Livro ‘Estranhos’ narra disputa de divórcio que virou exemplo para mulheres
Traída e abandonada aos 50 anos, a escritora Belle Burden transformou sua dor no best-seller
Advogada de formação, mas dona de casa na prática, a americana Belle Burden adentrou os 50 anos de vida conformada: por duas décadas casada com o executivo Henry Davis, com quem teve duas meninas e um menino, a meia-idade lhe parecia uma etapa na qual apenas administraria tudo o que já tinha. Não foi bem assim. Em 2020, quando a pandemia estourou, a família nova-iorquina se refugiou em uma casa de veraneio. Até o dia em que Belle atendeu o telefone e o vizinho lhe deu uma informação bombástica: “Seu marido está tendo um caso com a minha mulher”. Confrontado, Henry assumiu a culpa, fez as malas e partiu. Inicialmente, disse que não queria nada da vida com ela, nem os imóveis, nem a guarda dos filhos. Pouco depois, quando ela se recusou a acobertar a causa do divórcio, ele mudou de ideia, travando uma guerra inglória contra ela no tribunal.
A experiência dramática é narrada por Belle no livro Estranhos: Vestígios de um Casamento, que chega às livrarias brasileiras em 10 de agosto, endossado pelo sucesso de vendas nos Estados Unidos, que o levou à lista de best-sellers do New York Times, com elogios de Oprah Winfrey e de Gwyneth Paltrow (a atriz inclusive adquiriu os direitos da obra para uma adaptação cinematográfica). Envolvente, o livro, como diz o título, expõe o fenômeno humano no qual até um parceiro de vida pode se tornar um total estranho da noite para o dia. “Uma semana após me deixar, meu marido me ligou e pediu que disséssemos aos nossos amigos que o divórcio era amigável”, contou ela a VEJA. “Soube na hora que isso me arruinaria. Eu neguei. Não iria proteger um marido infiel, como minha mãe e minha avó fizeram.”
A partir dessa lógica, Belle abraçou a missão de inspirar mulheres a assumir uma postura mais cautelosa quanto ao dinheiro e aos bens em um matrimônio — conselho que ela gostaria de ter recebido. Após a separação, Belle retornou à advocacia e se entregou à escrita — ambição reprimida na juventude, quando foi desencorajada por um colega da faculdade. Retomar as rédeas da própria vida foi duro, mas necessário e, por fim, satisfatório. O imbróglio judicial durou um ano e meio por causa de um estranho acordo antenupcial: havia uma cláusula que garantia a posse de qualquer bem adquirido durante o casamento à pessoa cujo nome estivesse no contrato. Assim, Belle descobriu que possuía menos do que pensava — e até mesmo bens pagos por ela com herança familiar estavam no nome do marido.
Hoje, é comum que a autora encontre mulheres agradecidas. Entre os relatos, soube até mesmo de uma escola para garotas em Nova York que criou uma aula de alfabetização financeira graças ao livro. Reticente, ela frisa que não é autoridade em planejamento patrimonial, mas aconselha suas leitoras a cultivar transparência dentro do casamento e a saber onde estão todos os seus fundos. No fim, Belle chegou a um acordo com o ex e não perdeu tudo, como ele ameaçou que seria. Os procedimentos legais, contudo, custaram caro e a fizeram pensar nos casos de mulheres menos abastadas. Herdeira de uma fortuna geracional, ela é neta da socialite Babe Paley — interpretada por Naomi Watts na série Feud — e reflete: “As pessoas esperam que uma mulher como eu queira manter as aparências, mas eu quero ser um exemplo”. Quanto ao futuro, tomou gosto pela escrita: vai se dedicar a livros de ficção. “Gosto de falar de famílias e relacionamentos. Veremos no que dá.” Uma coisa é certa: na vida real, não só as histórias românticas têm final feliz.
Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007






