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Na pista com Madonna: as táticas da cantora para continuar no jogo do pop

Com o novo álbum, Confessions II, ela dá sequência a um sucesso do passado e prova que continua ativa, criativa e sempre pronta para se atualizar

Por José Emilio Rondeau 3 jul 2026, 06h00 | Atualizado em 3 jul 2026, 16h17
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“Eu posso ser quem eu quiser”, diz Madonna no curta-metragem que embala o lançamento de seu décimo quinto álbum de estúdio, Confessions II, que chega nesta sexta-­feira, 3, às plataformas digitais. O filme homônimo mescla seis faixas do disco e aterrissou no YouTube depois de estrear no prestigioso Festival de Cinema de Tribeca, oferecendo quase catorze minutos de visuais intrigantes — imagine Madonna caminhando durante a noite em meio a feixes de raios laser verdes disparados de orifícios de dançarinos posicionados de maneira sugestiva. A noitada alucinante conta ainda com perseguições, emboscadas e um inusitado rendez-vous dentro de um banheiro de balada, onde celebridades se unem para dançar com ela — do jogador de futebol brasileiro João Pedro, passando pela top model Kate Moss ao ator inglês Benedict Cumberbatch e à jovem atriz Julia Garner, entre outros. A festa estranha com gente esquisita atesta a declaração inicial. Aos 67 anos de idade — sendo 44 de carreira —, Madonna já encarnou diversos tipos e impactou gerações. Nem assim se dá o direito de descansar sobre os louros do passado.

ANTES... Acima, no clipe de Hung up: aos 47 anos, desafiou as pressões para se aposentar
ANTES… Acima, no clipe de Hung up: aos 47 anos, desafiou as pressões para se aposentar (./Divulgação)

Marca poderosa e facilmente reconhecível, Madonna sabe que, para manter a relevância e a popularidade, é preciso trabalho duro, com astúcia e atualização constante. Foi assim que ela superou marés baixas como a de 2003, quando o disco de tom político American Life irritou gregos e troianos — a revista americana Rolling Stone praticamente decretou o fim da carreira da artista na época. “Parece que fazer discos não é mais o ponto forte dela”, ralhou a publicação. Então tratada com o preconceito que envolve a palavra “quarentona”, a estrela pop era empurrada na direção da aposentadoria. Em 2005, ela se levantou das cinzas com um collant cor-de-rosa e movimentos de dança elaborados para provar o contrário com o incontestável Confessions on a Dance Floor, um de seus maiores best-sellers, ganhador do Grammy de melhor álbum de dance e merecedor de menção no livro de recordes Guinness, por liderar as paradas de sucesso em quarenta países. O disco dançante condensou e reafirmou toda a força artística e comercial de Madonna, reunindo no mesmo caldeirão o grupo ABBA — a quem ela implorou pelo direito do sample que abre a música Hung up —, os sintetizadores do italiano Giorgio Moroder e a energia pulsante dos Pet Shop Boys na faixa Sorry. Graças às doze canções daquele álbum, Madonna virou o jogo. Agora, ela anseia por repetir a dose.

Confessions II é um segundo capítulo assumido de uma história de sucesso. Com o disco-continuação, ela volta a colocar seu poderio de guerra em campo em um cenário musical muito mais volátil e diverso, comparado ao que ela ajudou a criar. Para começar, o novo álbum quebra um jejum de sete anos da cantora sem lançar músicas inéditas — uma eternidade para uma indústria sedenta por novidades. Nesse tempo, pipocaram talentos interessantes no meio, como a performática cantora Chappell Roan, de 28 anos, e a provocativa Sabrina Carpenter, 27 — esta, talvez, a mais próxima de representar o legado de Madonna. Não à toa, a veterana recrutou a loirinha de 1,52 metro de altura — poucos centímetros mais baixa que ela — para uma parceria na canção Bring Your Love. Longe de antagonizar com as novinhas, Madonna aprecia, alimenta essa linhagem (sabe que são suas crias, afinal) e estabelece alianças que beneficiam ambos os lados. Aconteceu assim no passado — com Britney Spears e Christina Aguilera — e a fórmula segue igual. Quando as estrelas do pop dialogam, os fãs escutam — e aprovam. A tática é uma dentre as várias dominadas pela cantora para continuar no jogo.

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TÁTICA - Com Britney Spears: cantora estabelece alianças no universo pop
TÁTICA – Com Britney Spears: cantora estabelece alianças no universo pop (Scott Gries/Getty Images)

O lançamento de Confessions II foi precedido por uma enxurrada de ações bem sacadas de marketing, parcerias e aparições exclusivas, em um rolo compressor de divulgação. A ação mais impactante se deu no dia 5 de junho, em Nova York, onde ela protagonizou um show pop-up surpresa na Times Square, numa parceria com o aplicativo de relacionamentos homoafetivos Grindr, para celebrar o orgulho LGBTQIA+. Cercada pelo recorte mais fiel de seu público, ela divulgou ao vivo uma das canções inéditas, a atmosférica Love Sensation. “Baby, quando você está comigo, não há nada que eu não possa fazer”, diz ela na letra, reforçando o laço de reciprocidade com os fãs.

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NOVINHA - Dueto com Sabrina Carpenter: veterana gosta de abraçar suas crias — e reforçar seu legado
NOVINHA – Dueto com Sabrina Carpenter: veterana gosta de abraçar suas crias — e reforçar seu legado (@sabrinacarpenter/Instagram)

Sob muitos aspectos, Confessions II é uma volta às raízes — e, também, um freio de arrumação. Depois de décadas explorando em outra gravadora diferentes possibilidades de pop global, do reggaeton latino-caribenho ao batuque de Cabo Verde, e até um dueto com a brasileira Anitta, Madonna reatou com sua casa discográfica original, a Warner, e retomou uma parceria de enorme sucesso com Stuart Price, o mesmo produtor que esculpiu as faixas de Confessions on a Dance Floor. Ela se aboletou na residência de Stuart, numa área verdejante de Londres — e lá direcionou seu foco ao começo de tudo, aos sons das pistas de dança da Nova York da virada dos anos 1970 para 1980, adaptando para a sensibilidade (e seu estado de espírito) atual. Sem abrir mão da essência irreverente que fez dela símbolo de liberdade (e libertinagem), Madonna, volta e meia, gosta de relembrar ao mundo com quem ele está falando: um produto genuíno e original, resultado de quase meio século de aperfeiçoamento e capacidade surpreendente de se reenergizar. Se as demais estrelas do momento são sensações, Madonna é legendária — e continua fervendo na pista.

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Publicado em VEJA de 3 de julho de 2026, edição nº 3002

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