Morre o escritor húngaro Péter Nádas, que ‘voltou da morte’ nos anos 90
Destaque da literatura contemporânea, autor faleceu aos 83 anos
O escritor húngaro Péter Nádas, autor do monumental e controverso Histórias Paralelas, de 1.200 páginas, morreu nesta quarta-feira, 26, aos 83 anos, informou seu assessor à AFP.
Em 2004, Nadas publicou o livro A Própria Morte, obra em que relata a sua experiência de quase morte em 1993, quando foi declarado clinicamente morto após um infarto aos 50 anos, mas acabou reanimado. “Gosto de viver e o corpo gosta de viver. Mas também foi bom morrer. Era um estado tão pacífico, uma tranquilidade que eu nunca havia experimentado antes”, disse ele mais tarde em entrevista à televisão pública húngara.
Frequentemente cotado para o Nobel de literatura, Nádas era um crítico ácido do comunismo, tema que permeia seu romance mais conhecido, Histórias Paralelas. A obra levou 18 anos para ser escrita, e tem como pano de fundo eventos ocorridos na Hungria durante o século passado.
Repleta de personagens e tramas que se cruzam, a obra dividiu opiniões: aclamado por muitos, desagradou os puristas pelo uso de linguagem obscena e a ausência de um desfecho convencional. “Não consigo escrever melhor do que isso”, atestou ele certa vez sobre o trabalho.
Ele também criticou o ex-primeiro-ministro nacionalista Viktor Orbán, descrevendo a Hungria sob seu governo como uma “autocracia” em uma entrevista ao site de notícias 444 em 2022. Orbán foi primeiro-ministro por 16 anos consecutivos até que seu partido perdeu as eleições este ano.
Da fotografia à escrita
Nascido em uma família judaica em Budapeste, em 1942, Nadas vivenciou o brutal cerco à cidade no final da Segunda Guerra Mundial. Anos depois, perdeu a mãe para um câncer e o pai para o suicídio, ficando aos cuidados de uma tia.
Começou na vida profissional como fotógrafo na década de 1960, e se enveredou para a escrita através do jornalismo. Seu primeiro romance, A Bíblia, foi publicado em 1967 às a partir daí vieram outros romances, contos e três peças teatrais que criticavam o então governo comunista.
A falecida escritora americana Susan Sontag, uma das primeiras e mais fervorosas defensoras de Nadas, descreveu uma de suas obras, Livro de Memórias, como “o maior romance escrito em nosso tempo e um dos grandes livros do século”.
Também um renomado ensaísta, Nadas publicou no ano passado uma ampla crítica à sociedade contemporânea e ao desejo humano por posse. “A literatura é uma questão pessoal, não comunitária, nem nacional, mas se ninguém a cultivar, a população certamente se tornará estúpida”, disse ele ao Litera, um site húngaro de literatura, neste verão.







