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Marina Abramovic quer fazer São Paulo transcender

Artista sérvia que se tornou famosa ao criar filas de visitantes no MoMa, em Nova York, onde as pessoas apenas se sentavam para encará-la em silêncio, em 2010, e já atraiu para o seu método celebridades como Lady Gaga, abre a sua maior retrospectiva sul-americana nesta terça-feira, prometendo autocura, autoconsciência e, é claro, arte

Por Maria Carolina Maia 10 mar 2015, 15h50

Transcendência é, talvez, a melhor palavra para resumir a artista sérvia Marina Abramovic, 69 anos, que abre nesta terça-feira em São Paulo a sua maior mostra na América do Sul. Conhecida por ao longo de uma carreira de quarenta anos ter elevado a performance, inicialmente vista como mais uma piração da contracultura, ao status de arte, Marina busca ainda outros tipos de transformação. Em Terra Comunal, a mostra que o Sesc Pompeia exibe gratuitamente até 10 de maio, o público poderá ver registros de performances em que a artista pôs seu corpo à prova de diversas maneiras – comendo uma cebola crua, com casca e tudo, penteando os cabelos até quase fazer sangrar o couro cabeludo, em nome da questionável “beleza da arte”, permanecendo até dez horas sentada na sala de um museu, como uma obra viva – e experimentar, por si mesmo, o contato com cristais, metais e materiais magnéticos que, acredita a sérvia, são capazes de purificar a alma e levar à autocura.

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O viés místico e transcendental permeia toda a retrospectiva armada na antiga fábrica de tambores transformada em espaço de convivência social e experiência cultural pela italiana Lina Bo Bardi, em 1982, e escolhida por Marina Abramovic justamente por isso. “É um lugar que não recebe apenas interessados em arte, mas também famílias que vêm ter um momento de lazer, ler jornal ou comer, e são essas as pessoas que eu quero atrair para a arte”, disse em conversa com jornalistas realizada na tarde desta segunda-feira. “A arte se tornou uma commodity e é importante oferecê-la para todos.” A coletiva aconteceu no teatro do Sesc Pompeia, mesmo espaço onde a artista dialogará, em oito encontros, com o público que retirar ingressos na bilheteria no mesmo dia. Os encontros acontecerão às 20h dos dias 11 e 26 de março, e 2, 8, 15, 22 e 30 de abril. A bilheteria abre às 13h.

O famoso Método Abramovic, treinamento de dias feito com artistas e condensado aqui em uma atividade de duas horas e meia, é outro exemplo da transcendência e do misticismo da artista de Belgrado. Depois de deixar os pertences, inclusive celulares, em armários e fazer o aquecimento de meia-hora em que a artista emerge os participantes em silêncio e “energiza” seus corpos, o visitante coloca fones de ouvido capazes de isolar quase todo o som ao redor e é levado a uma série de quatro posições ou movimentos de trinta minutos cada um. Em uma das partes, caminha-se em câmera lenta para desacelerar o corpo e a mente. Em outra, deita-se em uma cama de madeira, reta e dura, com um cristal encrustado – cristal, aliás, que Marina vem buscar no Brasil desde 1989 e do qual, para a exposição, o Sesc Pompeia adquiriu uma tonelada e meia. Dá até para tirar uma soneca. Na terceira parte do método, fica-se de pé diante de um mastro cravejado dos mesmos cristais e, na última, apenas se senta em uma cadeira ou banco de madeira, reto e duro como a cama, para contemplar o redor por extensa meia-hora. Da experiência, pouco indicada para quem tem problemas de coluna, dado o tempo que se passa em pé e a austeridade do mobiliário, o visitante pode levar a quietude – a ideia da artista é fazer as pessoas se desconectarem da vida tecnológica e febril que levam, especialmente nas grandes cidades – e algo mais, a depender de cada um.

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O Método Abramovic, para o qual é possível se inscrever pelo site do Sesc, lembra muito a experiência dos retiros espirituais realizados por religiões diversas como o catolicismo e o budismo. “Trabalhei por 25 anos com monges budistas”, reconheceu Marina na conversa com os jornalistas, que foram submetidos à experiência antes da coletiva de imprensa. “Morei um ano com aborígenes na Austrália, fui à Indonésia ver pessoas andarem sobre o fogo, conheci xamãs no Brasil.” É ao lado do espaço reservado ao método que está a pequena retrospectiva da artista, com o registro de performances históricas feitas por ela e uma sala povoada de peças com ímas, metais e — de novo — cristais com que os visitantes podem interagir e se energizar. Mais à baixo, em um galpão próximo ao teatro, oito artistas brasileiros convidados por Marina apresentam suas performances.

O ar zanzauê dá à obra da artista sérvia certa familiaridade com a da brasileira Lygia Clark, outra filha dos anos 1970 que, influenciada pela psicanálise e por suas pesquisas sensoriais, criou peças com que o espectador poderia se relacionar para se conhecer e também se curar. Mas Marina, como Lygia, é mais do que (só) uma espécie de curandeira das artes. Ela é uma artista séria, que, antes de tudo, pensa a arte. Quando pediu aos jornalistas que dividissem as suas sensações sobre o método com ela, uma repórter o comparou com as aulas de yoga e meditação que frequentava, e Marina teve um momento Magritte – aquele do cachimbo que não era um cachimbo – em uma definição perfeita da arte contemporânea. “A diferença é o contexto”, disse. “Você pode fazer o melhor pão do mundo, mas, se o faz em uma padaria, não é um artista, é um padeiro. Já se faz pão em uma galeria, você é um artista.”

