🔥 9.9: Assine Revista Impressa + Digital Premium por R$ 32,90/mês. Preço especial só hoje.

Mary Del Priore: ‘A ideia de que a mestiçagem nasce do estupro é um mito’

À coluna GENTE, historiadora fala sobre novo livro 'História das Mestiçagens no Brasil'

Por Nara Boechat Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 22 ago 2026, 13h00 | Atualizado em 10 set 2026, 11h28
Mary Del Priore: ‘A ideia de que a mestiçagem nasce do estupro é um mito’ Priorizar nos meus resultados Google

Depois de escrever sobre mulheres, sexualidade, infância, velhice e personagens como Chica daSilva e conquistar o Prêmio Jabuti três vezes, Mary Del Priore, 75 anos, encontrou um novo caminho para revisitar uma de suas maiores obsessões: entender o Brasil por histórias que, segundo ela, ficaram distantes das narrativas tradicionais. O ponto de partida agora é História das Mestiçagens no Brasil (ed. Unesp), livro que coordena com o professor Gian Mello e que reúne artigos de especialistas de diferentes regiões do país. Na obra, a historiadora joga luz sobre a formação de uma população parda que, embora apareça como majoritária nos censos desde o século XIX, acredita ter ficado à margem do debate sobre a identidade brasileira. Da Região Serrana do Rio, onde vive e mantém sua rotina de escrita, Mary falou à coluna GENTE sobre a obra, criticou o ensino baseado na “decoreba”, comentou uma possível nova candidatura à Academia Brasileira de Letras (ABL) e explicou por que, depois de mais de três décadas, ainda continua procurando novas histórias para contar.

O que te levou a mergulhar no tema das mestiçagens? Há algum tempo, historiadores estavam incomodados com a ideia de um Brasil preto e branco. Desde 1872, no primeiro censo do Império, o Brasil já aparece como pardo. Depois, veio a perspectiva de vítimas e algozes, mas agora é preciso dar um passo atrás e entender essa branquitude e negritude. Quando se fala em mestiçagem, pensa-se na mistura entre europeus e africanos. Mas isso esquece uma parcela imensa de caboclos, sertanejos, cabras e cafuzos. A mestiçagem não aconteceu apenas na relação entre o senhor e a escravizada, como muitas novelas e filmes fazem parecer. 

Qual é o maior mito em torno da mestiçagem? A ideia de que nasce do estupro de escravizadas por senhorzinhos é errada. É óbvio que houve relações entre senhores e suas escravas, mas isso jamais foi regra. A nossa mestiçagem nasce de milhares de europeus que são lavradores, de pequenos ofícios e fazem parte do Exército. A partir daí, quando as pessoas saem da escravidão, elas vão comprando a alforria e ascendendo socialmente. Acabam por se misturar, casando-se com estrangeiros.

Continua após a publicidade

Esse debate sobre a mestiçagem também pode ensinar sobre o racismo? Tudo ensina sobre o racismo, a começar pelas mães e professoras. A legislação e as punições são necessárias, mas o combate ao racismo depende também da consciência sobre o mal e a agressão que ele representa. O racismo é mundial e está voltando, inclusive com a fragilização das democracias, e precisamos estar atentos. Mas a mestiçagem não tem nada a ver com o racismo. Ao contrário, ela mostra a flexibilidade e a fluidez de uma sociedade com múltiplas aberturas, que permitiram às pessoas transitarem, conviverem, procriarem e criarem. 

Depois de livros sobre sexualidade, mulheres, velhice e outros tantos temas, o que mais desperta sua curiosidade? A vontade de oferecer aos leitores a possibilidade de conhecerem a história do Brasil. Há um apagamento na nossa sociedade do que foi o passado, como monumentos históricos depauperados, igrejas caindo… Você anda pelo Brasil afora e vê que os casarios de época estão desaparecendo. É como se o Brasil vivesse o presente e pensasse no futuro e não gostasse do seu passado, não quisesse conhecê-lo. Passo meu tempo inventando coisas que possam ajudar as pessoas a se interessar e saber quem são. Se não souberem, não saberão para onde vão. 

