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Menos impactante que o original, novo Tron ainda é capaz de agradar a geeks e descolados

Filme retoma clássico lançado pela Disney nos anos 1980 e traz de volta ao elenco o ator Jeff Bridges

Por Marco Túlio Pires 15 dez 2010, 23h14

Uma das estreias mais aguardadas do ano, Tron – O Legado entra em cartaz nesta sexta-feira repaginando um clássico. Visto hoje, Tron – Uma Odisseia Eletrônica, de 1982, seria motivo de chacota. Os trocadilhos computacionais, o chroma key saturado e a pseudofilosofia nerd já não fazem o menor sentido em tempos de internet e iPad e de blockbusters como Avatar e Matrix. A Disney, estúdio responsável pelas duas produções, parece ter consciência disso – e ter tomado os cuidados necessários para a sequência. Ainda que não empolgue como o primeiro, que se tornou um cult na década de 1980, e que traga algumas falhas no roteiro, não exatamente o mais denso e original, o novo Tron chega com personalidade própria. Dirigido pelo americano Joseph Kosinski, um estreante no cinema mas especialista no campo da computação gráfica, o filme equilibra planícies de neon com batidas eletrônicas e filosofia tech, numa mistura capaz de agradar a novos e antigos fãs.

Tron – O Legado retoma o ponto em que Kevin Flynt (Jeff Bridges), um talentoso programador de jogos e sistemas operacionais, se torna presidente da Encom, um império de software nos moldes da Microsoft de Bill Gates. Em 1982, Flynt descobre como se materializar dentro dos servidores da Encom, acabando com a ameaça de “softwares inteligentes” que aspiravam controlar sozinhos a empresa, sem os humanos. Tomando gosto pela vida virtual, Flynt passa a frequentar o mundo digital para tentar construir o “sistema perfeito”, até que, sete anos depois, desaparece sem deixar rastros.

Ao desaparecer, Flynt deixa um filho de sete anos, único herdeiro e acionista majoritário da Encom. Um salto no tempo e Sam Flynt (Garrett Hedlund), o herdeiro, surge aos 27 anos, como um jovem-problema que sofre a ausência do pai, sabota encontros anuais da empresa que dirige e coleciona passagens pela polícia. Até que, ao receber uma mensagem supostamente enviada pelo personagem de Jeff Bridges, um bip de origem misteriosa, sai para visitar o antigo fliperama da família e refazer o caminho que o levará ao mundo virtual do interior dos videogames e computadores.

É quando o filme realmente engrena. A partir daí, a Disney faz valer cada centavo pago no ingresso. O cuidado no tratamento das imagens é perceptível. Se vê, por exemplo, na adaptação do famoso castelo da empresa à linguagem da saga, ainda na abertura do filme, e nas “tempestades de bits” que fustigam as montanhas da Grade, o mundo de Tron.

O impacto visual causado pelo primeiro filme à época do seu lançamento pode ter sido maior do que o efeito que esse pode causar, mas os cenários revisitados pela sequência merecem elogios. O filme conseguiu fazer uma releitura precisa dos elementos que consagraram a primeira versão sem requentá-los ou deixá-los datados. As planícies e arenas de combate da Grade ganharam um desenho high-tech compatível com os padrões tecnológicos atuais, mas mantiveram o charme do primeiro longa. Elas são cheias de luzes neon, modelos tridimensionais e duelos emocionantes capazes de deletar programas, o que no mundo de Tron equivalem a matar humanos.

Legado e fraqueza – O filme também dá a sua contribuição à lista de inovações tecnológicas do cinema. Com ajuda da computação gráfica, por exemplo, Jeff Bridges, de 61 anos, contracena com uma versão vinte anos mais jovem de si mesmo. É a primeira vez que a tecnologia dá condições para que isso aconteça – o mesmo recurso foi usado em O Curioso Caso de Benjamin Button, mas apenas para que Brad Pitt parecesse crescentemente mais jovem, não para haver dois Pitts em cena. Os mais exigentes, contudo, vão perceber que o clone de Bridges não é perfeito e pode parecer meio “emborrachado” em alguns momentos. A imperfeição, no entanto, é proposital. A ideia de não-perfeição é o fio que leva à moral da história – artifício bastante frequente em franquias da Disney.

A trilha sonora assinada pela dupla francesa Daft Punk também merece citação. É um show à parte. Os riffs eletrônicos não apenas satisfazem os fãs que aguardam um novo álbum da dupla desde 2005. Eles também dão uma textura diferente ao mundo de Tron e colaboram para o ritmo ágil do filme. Em uma das cenas, os franceses, que não mostram o rosto em público, atuam como DJs de uma balada vestindo os mesmos capacetes que usam nos shows e combinam com a estética.

Tron – O Legado é capaz de matar a saudade dos antigos fãs e apresentar, ao mesmo tempo, um mundo cativante aos recém-chegados, mas tem seus pecadilhos, como um roteiro carente de originalidade. Ainda que Tron – O Legado tente contar uma história de reencontro e amadurecimento, do filho que pode dar continuidade ao trabalho do pai, o argumento já foi exaustivamente explorado por outros filmes. Há um diferencial aqui, porém, é preciso dizer. O novo filme da Disney se apropria sem culpa de metáforas tecnológicas familiares aos fãs mais antigos e curiosamente atraentes aos fãs mais novos, como o uso das cores vermelho e azul em espaçonaves e uniformes para caracterizar, respectivamente, vilões e mocinhos. A combinação deve marcar o filme e prolongar mais um pouco o legado de Tron.

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