A utilização do próprio corpo também não é um expediente fácil, como pode parecer, mas algo pensado. Uma proposta artística. Além da exposição absoluta, a artista vive, durante a sua performance, uma experiência de quase tortura. “Eu entendi desde cedo que a minha ferramenta era o meu corpo e que eu precisava pô-lo à prova, testar os limites”, disse Marina aos jornalistas no Sesc. “E uma das coisas que aprendi na vida é que a experiência deve ser de longa duração, de dois meses como a do MoMa, porque assim o artista para de atuar e passa a ser ele mesmo, e o público tem tempo de refletir”, continuou, citando a mostra que a tornou famosa, em 2010, quando simplesmente se sentou em uma cadeira diante de uma mesa e de outra cadeira vazias, e esperou que visitantes se sentassem à sua frente.

Entre esses visitantes, estava Ullay, seu ex-marido e parceiro de trabalho, que a levou às lágrimas. Também foram às lágrimas vários dos espectadores que chegaram a fazer fila em frente ao museu de arte moderna de Nova York para interagir com ela.

“O curador não acreditou na proposta: ‘E se ninguém quiser se sentar?'”, contou Marina. E as pessoas formaram fila diante do museu, algumas chegaram a dormir na porta do MoMa para conseguir entrar. “Os seguranças do museu, nos dias de folga, voltavam como visitantes. Isso mostra o poder de transformação da performance.”

A mostra do MoMa fez de Marina Abramovic uma celebridade, e ela não é nada boba de achar isso ruim. “Por dois meses, me desconectei do mundo e me dediquei ao museu. Quando saí dali, eu era uma celebridade”, disse. “Mas eu tiro vantagem dessa situação. Pude transformar a performance em arte e, ao me aproximar de verdadeiras celebridades como Lady Gaga, ganho seguidores, que me ajudam a construir o meu instituto”, continuou Marina, que está construindo uma instituição com o seu nome no Estado de Nova York, onde mora. E que alcançou uma nova transcendência, desta vez passando da posição ereta em que permaneceu toda a coletiva para uma mis-en-scène com direito a alfinetadinha em dois colegas tão ou mais célebres do que ela. “Eu preciso trabalhar para levantar fundos para a construção. A performance é uma arte imaterial, não tenho recursos como Jeff Koons e Damien Hirst.” Nada que não possa ser entendido como performance.

O começo da carreira

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“Quando comecei a fazer performance, nos anos 1970, eu era como a primeira mulher a pisar na Lua. Os professores de faculdade cuspiam em mim. Meus pais se perguntavam, nas reuniões do Partido Comunista, que tipo de educação eu havia recebido, e pensavam em me internar em um hospital psiquiátrico. Por trinta anos, o que eu fiz não era arte.”

Como me tornei celebridade

“A celebridade chegou após aquela exposição no MoMa, em 2010, em que fiquei oito horas por dia sentada em uma cadeira”, disse a artista, sobre a mostra em que, por dois meses, permaneceu sentada à disposição de quem quisesse fazer contato visual com ela, na cadeira em frente à sua. Alguns choravam. “Eu achava que precisava passar por aquela emoção e dor.”

“O curador não acreditou na proposta. ‘E se ninguém quiser se sentar?’, questionou. E as pessoas formaram fila diante do museu, algumas chegaram a dormir na porta do MoMa para conseguir entrar. Os seguranças do museu, nos dias de folga, voltavam como visitantes. Isso mostra o poder de transformação da performance.”

“Por dois meses, me desconectei do mundo e me dediquei ao museu. Quando saí dali, eu era uma celebridade.”
 

A relação com Lady Gaga

“Mas aproveito as vantagens de ser celebridades. Uma delas é a de poder dar à performance o status de arte. Outra é a de atrair mais gente para as artes por ser conhecida. Eu fui muito criticada quando Lady Gaga me procurou para fazer o método Cleaning the House, que é de purificação do corpo. Ela sim é uma celebridade, com 45 milhões de seguidores (na verdade, já são mais de 67 milhões) no Facebook. Mas a busca dela me pareceu sincera e eu a acolhi.”

https://youtube.com/watch?v=EVY4Whayw0s

As vantagens de ser celebridade

“Lady Gaga tem 45 milhões de seguidores  (na verdade, já são mais de 67 milhões) no Facebook, seguidores que a copiam em tudo o que faz, que usam uma roupa que ela usa, que tomam droga se ela toma. E, quando veem que ela está fazendo o método Marina Abramovic e não está usando drogas, entram em contato com uma realidade da qual nunca haviam ouvido falar e passam a seguir também o meu instituto.”

A relação com a moda

“Eu divido o mundo todo em duas categorias: pessoas originais e pessoas que seguem as outras. E gosto das originais. A minha relação com a Givenchy se deve ao Riccardo Tisci, que é um gênio original.”

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