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Morre Camões, o cachorro que inspirou Saramago

Cão d'água português foi base para Achado, do romance 'A Caverna', um dos muitos do escritor com personagens caninos

Por Da Redação - 2 ago 2012, 10h59

“Encontro nos cachorros mais humanidade que nos homens”, afirmou o autor português em 2003

Camões, o cachorro que inspirou José Saramago a criar Achado, o melhor aliado do oleiro protagonista do romance A Caverna, morreu nesta quinta-feira em Lanzarote, ilha do arquipélago das Canárias onde vivia o escritor. A morte foi anunciada pela viúva de Saramago, Pilar del Río, em um texto emocionado publicado no site da fundação que leva o nome do autor.

“Morreu Camões, o cão que inspirou Saramago” é o título dado por Pilar del Río ao texto de despedida ao animal, que chegou à casa de Lanzarote em 1995, na ocasião em que o escritor soube que havia levado o Prêmio Camões. “Entra, chegaste a tua casa. Assim entrou Camões na vida de José Saramago”, escreve a viúva do prêmio Nobel de Literatura sobre o cachorro, “doce e nobre”, que foi batizado com o nome do grande clássico português.

O escritor e sua esposa conviviam com três cachorros na casa de Lanzarote, todos recolhidos da rua: Pepe, um poodle; Greta, uma fêmea yorkshire; e Camões, da raça conhecida como cão d’água. Ele era o único que ainda estava vivo.

“Quando Camões apareceu por aqui, com seu pelo preto e a exclusiva gravata branca que o distingue de qualquer outro exemplar da espécie canina, todos os humanos de casa se pronunciaram sobre a suposta raça do recém-chegado: um poodle. Fui o único que disse que poodle não era, mas cão d’água português”, escreveu o romancista em seu blog, em fevereiro de 2009.

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Nesse texto, Saramago falava do animal, de seus companheiros Pepe e Greta (“que já foram embora para o paraíso dos cachorros”), e brincava com a coincidência de o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ter escolhido um cão d’água português para as filhas. “Novos tempos se aproximam”, dizia com ironia.

O autor se inspirou em Camões para criar Achado, o cachorro de honorável comportamento que aparece — também de repente — na casa do oleiro Cipriano Algor, em A Caverna (2000).

Mas este não é o único caso no qual os cães são portadores de mensagens nos livros do Prêmio Nobel de Literatura 1998. Em Ensaio Sobre a Cegueira, um cachorro bebe as lágrimas de uma mulher, uma cena da qual o escritor se mostrava especialmente orgulhoso.

Em O Homem Duplicado, o cão Tomarctus salva o protagonista do romance, Tertuliano Máximo Afonso, e, em A Jangada de Pedra, os cinco protagonistas encontram um cachorro que o escritor batizou como Constante (entre outras opções como Fiel, Piloto e Sentinela), por seu afã de acompanhar um dos personagens até o túmulo.

“Encontro nos cachorros mais humanidade que nos homens”, afirmou o autor português em 2003 no México, uma das ocasiões nas quais falou longamente sobre sua relação com os cães, e o papel que estes tiveram em seus romances.

(Com agência EFE)

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