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Na crise, animadores brasileiros sobrevivem graças à demanda internacional

Animação perde espaço no país com pandemia, mas profissionais nacionais - que já tinham moral alta - são até mais requisitados lá fora com real barato

Por Tamara Nassif Atualizado em 19 Maio 2020, 13h56 - Publicado em 19 Maio 2020, 10h05

Quando o nacional O Menino e o Mundo foi indicado ao Oscar na categoria de filme de animação, em 2016, os animadores brasileiros já eram figurinhas carimbadas entre os profissionais cobiçados da área, transitando por grandes estúdios do mundo. Da adorável ararinha-azul de Rio (2011) aos mamutes e o faminto esquilo de A Era do Gelo — franquia dirigida pelo carioca Carlos Saldanha —, a Toy Story, Frozen e Moana, é seguro dizer que boa parte dos grandes sucessos animados da última década contam com dedos de profissionais brasileiros nos bastidores. Agora, durante a pandemia de coronavírus, a força da animação nacional dá mais um passo em direção à internacionalização.

Diferentemente de outros setores da indústria do entretenimento, a animação em home-office consegue não só operar dentro de certa normalidade. Graças ao mundo globalizado, pode continuar com o selo de produto de exportação. Guille Hiertz, fundador do estúdio paulistano Split (que, entre vários projetos, faz os desenhos da Turma da Mônica), revela que a demanda internacional aumentou nos últimos meses. “Fechamos dois contratos recentemente, um no Reino Unido, com a Sanrio, que detém os direitos da Hello Kitty, e outro com um estúdio estrangeiro que ainda não podemos dar detalhes”, diz Hiertz, adiantando apenas se tratar de uma empresa que presta serviços para canais como HBO e Netflix.

Parte do apelo do animador brasileiro continua sendo o modo como ele é visto lá fora: como uma espécie de novidade de traços autorais e estilos de desenho muito diferentes do que é visto entre os países que são expoentes da animação, como Estados Unidos, Japão e França. Agora, porém, outro fator pesou na conta da demanda gringa. Com o real extremamente desvalorizado em razão da crise da pandemia, o animador brasileiro se tornou muito mais acessível e atraente para o mercado internacional.

Do outro lado, os profissionais agradecem, mas ainda se assustam com a insegurança do momento, especialmente pela falta de respaldo da Agência Nacional de Cinema (Ancine) e da Secretaria de Cultura do governo federal. “Se o incentivo já era baixo antes da pandemia, ele hoje é praticamente inexistente, e com razão de ser porque o foco é outro. Mas um problema grave é que parte da animação que não dependia de dinheiro público incentivado, que é a publicidade, também está mais devagar”, conta Rui Okusako, diretor do estúdio Mono Animation. “Temos sentido que as empresas estão segurando a mão na publicidade e até se reposicionando. O que afeta nossa renda.”

Projeto de série ‘O Espadachim de Carvão’, apresentado na CCXP 2019 pelo Split Studio. Split Studio/Reprodução

Dilema mundial

No geral, a animação ganhou nova relevância em tempos de isolamento social, vista até como uma alternativa ou complemento ao live-action, com atores de carne e osso. A série Blacklist, da AXN, por exemplo, vai finalizar o último episódio da sétima temporada, interrompido pela pandemia, com animação. “É uma opção de luxo, porque o produto animado é mais caro que a live-action, por ser mais complexo de produzir, mas, na atual situação, ele pode ser feito com segurança dentro de casa, mantendo o cronograma de lançamentos”, diz Hiertz.

Com filmagens paradas a perder de vista, a TV e o streaming têm colocado no ar produções antigas ou algumas que já estavam em fase de finalização. Tirando a Netflix e sua enorme linha de produção, que proporcionou uma pomposa gaveta de títulos prontos, são raros os canais com material inédito. O Cartoon Network é um deles. Recentemente, a emissora infantil lançou o programa de auditório animado Any Malu Show, criado pelo brasileiro Combo Estúdio, que continua a produzir episódios durante a quarentena, exibidos em diversos países da América Latina. “Nós estamos fazendo muita coisa da Malu ainda. Ao mesmo tempo, estamos bastante focados em um novo projeto para um cliente do exterior, fechado há pouco mais de um mês”, conta Fernando Mendonça, sócio e criador do Combo. O estúdio também produziu o programa Super Drags da Netflix, que abriu portas para o mercado internacional.

Enquanto o setor audiovisual luta para se manter de pé, a animação se mostra otimista com o futuro, apesar dos pesares. Mesmo confinados em casa, os artistas brasileiros provam seu valor em terras estrangeiras. Que o apreço por estes profissionais em solo nacional siga o mesmo caminho.

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