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Museu de Jane Austen causa controvérsia ao ligar escritora à escravidão

Instituição deu início a 'um processo de interrogação histórica' que mostra conexão do pai da autora com uma fazenda que usava mão de obra escrava

Por Tamara Nassif 28 abr 2021, 16h21

Localizada no vilarejo de Chawton, na Inglaterra, a Casa-Museu de Jane Austen virou alvo de polêmicas nesta semana ao resgatar conexões da família da escritora inglesa com o comércio de escravos. Ao associá-la ao consumo de chá, açúcar e algodão, na época produtos de mão de obra escravizada, bem como à conexão de seu pai a uma plantação de açúcar na ilha de Antígua, no Caribe, a instituição deu início a “um processo constante e ponderado de interrogação histórica”. A ação não pegou bem nos tabloides da ilha britânica. Em uma rápida reação, as manchetes estampavam se tratar de “um ataque revisionista”, “despertar da loucura” e um “interrogatório inspirado no Black Lives Matter” sobre a predileção da autora por chá.

Com a polêmica, o museu emitiu um comunicado dizendo que “nunca teve a intenção de interrogar Austen, seus personagens ou leitores por beberem chá” e que a decisão foi “mal-interpretada”. Trata-se, na verdade, de uma guinada empreendida pelas instituições culturais da Inglaterra (mas não só) de repensar e reformular as histórias contadas em resposta ao movimento Black Lives Matter do ano passado, da qual a Casa-Museu passou a engrossar o caldo. Invés de fingir que a escravidão nunca existiu, a ideia é reconhecer seus flagelos e imbricações na sociedade como parte do despertar de uma consciência ativamente antirracista.

“Austen viveu durante a era da escravidão e da abolição do comércio de escravos do Atlântico pela Grã-Bretanha em 1807”, diz o comunicado. “Nossos visitantes perguntam cada vez mais sobre isso e, portanto, é apropriado que compartilhemos as informações e pesquisas existentes sobre suas conexões com a escravidão e a menção em seus romances. Essas informações são amplamente acessíveis ao domínio público.”

O chá, além de um gosto pessoal, faz parte de inúmeros trabalhos de Jane Austen – assim como da rotina de muitas famílias de classe alta na Inglaterra da época, como apontado pela diretora do museu Lizzie Dunford. “O tráfico de escravos e as consequências do colonialismo da era regencial afetaram todas as famílias de posses durante o período. A de Jane Austen não foi exceção”, disse Dunford ao The Telegraph. De qualquer forma, a autora não pode ser acusada de promover a venda do produto ou de ter contribuído para a propagação da escravidão. É possível, aliás, associar Austen ao movimento abolicionista: seus autores favoritos, Thomas Clarkson e William Cowper, por exemplo, advogavam a favor do fim da escravidão. Apesar de não ter se pronunciado diretamente sobre o assunto, alguns de seus personagens expressam visões desfavoráveis à exploração, como em Mansfield Park e Emma.

No que diz respeito à administração de uma plantação de açúcar caribenha, os filhos de George Austen nunca desfrutaram de qualquer renda que adviesse de lá. “Acreditamos firmemente que contextualizar Jane Austen no tempo da Inglaterra, em sua própria casa, só fará sua genialidade brilhar ainda mais”, disse a instituição. A autora morou no que hoje é a Casa-Museu durante seus oito últimos anos de vida.

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