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Maria Martins e Duchamp, o caso de amor que marcou a história da arte

Especialista disseca em livro o relacionamento entre o francês e a escultora brasileira — e o impacto da relação na obra dos dois

Por Amanda Capuano Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 30 ago 2026, 08h00 | Atualizado em 30 ago 2026, 12h48
Maria Martins e Duchamp, o caso de amor que marcou a história da arte Priorizar nos meus resultados Google

Em março de 1943, a escultora mineira Maria Martins (1894-1973) celebrava a inauguração de sua segunda exposição na Valentine Gallery, em Nova York, quando conheceu o francês Marcel Duchamp (1887-1968). Então com 56 anos, o artista que abandonara o ofício para dedicar-­se ao xadrez visitou o local a convite do colega e pintor holandês Piet Mondrian (1872-1944), mas sua atenção foi fisgada imediatamente pela brasileira. Até hoje, não se sabe o que Maria e Duchamp conversaram naquele dia, mas o papo rendeu um novo encontro semanas depois, dando início a um romance que influenciou a vida e a obra da dupla — mas que foi vivido apenas em segredo. “Maria era casada com o embaixador do Brasil nos Estados Unidos e tinha dois filhos adolescentes em casa. Ela não estava disposta a abrir mão disso”, explica a VEJA o renomado historiador da arte Francis Naumann, autor de Impossível: a História de Amor de Maria Martins e Marcel Duchamp.

ETERNIZADOS - A instalação Étant Donnés (acima), última obra de Duchamp; os amantes com amigos (abaixo, à esq., o casal de preto); e a escultura Impossível, de Maria Martins (abaixo, à dir.): apesar da discrição, muitos sabiam do romance
ETERNIZADOS - A instalação Étant Donnés (acima), última obra de Duchamp; os amantes com amigos (abaixo, à esq., o casal de preto); e a escultura Impossível, de Maria Martins (abaixo, à dir.): apesar da discrição, muitos sabiam do romance (Fotos Association Marcel Duchamp/AUTVIS Brasil/.)

Recém-lançado no Brasil, o livro esmiúça o caso, passando não apenas pelos encontros secretos em hotéis e ateliês, mas também pelo impacto da relação. Da controversa arte conceitual Paisagem Desviada (1946), dada por Duchamp à amada — e feita a partir de resquícios do próprio sêmen — , até a aflição inquietante da escultura O Impossível, de Maria, interpretada por Naumann como uma representação da inviabilidade do romance, o amor proibido deixou marcas na carreira dos artistas. “Maria poderia ter continuado como escultora surrealista, mas talvez não tivesse as oportunidades de exposição que teve com a intermediação de Duchamp”, aponta o autor. “Mas ele, certamente, não teria feito nada parecido com sua obra final sem ela.” O trabalho em questão é a imponente instalação Étant Donnés (1946-1966), que levou vinte anos para ser feita.

Revelada em 1969, meses após a morte do francês, a obra póstuma envolve uma ilusão de óptica: o apreciador deve olhar através de buracos em uma porta de madeira para ver, no centro, a imagem de uma mulher nua em uma floresta, manequim moldado a partir do corpo de Maria Martins. A identidade da musa misteriosa só foi revelada em 2009, com o cruzamento de estudos anatômicos. Iniciada em 1946, poucos anos depois do início do romance, a obra manteve a memória de Maria viva para Duchamp quando ela deixou os Estados Unidos, em 1948, mudando-se com a família para Paris e, posteriormente, para o Rio de Janeiro. Em cartas enviadas à escultora, o francês mostra-se apaixonado e lamenta não poder tê-la para si. “No fundo, minha pequena, estou profundamente triste, pois consigo ver nossos dias passando rápido e desaparecendo, um a um, sem que nossos sonhos se concretizem. Eu a amo, mas gostaria de amá-la melhor”, escreveu ele em 1949. “Sinto-me de todo perdido, agora que estamos completamente isolados um do outro”, lamentou no ano seguinte. Na mesma época, enviou com os inscritos o desenho de um coração. “Por favor, não jogue no chão. Isso é para Maria”, escreveu no recado.

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Capa do livro Impossível de Francis M. Naumann. O fundo é laranja avermelhado com a palavra IMPOSSÍVEL em letras grandes e texturizadas, em tom rosa claro, sobrepondo uma escultura escura e abstrata que lembra mãos entrelaçadas. Abaixo do título, em branco, lê-se A história de amor de Maria Martins e Marcel Duchamp. No canto inferior esquerdo, o logo da editora Pinakotheke
IMPOSSÍVEL: A HISTÓRIA DE AMOR DE MARTINS E MARCEL DUCHAMP, de Francis Naumann (tradução de Richard Sanches, Pinakotheke, 192 págs., R$ 130,00) (./.)

Enquanto as cartas de Duchamp mostram sua devoção por Maria, os sentimentos da brasileira são conhecidos apenas através de terceiros. “Não temos uma única carta escrita por ela porque Duchamp jogava todas as correspondências no lixo assim que as respondia”, explica Naumann. Uma das filhas da escultora, no entanto, atestou que Duchamp era presença constante na casa da família, em Nova York, e que Maria estava mesmo apaixonada por ele. Ela também revelou que seu pai, Carlos Martins, era tão devotado à esposa que não parecia se incomodar com as aparições do francês, desde que isso a fizesse feliz — sabia, afinal, que ela nunca se divorciaria. E assim foi. Maria permaneceu com Carlos até a morte dele, em 1965. Um ano depois, viu Duchamp uma última vez: em uma viagem a Nova York, visitou o ateliê do antigo amante para ver a obra inspirada em suas curvas. Além dela, a única a ver a peça até então havia sido Alexina “Teeny” Duchamp, com quem ele se casou em 1951, resignado com o fato de que nunca teria a brasileira para si. Um final agridoce para os amantes secretos.

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Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2026, edição nº 3010

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