Continua após a publicidade

O ensino de História precisa mudar? Infelizmente, o ensino que é feito em escolas públicas é o que chamamos de chão de fábrica, contempla pouco o interesse dos alunos. Temos o vestibular, que é uma camisa de força, e a História fica decoreba. Tenho pena, pois sou apaixonada pela história do Brasil. Tem um grande historiador francês que diz que a história romântica aconteceu. Eu digo que a história do Brasil é o próprio romance: os seus dramas, suas traições, seus amores, suas paixões, tem tanta coisa bacana.  

Como a cultura pode ajudar? Infelizmente, novelas e seriados deixam muito a desejar. É sempre uma história ao sabor da audiência. Quando se trata de escravidão no Brasil, a primeira coisa que deveria olhar é a família escravizada, que às vezes ficavam até quatro gerações dentro de uma mesma casa. Por que não mostrar isso em vez da cena do senhorzinho de botas e calças arriadas, estuprando uma pobre menina? Acaba que você cria estereótipos. A própria Chica da Silva foi transformada. A do Cacá Diegues é uma mulher libertária, mas a verdadeira era mãe de 14 filhos, viveu com um cara que era apaixonado por ela durante 15 anos. Era uma senhora respeitadíssima, ia à igreja toda semana e criou os filhos com extremo rigor. Tudo fica em torno de uma imagem que vale mil palavras e que a televisão projeta. Era só convidar um historiador para participar.

Continua após a publicidade

Temos um futuro promissor para a educação em História? Depende, primeiro, da curiosidade das pessoas, delas quererem saber e se perguntarem de onde saíram e de onde vieram. Conhecer melhor quem você é e de onde vem robustece o sentimento de cidadania e o compromisso com o país. 

Vivemos um momento de polarização política. Isso influencia no conhecimento da História? Sim. O reaparecimento do pardo é uma tentativa de matizar essa polarização, esse vivo estudo sobre escravidão, que não deixa ver o homem pobre, trabalhador, pardo. Então, você fica com a sensação de que o Brasil só tinha brancos, senhores e negros escravos, quando o número de senhores era mínimo. Essa polarização e a política, que também tomaram conta das universidades, é óbvio que impacta. Então, um livro que traz à luz um grupo que é de fundamental importância na nossa história, que não é tratado por causa da polarização, eu acho importante. 

Continua após a publicidade

Você escreve um livro atrás do outro. Como consegue? Eu moro na roça e adoro escrever, gosto de ter ideias e sou extremamente disciplinada. Também posso me valer hoje das várias bibliotecas virtuais. Antigamente você tinha que se locomover até os arquivos; hoje, estão todos online. Para alguém que gosta do que faz, estar aqui, bastante isolada, num lugar lindo e podendo escrever, eu te confesso: acho que tirei a sorte grande.

O que mais tem vontade de escrever? Já está planejando algum próximo livro? Não, mas eu me pergunto sempre: ‘Poxa, o que pode interessar os meus cidadãos?’. A história do Brasil tem temas apaixonantes. É só dar uma chance para os livros de História serem publicados. 

Continua após a publicidade

Você já concorreu a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Pensaria em uma nova candidatura? Não. Estou em duas excelentes academias, a Academia Carioca e a Academia Paulista. Gosto muito de trabalhar, de juntar gente, promover assuntos e instigar os nossos cidadãos. Mas já tenho bastante trabalho, estou muito bem e o que eu gosto mesmo é escrever.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Banner promocional da Editora Abril. À esquerda, um selo laranja com CHEGOU O 9.9 e 80% OFF, e um botão APROVEITE A OFERTA AGORA. Ao centro, texto Na Editora Abril os números se alinharam para você ler as melhores revistas do Brasil por um preço simbólico e capas de revistas como Veja, Quatro Rodas, Saúde e Claudia. À direita, uma mulher sorridente com cabelo castanho, vestindo camisa bege, segura um cartão dourado. No canto superior direito, um ícone de árvore e uma faixa laranja diagonal com ASSINATURA LEIA 15 MARCAS
ECONOMIZE ATÉ 76% OFF

Digital Básico

A notícia em tempo real na palma da sua mão!
Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 5,99/mês
OFERTA 9.9

Revista em Casa + Digital Premium

Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 10,00)
De: R$ 59,99/mês
A partir de R$ 32,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).