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‘Não imito Chacrinha. Ele acontece’, diz Stepan Nercessian

Ator rompe jejum de mais de quinze anos com o teatro para interpretar o Velho Guerreiro em musical que estreia nesta sexta, no Rio, com texto de Pedro Bial

Por Da Redação 14 nov 2014, 10h50

‘Se ele estreasse hoje, acho que nem poderia ir ao ar, porque o mundo está muito politicamente correto’, diz o diretor do espetáculo, Andrucha Waddington.

Quando foi convidado pelo diretor (consagrado no cinema, agora estreando no teatro) Andrucha Waddington para interpretar Chacrinha em um musical, Stepan Nercessian achou uma loucura: além de não saber cantar, não via nada em comum com o Velho Guerreiro. Ainda assim, aceitou interromper o jejum de mais de quinze anos com o teatro. “Afinal, estávamos falando de Chacrinha. E eu disse que só voltaria por uma experiência fantástica, porque o teatro é algo que te consome muito, exige dedicação e entrega total”, conta. Mas foi só começar a se caracterizar como um dos maiores ícones da TV brasileira, que o ator se viu possuído pelo personagem. “Não imito o Chacrinha, mesmo porque não sei imitar ninguém. Ele acontece, naturalmente. Já tenho a voz estragada igual à dele, não forcei nada. Até minha barriga começou a fazer sentido”, diverte-se.

A semelhança conquistada com a ajuda do figurino – composto de peruca branca e óculos de armação grosseira – deixou até o próprio Stepan impressionado. Como protagonista de Chacrinha, O Musical, ele estreia ao lado de um elenco de mais de vinte atores-cantores-bailarinos, nesta sexta-feira, no Rio. Na tarde de terça, trechos da produção foram exibidos em sessão para a imprensa. Foi quando Stepan falou sobre os desafios de viver uma figura tão emblemática. Na cena que abre o segundo ato, Chacrinha sai de uma cabeça gigante dele mesmo, colocada no centro do palco que remonta seu Cassino. A cartola brilhante esbarra na alegoria, ele esbraveja. A cena ilustra bem a personalidade explosiva do apresentador, mas não estava no roteiro. “Foi puro improviso, e a peça está cheio deles. É o que acontece quando você está aberto, livre e a serviço da história”, disse o ator.

Entre os convidados que passam como um furacão pelo palco, estão alguns dos principais nomes da música brasileira até hoje, como Gonzaguinha, Elba Ramalho e Fábio Jr.. Não poderiam faltar, claro, Rosana/Como Uma Deusa e Ultraje a Rigor/A Gente Somos Inútil. Derci Gonçalves também desfila seus palavrões e todos se embolam quando um funk dá a batida inicial para cenas de forte apelo sexual. De maiô cavado, as chacretes descem para dançar no meio da plateia, que em certo momento será chamada a participar. Tudo bagunçado, esdrúxulo e bizarro, como pediria Chacrinha. “Se ele estreasse hoje, acho que nem poderia ir ao ar, porque o mundo está muito politicamente correto”, lamenta Andrucha. Autor do texto, Pedro Bial discorda: “Ele brigou com Deus e o mundo para desengravatar a TV, e nos libertou a todos. Tenho certeza que daria um jeito”.

Mas nem tudo se resume aos momentos cômicos embalados pelas extravagantes cores dos figurinos e cenários. Pelo contrário: o espetáculo explora a cada momento os universos distintos de Chacrinha e Abelardo, e o conflito interno do apresentador, diagnosticado como maníaco-depressivo. “Eu nasci um, criei o outro e, agora, os dois são a mesma pessoa”, conta ele, na cena da peça em que recorre a um especialista. O primeiro ato é dedicado à infância e adolescência em Pernambuco. No segundo, o adulto Chacrinha é atormentado pelo jovem Abelardo. “Essa é uma trajetória enigmática. Abelardo não deixou pistas muito claras de como criou Chacrinha. Na verdade, é um produto do folclore brasileiro que nasceu de um processo inconsciente”, observa Bial. Léo Bahia, que vive o protagonista da primeira fase, agradece: “Isso me deu mais liberdade para criar o meu Abelardo”.

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A produção de 12 milhões de reais é grandiosa em todos os números. O repertório visita 73 músicas em duas horas de espetáculo – divididas entre os dois atos. “Nossa preocupação, desde o início, era de que fosse ágil. Queria um trabalho mais compacto, para ter um espetáculo delicioso. Como espectador, acho esse um tempo bom”, aposta Andrucha. O figurino tem mais de 500 peças, e o palco recebe ainda 34 cenários. Essa última parte exigiu um processo específico da equipe. “Tivemos oito dias de ensaio só para acertar a mecânica da retirada e chegada de cenários e figurinos, para não engarrafar os bastidores”, revela o diretor. Chacrinha, O Musical encerra a trilogia da produtora Aventura, que começou com Elis, A Musical e Se Eu Fosse Você, O Musical.

https://youtube.com/watch?v=RhwuDXoH9Uo

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