, um filme do diretor argentino Pedro Wallace, e uma peça de teatro. No momento, estou aberta a novos trabalhos — e com saudade de estar no set.
Como tem sido a repercussão da série? Impressionante. A série entrou no top 10 em 26 países — é difícil até dimensionar. Tenho recebido mensagens da Turquia, da Espanha, de vários países latino-americanos. É muito emocionante, principalmente porque a série trata de um tema tão importante. As pessoas estão pesquisando, querendo saber mais sobre os sobreviventes. Isso dá um senso de propósito ao trabalho. E, pessoalmente, também estou muito feliz com a visibilidade. Nem sempre esse tipo de exposição vem acompanhada de carinho — e, dessa vez, está vindo. Estou muito grata.







