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Não basta ser famoso, tem de ser bom pai, dizem especialistas

Por Maria Carolina Maia - 29 set 2009, 19h05

Nelsinho com o pai, Nelson Piquet (Reprodução)Ter pai ou mãe famoso pode desestabilizar a personalidade e a carreira de alguém? A rigor, a interferência da fama está condicionada ao tipo de relação que existe entre pai e filho. Ao menos é assim que avaliam os especialistas ouvidos por VEJA.com. Qual teria sido o peso do parentesco, por exemplo, no caso do piloto Nelsinho, que forjou um acidente para renovar contrato com a equipe Renault? Nelsinho é filho do tricampeão de Fórmula-1 Nelson Piquet. “O fato do pai ser consagrado no mesmo esporte pode tê-lo pressionado a fazer o que fez, mas provavelmente esta não seria a sua única razão”, avalia Maria Inês Rondello, psicóloga da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “As decisões estão mais ligadas à estrutura psíquica da pessoa e à forma como ela foi educada.” Em outros termos, coloca o psicanalista Paulo Sant�Anna, a questão principal é como o pai lida com sua própria imagem e como, em decorrência disso, exerce a sua função. “Se ele souber diferenciar sua personalidade do seu papel social, reagirá a seus filhos como pai, e não como celebridade.”

No caso de Edson do Nascimento, o Edinho, herdeiro de Pelé, a sombra do genitor foi um obstáculo. “Eu me sentia injustiçado, pois, ainda jogador iniciante, era cobrado como se fosse um craque”, diz Edinho. Sem mostrar um grande futebol, o ex-goleiro do Santos descalçou cedo as chuteiras, e passou a enfrentar dificuldades na vida pessoal. Nos últimos dez anos, protagonizou notícias no caderno policial. Chegou a ser condenado a seis anos de prisão em regime semi-aberto por tomar parte em um racha que resultou na morte de um motociclista, em Santos, e ficou seis meses detido por suspeita de ligação com traficantes de drogas.

Excesso de proteção – Para a psicanalista Ana Alberto Marques/Tribuna de SantosOlmos, o caso de Edinho pode indicar ser uma educação sem limites estritos – e não o peso do sucesso paterno – um verdadeiro prejuízo a alguém. “O problema é geral na sociedade, e se agrava em certas circunstâncias, como no caso de celebridades e de pais ricos, que costumam resgatar os filhos do aperto”, diz Ana. “Os pais tiram as crianças de situações de conflito, as protegem, e não é possível amadurecer sem ver a realidade.”

Questionado sobre a relação que tem com o pai, Edinho diz que Pelé é, muitas vezes, mais um irmão e um amigo do que um pai. Essa mistura de papéis é condenada por psicólogos e psicanalistas. “Pai nunca deve ser amigo. A estrutura familiar deve ser clara, cada um no seu lugar. Pai e filho devem ter uma relação amistosa, claro, mas pai é pai e está hierarquicamente acima do filho”, diz a psicóloga Maria Inês Rondello.

Outro exemplo do excesso de proteção é o episódio envolvendo a apresentadora infantil Xuxa e sua filha, Sacha, no Twitter. Sacha postou uma mensagem na página da mãe sobre o filme que ambas estavam rodando. A menina, que tem 11 anos, escreveu que iria fazer “uma sena [sic] com a cobra”. O erro de português não foi perdoado pelos internautas, rendendo grande volume de críticas e uma defesa agressiva por parte de Xuxa. “Para quem não sabe, minha filha foi alfabetizada em inglês, vou pensar muito em colocar ela pra falar com vocês, ela não merece ouvir certas m…”, disparou a apresentadora. “Errar é humano e a única maneira de aprender. Se a menina é protegida em tudo, ela pode se tornar incompetente para a vida”, analisa Ana Olmos.

A ambivalência da fama – Rafaela Fischer é filha de uma ex-Miss Brasil, a atriz Vera Fischer, com o ator Perry Salles. Cresceu querendo ser bonita como a mãe, e sofrendo ao se distanciar do modelo perseguido. Teve depressão e fez terapia. “Eu era insegura. Tinha a minha mãe como espelho, um espelho muito duro. Sofri com isso muito tempo”, afirma a atriz. Para Ana Olmos, a depressão de Rafaela foi um sinal positivo. “Quando a pessoa deprime, é porque tem um contato maior com a realidade. Encarar a dor psíquica, e a depressão é uma porta de entrada para a percepção da realidade e a mudança.”

Mas Rafaela reconhece que há um lado positivo em ter uma mãe influente. Ela, por exemplo, sempre esteve perto da TV, mídia que só agora perdeu o pudor de explorar. A atriz acaba de estrear em horário nobre como a Raquel de Viver a Vida, nova novela das oito da Globo.

Foto de Ana Ottoni/DivulgaçãoO músico Wilson Simoninha, filho de um dos principais intérpretes da MPB, Wilson Simonal, experimentou o avesso de Edinho e Rafaela. Seu pai – um cantor que chegou a ser tão popular quanto Roberto Carlos e viu sua carreira acabar sob a suspeita de delatar colegas esquerdistas para os órgãos de repressão durante a ditadura militar – era mais propenso a fechar portas do que a abri-las. “Se eu não amasse música, esta não seria uma escolha natural”, reconhece. Quanto ao talento musical do pai, que é incontestável, Simoninha afirma respeitá-lo. E, principalmente, não rivalizar com ele – no que certamente receberia a aprovação dos especialistas entrevistados. “Eu sei qual foi o tamanho do meu pai e qual é o meu. Você tem de ter tranquilidade para saber o seu caminho. Depois de tanto tempo de carreira, eu tenho isso. A experiência traz maturidade, você fica bem resolvido.”

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