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Menor infrator é tema de Emmanuelle Bercot em filme que abriu Cannes

Diretora fala ao site de VEJA sobre produção que chega ao Brasil no Festival Varilux de Cinema Francês

Por Raquel Carneiro 12 jun 2015, 17h23

A atriz e cineasta francesa Emmanuelle Bercot foi um nome de destaque no Festival de Cannes deste ano. Além de vencer o prêmio de melhor atriz por Mon Roi, seu novo filme como diretora, De Cabeça Erguida, foi a produção eleita para abrir o evento. A escolha do longa — um drama social sobre um adolescente delinquente — surpreendeu por fugir à regra dos anos anteriores, que exibiram produções com tom hollywoodiano, como Grace: A Princesa de Mônaco (2014), estrelado por Nicole Kidman; O Grande Gatsby (2013), com Leonardo DiCaprio; Moonrise Kingdom (2012), do cineasta Wes Anderson; e Meia-Noite em Paris (2011), de Woody Allen.

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Contudo, a notícia mais comentada a respeito de Emmanuelle foi a de que ela foi a primeira diretora a abrir o festival desde 1987, quando foi exibido A Man in Love, de Diane Kurys. “Me senti insultada pelo exagero de atenção dada a essa questão. Não tomei isso como uma honra de Cannes. A sensação que ficou é de que foi incrível uma mulher ter sido escolhida para a abertura. Por que não mereceríamos isso?”, diz a cineasta em entrevista ao site de VEJA.

Emmanuelle também conta que se sentiu apreensiva com a escolha de seu filme para a abertura e que, inicialmente, não gostou de ser chamada. “Não fiquei confortável, pois sabia que não era um tipo de filme para abrir um festival como esse, em uma noite de gala. É um tema pesado, difícil de ser digerido”, diz.

Em De Cabeça Erguida, em cartaz no Brasil no Festival Varilux de Cinema Francês, a diretora e roteirista conta a história de Malony (Rod Paradot), um adolescente violento, com um histórico de brigas e pequenos furtos – ficha que se complica quando ele rouba um carro e agride o dono. Antes de ser condenado à prisão, ele recebe uma nova chance dada pela juíza que acompanha seu caso, interpretada por Catherine Deneuve, de se reabilitar em um centro de detenção educativo para menores. Porém, seu comportamento instável continua a colocar em risco as chances de uma recuperação.

Seu novo filme, De Cabeça Erguida, foi considerado uma escolha ousada para a abertura de Cannes. Sim, os organizadores tinham o desejo de mudar a tradição que se seguia de filmes glamorosos e decidiram abrir o festival com uma produção que não fosse só entretenimento. Eles insistiram em exibir meu longa, porque tem assuntos sociais e políticos no roteiro. Com essa escolha, o festival quis mandar uma mensagem.

O que achou quando foi escolhida? Quando Thierry Fremaux (diretor de Cannes) me ligou para perguntar se poderiam mostrar meu filme, eu não gostei muito. Não fiquei confortável, pois sabia que não era uma produção com a cara da abertura de um evento como este, de uma noite de gala. É um tema pesado, difícil de ser digerido. Achei estranho. E o filme estava previsto para estrear em setembro e, se fosse exibido na noite oficial de Cannes, teríamos que adiantar o lançamento e isso me assustou. Eu pensei por uma semana antes de aceitar. A escolha para a noite de abertura é diferente da feita para filmes que entram em competição. Eles pediram, não pegaram o filme e pronto. Eu poderia ter dito não, mas não seria educado (risos).

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Como se sentiu com a atenção recebida por ser a primeira mulher em quase 30 anos a abrir o festival? Na verdade, me senti insultada pelo exagero de atenção. Não tomei isso como uma honra de Cannes, só porque sou uma mulher. A sensação que ficou é que foi incrível uma mulher ter sido escolhida para a abertura. Por que não mereceríamos isso? Eu vejo filmes porque são bons, não porque são dirigidos por homens ou mulheres. Algumas mulheres são muito mimadas em relação a isso. Não me choca que sejamos minoria, pois começamos mais tarde. Um dia, teremos mais mulheres na direção, é uma questão de tempo.

