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‘Não quero ser só o gay do telejornal’, diz Marcelo Cosme, da GloboNews

Apresentador do programa 'Em Pauta' conta como os filmes do ator Paulo Gustavo lhe deram coragem para revelar sua orientação sexual aos pais

Por Felipe Branco Cruz Atualizado em 10 Maio 2021, 15h45 - Publicado em 10 Maio 2021, 14h00

O apresentador do programa Em Pauta, da GloboNews, Marcelo Cosme, de 41 anos, surpreendeu os telespectadores do noticiário na última sexta-feira, 7, ao revelar ao vivo que o filme Minha Mãe é Uma Peça, de Paulo Gustavo, o ajudou a tomar a decisão de contar para a sua família que ele era gay. “Eu pensava o seguinte: se a minha mãe vendo uma mãe aceitando um filho gay e rindo na TV, então ela vai me acolher quando eu contar’”, disse Cosme ao vivo, comentando sobre a personagem de Paulo Gustavo, a Dona Hermínia, que no filme tem um filho gay.

A revelação foi feita quando ele conversava com os comentaristas do jornal sobre a morte de Paulo Gustavo, em 4 de maio, em decorrência da Covid-19. Em entrevista a VEJA, Marcelo conta que demorou muito tempo para se assumir gay — o que ocorreu em 2016, quando ele tinha 38 anos e já era pai de um menino. A seguir, leia os principais trechos da entrevista.

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Como os filmes do Paulo Gustavo o ajudaram a se abrir com sua família sobre sua orientação sexual? Sou de Rio Grande, uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, bastante conservadora. Só fui contar para a minha mãe que era gay em 2016 e para o meu pai dois anos depois. Até isso acontecer, eu já tinha assistido aos dois primeiros filmes de Minha Mãe é Uma Peça. E se a minha mãe achava a Dona Hermínia, personagem de Paulo Gustavo, engraçadíssima, e essa mesma personagem tinha um filho gay, então quando eu contasse para ela que também era gay, as coisas poderiam ser mais tranquilas para mim. A reação da minha mãe foi me dizer: “O meu medo é que você sofra na rua. Mas aqui dentro de casa eu vou te apoiar e te amar para sempre”, que foi a mesma coisa que a mãe do Paulo Gustavo disse para ele. O Paulo Gustavo trouxe essa leveza para que a gente possa lidar com a nossa sexualidade. Ele teve um papel fundamental para eu tomar o primeiro, o segundo, o terceiro passo em minha aceitação. 

O ambiente de um telejornal é bastante sisudo. Como foi a postura da Globo em relação ao seu comentário ao vivo? Eu já tinha revelado, no início do ano, que namorava um cardiologista, ao comentar sobre a pandemia. Meu namorado trabalha em uma UTI de coronavírus. Quando falei isso no ar, teve uma grande repercussão nas redes sociais. Mas quando sai do estúdio, ninguém falou absolutamente nada comigo porque isso é muito natural na emissora. Aqui ninguém é tratado como o gay, o negro, o gordo. Todo mundo é igual. Na nossa equipe temos diversas pessoas homossexuais. Por que meus colegas podem falar que têm esposa, marido e eu não poderia falar que tenho namorado? Enquanto isso chamar a atenção das pessoas, a gente vai precisar falar. Aqui na Globo, graças a Deus, me sinto muito à vontade. 

As redes sociais se tornaram um ambiente propício para disseminar preconceitos. Sentiu isso após falar ao vivo sobre seu namorado? Pelo contrário, eu recebi uma enxurrada de mensagens positivas. Ganhei 10.000 seguidores em um dia. A Fátima Bernardes e a Sandra Annenberg, que são dois ícones do telejornalismo brasileiro, me mandaram mensagens dizendo que o que eu fiz foi importantíssimo. Se elas me elogiaram, quer dizer que eu estou no caminho certo. 

Não existe no Brasil um apresentador de telejornal assumidamente gay. Você vai carregar essa bandeira? Não sou militante da causa LGBT. Mas acho que todo mundo tem o seu papel. Não quero ser só o gay do telejornal. Eu sou o Marcelo, filho, pai, jornalista, gay, vizinho, cunhado, colega de trabalho. Ser gay não é menos ou mais importante de tudo o que eu sou. Mesmo não sendo militante, eu tenho um papel fundamental. Nunca tive referências gays dentro do telejornalismo com apresentadores. 

Você demorou para se assumir, antes namorou outras mulheres e tem um filho. Como foi o caminho que trilhou para chegar até aqui? Eu tenho um filho de 21 anos (ele completa 22 em 25 de maio) que se chama Eduardo. Eu fui pai com 19 anos. O Eduardo já conheceu dois namorados meus. O atual ele só conhece por videoconferência. Meu filho sempre levou tudo isso muito tranquilamente. Sinto que esta nova geração é mais tranquila com relação a isso. Ele nunca teve vergonha do pai ser gay. Ele tem uma namorada que também lida numa boa com isso. Eu namorei a mãe do Eduardo ainda na juventude. Depois que me separei dela, eu noivei com outra mulher e me separei também. Foi só com 28 anos que eu tive coragem de ficar com o primeiro homem. Depois disso, ainda levou dez anos até contar para os meus pais, quando eu já tinha 38 anos. Mas só tenho essa vida plena mesmo, de uns dois anos para cá. 

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