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“Na guerra, conseguimos enxergar a humanidade e o lado bom das pessoas”

A Veja, o cineasta libanês Oualid Mouaness, do filme “1982”, fala sobre o Líbano e a Ucrânia e que o diálogo e a verdade são os melhores caminhos para a paz

Por Simone Blanes Atualizado em 11 jun 2022, 08h40 - Publicado em 10 jun 2022, 18h44

O filme “1982”, do cineasta libanês Oualid Mouaness, com Nadine Labaki, em cartaz nos cinemas brasileiros e trazido para o País pelo Estúdio Escarlate, ganhou destaque no The New York Times, na edição dos 101 filmes mais interessantes para assistir no verão novaiorquino. O longa também foi elogiado pelo Los Angeles Times. “1982 é atual, comovente, inspirador e representa alguns dos papéis cruciais da cultura”, diz Joana Henning, CEO do Estúdio Escarlate e distribuidora da obra no Brasil.

Oualid Mouaness passou por São Paulo para lançar o filme, que representou o Líbano no Oscar 2020 e foi reconhecido com 19 premiações internacionais. O filme tem produção executiva do diretor teatral Jorge Takla. No Rio, “1982” está em cartaz no Espaço Itaú de Cinema, Estação Net Gávea e no Kinoplex Fashion Mall.

A VEJA, Oualid falou sobre o filme, que “não é de guerra, e sim sobre o povo” e como as pessoas não podem passar incólumes de situações extremas como a que ele vivenciou no Líbano – o longa é autobiográfico – e a que acontece atualmente, na Ucrânia.

VEJA: Embora retrate a guerra, você diz que o filme não é sobre isso. É sobre o que?

Oualid Oumaness: Algumas pessoas que assistem a “1982” acham que verão um filme de guerra. Mas é sobre o povo. E sobre como as pessoas tentam encontrar alguma normalidade para continuarem com suas vidas já que uma guerra, quando acontece, não é por escolha delas. Ela vem do que está acima, ao redor e abaixo, direto para nossas casas. As pessoas nunca vão imaginar que passarão por isso. E não é só no Líbano. Ela pode ser traduzida para todas as cidades do mundo que já sofreram em uma guerra, da Argentina ao Líbano, da Síria à Ucrânia.

VEJA: Dá para passar incólume a uma situação traumática como essa?

Oualid: Não. Mas quando as pessoas se veem nessa situação, conseguimos encontrar a humanidade nelas. O lado bom e solidário. Para mim, isso é a coisa mais importante. O aprendizado que se tira com situações traumáticas é que todos passamos, em maior ou menor proporção. Mas essa humanidade é o que universaliza a noção da guerra, porque no final do dia, não há soluções imediatas, como nos prova a História.

VEJA: Mas a história se repete. As guerras continuam como o caso da Ucrânia…

Oualid: Eu tento passar uma mensagem de esperança com o filme pelo olhar da nova geração e por meio de uma história de amor, mas a coisa mais triste sobre “1982” é ver que a História se repete e não aprendemos nada com ela. Fazemos esses filmes com o intuito de dar um passo atrás e perceber, mas não esquecer o que aconteceu e não deixar acontecer de novo. Só que continua acontecendo e da mesma forma. Em 82, o Líbano era muito complexo quando houve a invasão de Israel. Em 2006, aconteceu de novo, uma nova invasão mesmo com tudo mais simples. O filme é uma tentativa de olhar para trás e andar para frente.

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VEJA: O filme é autobiográfico?

Oualid: Sim. Fui muito influenciado por romances que assisti quando criança como “A Lagoa Azul” e “Amor sem Fim” (risos), então isso formou uma criança com ciência do amor, não tão tímido como o garoto do filme. Mas sim, é baseado na minha experiência em meu último dia de escola no Líbano, em 1982. Tudo o que acontece no filme vem da minha memória e tudo o que é mostrado ali está da mesma forma como me recordo.

VEJA: E o que se recorda da guerra?

Oualid: Um dia antes havia muita gente em cafés e restaurantes, e de repente, no dia seguinte, a vida inteira é destruída, pois um país está lutando contra o seu por algum motivo: poder ou terras. No Líbano, temos pessoas apoiadas por Israel na esquerda e pela Rússia na direita, armados por ambos os lados, cada um achando que está fazendo a coisa certa. E isso é péssimo. Não há diálogo. O melhor caminho é sempre o diálogo e a verdade. Ainda mais em situações extremas. O diálogo precisa acontecer, mas a guerra é uma indústria. Minha esperança é que meu filme toque os corações e mentes das pessoas que um dia governarão o mundo.

VEJA: A verdade é sempre o melhor caminho?

Oualid: Em 2006, meus sobrinhos tinham 6 e 7 anos de idade e passaram pela mesma experiência que eu, com a idade deles. Eles não haviam passado pela guerra, não sabiam de onde aquilo vinha. Se realmente queremos a paz, as novas gerações precisam que os diálogos aconteçam. O filme mostra o lado libanês da narrativa e respeita a humanidade de cada indivíduo. Poucas pessoas conhecem a visão do Líbano sobre a guerra. Em 1982, mostro quem somos, exatamente igual a qualquer povo, com os mesmos princípios, os mesmos valores. Nos apaixonamos, sofremos por amor, tentamos encontrar formas de nos comunicarmos. E isso é algo que os outros lados atuantes em guerras não veem. Para mim, o filme traz para casa esse sentimento.

VEJA: Como não deixar a guerra contaminar as crianças, por exemplo?

Oualid: Quando a guerra da Ucrânia começou, toda a nova geração de crianças foi contaminada com sofrimento, raiva, dor. Isso cria o desejo de vingança, é muito difícil ter a maturidade de não busca-la. Por isso insisto no diálogo. Nesse caso, não é uma guerra entre o povo, é entre governos. O filme leva uma mensagem de paz, para que a história não se repita, o que verdadeiramente espero. Temos que continuar trazendo essas histórias.

VEJA: O que espera da audiência brasileira?

Não sei como os brasileiros reagirão ao filme, mas sei que ele transcende as fronteiras. É um filme de amor, cuja história pode acontecer em qualquer lugar do mundo, em qualquer sociedade e cultura. Nos Estados Unidos, o filme foi muito aclamado por pessoas que tiveram alguma experiência e trauma com armas. Se relaciona emocionalmente com as pessoas de modo geral, pois os personagens existem em todos nós. Todos nós já fomos crianças, independente de nossas religiões, crenças, aflições. Quando criança, você não discute posições políticas ou dogmas, você simplesmente brinca e se apaixona. Essas inclinações dos pais são o que, eventualmente, afetarão a vida delas. Por isso, o melhor caminho é sempre a verdade. 1982 é uma história de amadurecimento infantil, pois essas crianças foram forçadas a amadurecer em um único dia. Forçadas a ver um mundo que não conheciam, sentimentos que não conheciam e levar aprendizados disso.

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