Acredita que o mercado cinematográfico é melhor na Europa para mulheres do que nos Estados Unidos, por exemplo? Sim, com certeza. Na França, quem quiser fazer um filme consegue. Ninguém liga se é homem ou mulher na direção. Mas Hollywood é um mercado diferente, é realmente mais duro. Na França, o sistema é fantástico. É com certeza mais fácil para as mulheres.

Seu filme narra a história de um jovem adolescente que vive em uma família desestruturada e apresenta um comportamento agressivo. Qual a sua opinião sobre medidas como a redução a maioridade penal, situação em discussão no Brasil atualmente? Tenho algumas objeções a isso. O filme fala sobre justiça para menores na França, pois temos uma política que considero virtuosa e precisamos protegê-la. Temos um sistema que acompanha jovens infratores até os 18 anos. Eles são seguidos de perto por educadores, casas de recuperação, que fazem um trabalho educativo, antes de ser repressivo. O problema é que depois dos 18 o jovem tem que se virar sozinho. Para mim, o trabalho deveria continuar sendo feito por um período maior.

Por que decidiu por este assunto? Basicamente, sou interessada na sociedade em que vivo. Eu vejo jovens agressivos e solitários nas ruas. Quero saber como eles chegaram àquele ponto. Por que são assim? Tenho um tio que trabalha como instrutor em um centro educativo para jovens em recuperação. Então, desde criança eu faço perguntas sobre o seu trabalho e os adolescentes que ele conhece. Foi destas conversas que o filme nasceu. Não é exatamente uma história real. Tudo é ficcional. Mas meu tio me falava muito sobre a relação de um rapaz adolescente que estava sendo acompanhado por uma juíza mais velha. Tirei daí a inspiração.

Esta é a segunda vez que a senhora dirige Catherine Deneuve. Como é a relação entre vocês? Somos muito próximas, amigas. No trabalho também somos íntimas, pois ela confia em mim e eu nela. É simples trabalhar com a Catherine. Ela me inspira. Amo filmá-la. A relação começou quando eu a conheci cerca de quatro anos atrás para um projeto que eu queria fazer, mas acabei não levando adiante. Ficamos um tempo conversando em uma mesa de hotel. Sabe quando você conhece uma pessoa e sente uma conexão imediata? Foi o que aconteceu.

Que tipo de cinema te inspira? Eu gosto muito do cinema francês, que produz diversos gêneros. Também gosto de produções americanas, especialmente as independentes. Para mim, o melhor filme do ano passado foi Whiplash: Em Busca da Perfeição. Outro da leva recente que me tocou muito foi o canadense Mommy.

Além de abrir o Festival de Cannes, a senhora venceu a o prêmio de melhor atriz por Mon Roi. Preferia ter concorrido e vencido como diretora? O que posso dizer é que, após a premiação, nas festas a que compareci, todos me parabenizavam pelo prêmio de melhor atriz, mas muitos diziam: “Eu vi seu filme, é ótimo!”. Admito que me sentia mais feliz quando me diziam que gostavam do meu filme do que quando me congratulavam pelo prêmio de atriz (risos). Acho que deve ser mais emocionante ganhar por direção. Mas também foi fantástico ganhar o prêmio de atriz, pois foi uma grande surpresa. Mais surpreendente do que ter meu filme escolhido para a abertura.

A senhora começou a carreira como atriz e depois passou para trás das câmeras. Como aconteceu essa transição? Na verdade, fiz poucas coisas como atriz antes de trabalhar como diretora. Eram papéis rápidos em filmes pequenos. Então, não me considero exatamente uma atriz. Na minha mente, eu sou uma cineasta que atua de vez em quando.

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