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‘Negar a ciência é loucura’, diz autor de nova biografia de Galileu

O astrofísico Mario Livio, que foi pesquisador do telescópio Hubble, fala a VEJA sobre o legado e as lições atualíssimas do gênio perseguido pela Inquisição

Por Marcelo Marthe 7 jun 2021, 10h29

Nascido na Romênia e hoje cidadão israelo-americano, o astrofísico Mario Livio trabalhou por mais de duas décadas no lugar dos sonhos para qualquer cientista da sua área: o centro de pesquisas do telescópio espacial Hubble. Nessa posição, conduziu estudos importantes sobre as supernovas e participou da fascinante descoberta de que a velocidade de expansão do universo está se acelerando. Aos 76 anos, ele também é um autor de divulgação científica reputado e está lançando no Brasil, pela editora Record, Galileu e os Negadores da Ciência. O livro é uma estupenda biografia do homem que fundou a ciência moderna, fez descobertas fundamentais sobre a física e a astronomia, e acabou condenado por heresia pela Inquisição por defender que a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário.

Para além de seu vasto conhecimento sobre as inovações do gênio italiano, Livio usa o exemplo de seu ídolo – Galileu Galilei (1564-1642), afinal, foi um dos pais da astronomia – para lançar um alerta sobre os perigos da onda de negacionismo científico que, impulsada pelas redes sociais e pelo radicalismo político, intoxica o debate atual. Confira os principais trechos da entrevista exclusiva a VEJA:

Já no título de sua biografia, Galileu e os Negadores da Ciência, o senhor estabelece uma conexão entre a censura às ideias do astrônomo pela Igreja, no século XVII, e o negacionismo dos dias de hoje. Por que resolveu narrar a vida do personagem sob esse prisma? Eu me animei a escrever sobre Galileu, primeiramente, porque sou um astrofísico, e não podia deixar de admirá-lo. Além disso, constatei que nunca sua biografia havia sido recontada por um cientista, e já era hora para isso acontecer. Mas eu também acredito que o mundo precisa com urgência relembrar sua história nesse momento por que passamos. Estou chocado com o nível de animosidade que se vê hoje em relação à ciência, do ceticismo com o aquecimento global à desinformação sobre a Covid-19. Galileu teve de lidar com uma realidade muito diferente há 400 anos. Mas sua história oferece lições valiosas para nós.

Como encontrar pontos de contato entre contextos históricos tão distintos? No caso de Galileu, o negacionismo tinha a ver com um conflito não entre ciência e religião, como muitas vezes é descrito, mas entre a razão e as interpretações literais da Bíblia. Ele próprio dizia que a Bíblia não foi escrita como um livro de ciências. Foi escrita para nossa salvação, para nos guiar na ética e no comportamento – mas não para ensinar ciência. Os motivos da negação são diferentes em relação aos dias atuais, mas o resultado é o mesmo. Em ambos os casos, no final das contas, a ciência está sendo atacada por vozes que pregam a ignorância e a intolerância.

  • Quase 400 anos após a sina de Galileu, vemos agora nas redes sociais gente que defende o terraplanismo e crendices sobre a Covid-19. Onde foi que a humanidade errou? Eu não iria tão longe a ponto de dizer que erramos, mas não fizemos a lição de casa muito bem. Precisamos transmitir às pessoas desde muito cedo o valor da ciência. Quero dizer, já no pré-jardim de infância temos de ensinar às crianças, se não a ciência em si, a importância de apreciar e respeitar o que a ciência faz. Veja, eu acredito que nem todo mundo precisa ser um cientista – Deus me livre, aliás, se todos fossem cientistas. Mas precisamos que até mesmo as pessoas que não sejam versadas na ciência tenham uma avaliação de como ela funciona e do que ela faz.

    Como assim? Cada pessoa precisa saber o que a ciência fez por nós. Por exemplo, a expectativa de vida hoje é o dobro do que era na época de Galileu, e esse avanço extraordinário se deu apenas por causa da ciência. É preciso que todos saibam que as coisas maravilhosas que usamos no dia a dia – do celular ao sistema GPS – só se tornaram possíveis graças ao trabalho de físicos e outros cientistas. Nem todo mundo precisa conhecer as complicações da mecânica quântica ou da Teoria da Relatividade, mas é importante que saibam o que essas ideias fizeram pela humanidade. É preciso demonstrar às pessoas, sobretudo, que nunca é uma boa ideia apostar contra o julgamento da ciência – não por que a ciência esteja sempre certa ou seja infalível, mas pelo fato de ter as respostas possíveis e comprovadas sobre um fenômeno até aquele momento. Nos casos em que a vida humana está em jogo, como na pandemia, ou o futuro da biosfera da Terra encontra-se ameaçado, como na mudança climática. Apostar contra o julgamento da ciência não é só um erro – é loucura.

    Voltando a Galileu: até que ponto as ideias concebidas por ele ainda influenciam a ciência? Galileu é um dos fundadores da ciência moderna, em muitos aspectos. Mas não só na astronomia: ele fez descobertas célebres nessa área, claro, mas talvez seu maior legado seja a criação do que chamamos de método científico. Galileu mostrou que só existe uma maneira de determinar as verdades sobre a natureza, que é se valer de experimentos e observações muito pacientes. E mais: ele também disse que o universo foi escrito na linguagem da matemática. Hoje sabemos que tudo isso é a mais pura verdade.

    O senhor trabalhou por 24 anos no telescópio Hubble e agora escreve sobre o gênio que usou um telescópio pela primeira vez na astronomia. Qual a importância dessa inovação? O telescópio de Galileu causou uma revolução.Toda vez que uma nova geração de telescópios surge, vemos um salto em nosso conhecimento do universo. E, é claro, o Telescópio Espacial Hubble nos ensinou muitas, muitas coisas novas sobre o universo. E no final deste ano – em outubro, se tudo correr bem – o Telescópio Espacial James Webb será finalmente lançado, e irá certamente nos mostrar mais coisas assombrosas, como as galáxias mais antigas que apareceram no universo, por exemplo.

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