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Mostra de Silvio Santos expõe camelódromo das ilusões da TV

A mostra que um museu paulistano dedica a Silvio Santos é menor do que o personagem merece, mas ilumina certas verdades essenciais sobre a vocação da TV

Por Marcelo Marthe 7 dez 2016, 09h20

No começo de novembro, Silvio Santos recebeu pessoalmente profissionais do Museu da Imagem e do Som de São Paulo, o MIS. Em quase oito meses, foi o primeiro e único encontro entre o maior apresentador de TV do Brasil e os organizadores da mostra sobre a sua trajetória, que abre nesta quarta-feira, dia 7. O pessoal do MIS foi a seu camarim, no SBT, para tentar convencê-­lo a dar as caras na abertura do evento, batizado com um dos bordões de seu programa dominical, Silvio Santos Vem Aí!. Em vão: o próprio Silvio garantiu que não viria aí. “Para não causar tumulto, ele prefere pegar o carro, a mulher e aparecer lá em outro dia, de surpresa”, diz André Sturm, diretor do museu. Em se tratando de Silvio Santos, é pagar para ver o que esse “de surpresa” significa. Ra-rai.

Silvio não se negou a dar uma forcinha: topou esclarecer dúvidas sobre momentos-chave de sua história. Com memória prodigiosa, corrigiu e apontou nomes de artistas que faltavam ser elencados na parte da exposição devotada à Caravana do Peru que Fala — espetáculo circense com que ele percorria a Grande São Paulo nos anos 1950. Silvio já era estrela do rádio e ganhou o apelido ornitológico por falar sem parar e ficar vermelho com facilidade. “Ele deixou claro que sabia mais que nós, que esmiuçamos sua vida por meses”, diz Sturm.

A mostra do MIS é, decerto, mais previsível que aquilo que o desbravador da TV mereceria. Conjugando cenários benf­eitinhos e 400 itens como fotos e relíquias do baú do dono do SBT, reconstitui com didatismo, mas sem muita profundidade, sua ascensão desde a juventude dura, quando o filho de imigrantes judeus de origem grega e turca se virava nos trinta como camelô no centro do Rio de Janeiro. Silvio farejara a possibilidade de faturar com a venda de capinhas para título de eleitor nas primeiras eleições após o fim do Estado Novo. Durante um “rapa”, o fiscal se impressionou com sua voz de locutor e o indicou para um teste numa rádio. Passeia-se ainda por outros eventos formadores, como o primeiro lance verdadeiramente empresarial: a administração do alto-falante da barca que fazia o trajeto entre o Rio — sua cidade de nascimento — e Niterói.

Conforme avança pela biografia de Silvio, o espectador vai passando por projeções de imagens e itens de seu acervo pessoal (caso do microfone alemão que ele usava sobre a gravata até 2014, quando se rendeu a dispositivos mais modernos e discretos). Por fim, há recriações cenográficas daquilo que o tornou mais conhecido: os quadros e programas. Da Porta da Esperança ao reality show Casa dos Artistas, passando pelo cantinho do mexicano Chaves, está tudo lá.

Em paralelo, algo une todas essas pontas e impede que a exposição fique só na frugalidade: a ideia de que a vida de Silvio espelha a evolução da TV. De fato, todos que não viveram numa bolha nas últimas seis décadas sabem que o apresentador — prestes a completar 86 anos, no próximo dia 12 — resume esse meio de comunicação no país. Mas, ao expor a continuidade cristalina entre seus tempos de camelô e animador circense e seus feitos no ar, a mostra acaba sendo um lembrete daquilo que a TV aberta sempre foi e será: um camelódromo das ilusões, um circo eletrônico. Nas mãos de alguém com inteligência e faro colossal, isso não é necessariamente ruim. Silvio Santos que o diga.

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