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Leonardo DiCaprio, um astro sem medo de riscos

Ator tem um jeito peculiar de escolher papéis: eles são normalmente atormentados, antipáticos e marcantes, elaborados com a ajuda de um pequeno rol de diretores de primeira linha, entre os quais se destaca Martin Scorsese

Por Brooks Barnes, New York Times 19 nov 2011, 15h03

O que ajuda DiCaprio a assumir personagens tão fortes como J. Edgar é o fato de ele preservar sua intimidade. As pessoas são mais propensas a aceitar um personagem marcante se não têm uma ideia muito clara de quem é o ator que o interpreta fora da telona

Para se transformar em um J. Edgar Hoover envelhecido, Leonardo DiCaprio passou horas aos cuidados de maquiadores que o caracterizaram com sardas, dentes amarelos e pneuzinhos proeminentes. Ele passa um bom pedaço do filme J. Edgar, o novo longa de Clint Eastwood, assim – sarcástico e suado sob as luzes implacáveis da sede do FBI. O papel também o levou a memorizar monólogos intermináveis, que precisavam ser verbalizados no ritmo vertiginoso característico do próprio Hoover. Além disso, DiCaprio, que normalmente namora supermodelos na vida real, teve de lutar agressivamente com um homem e depois beijá-lo.

Ah, e usar um vestido.

Confrontados com um papel desse tipo, a maioria dos astros de Hollywood, mesmo aqueles que vivem ansiosos para chamar a atenção dos membros votantes do Oscar, teriam fugido da raia. Ficar feio e anti-heroico? Seria um risco grande demais, mesmo com Eastwood no comando. Mas DiCaprio – pelo menos o DiCaprio pós-Titanic – tem uma carreira baseada em escolhas de alto risco. E, de alguma forma, essa opção tem valido a pena não apenas no circuito de prêmios – ele foi indicado três vezes ao Oscar -, mas também em bilheterias de cinema.

“Aceito um papel quando eu não consigo definir a personagem de imediato, quando ela tem um elemento de mistério a ser explorado”, disse DiCaprio, de 36 anos, em uma entrevista realizada recentemente no pátio do Hotel Bel-Air, em Los Angeles. “Eu gosto desses personagens complicados. Simplesmente gosto.”

Respostas assim normalmente não agradam Hollywood. O sistema de estrelato pode ter se tornado mais sutil do que era nos dias de Clark Gable e Jimmy Stewart, mas não deixou de ser um sistema: um ator americano ainda tem de ser uma “persona” estável, pouco mutável. “É um sistema que gosta de rotular atores”, diz Brian Grazer, produtor de J. Edgar, que estreou nos cinemas americanos no último dia 11 e entra em cartaz no Brasil dia 27 de janeiro. “Assim que os atores obtêm sucesso em determinados papéis, o transformam em fórmula e levam-no aos próximos filmes, onde farão exatamente a mesma coisa. Para resistir a isso, você tem de fazer escolhas muito difíceis. A maioria das pessoas tem medo”, acrescentou Grazer.

O que provavelmente beneficia DiCaprio é o fato de o ator ter conseguido criar uma mística sobre a sua vida pessoal nessa era de celebridades blogueiras e tuiteiras. Ele se esforça para preservar sua intimidade. Quando entrevistado, por exemplo, não tenta forçar uma amizade com os jornalistas, ao contrário de uma porção de estrelas do cinema. Além de ele apreciar sua privacidade, ela torna as suas atuações mais bem-sucedidas. As pessoas são mais propensas a aceitar um personagem marcante se não têm uma ideia muito clara de quem é o ator que o interpreta fora da telona.

As escolhas de DiCaprio podem ser incomuns, mas ele tem um estilo próprio de optar pelo que acha que vai dar certo. Seus personagens são normalmente caras atormentados, antipáticos e marcantes, elaborados com a ajuda de um pequeno rol de diretores de primeira linha, entre os quais se destaca Martin Scorsese. Em O Aviador, ele encarnou Howard Hughes, que coletava a própria urina. Em Diamante de Sangue, foi um contrabandista do Zimbábue. Depois, interpretou um doente mental em Ilha do Medo e um ladrão de sonhos em A Origem.

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“O Leonardo poderia ganhar rios de dinheiro investindo em fórmulas prontas, mas prefere encarar desafios”, disse Eastwood por telefone. “E interpretar alguém que não tem nada a ver com você é um grande desafio maior.”

A próxima empreitada do ator será protagonizar a nova versão, feita por Baz Luhrmann, de O Grande Gatsby. E ele está pronto para interpretar Frank Sinatra em outra cinebiografia de Scorsese. “Isso está nas mãos do diretor”, disse o ator sobre o possível filme de Sinatra, parando para abocanhar uma fatia de melancia e se servir de uma xícara de café. “Estou sempre muito aberto a me envolver em qualquer coisa que ele decida fazer.”

J. Edgar se encaixa perfeitamente nesse cânone. As melhores cinebiografias oferecem um retrato da pessoa, com todos os seus defeitos, e convidam os espectadores a ter uma opinião própria a respeito dela. É exatamente o que o filme de Eastwood se esforça para fazer. Hoover é retratado como o brilhante patriota que inventou a investigação pericial moderna e que ninguém conseguiu tirar do poder ao longo de todos os anos – de oito presidências e três guerras – em que ele esteve incumbido de proteger os Estados Unidos. Mas o onipotente diretor do FBI impedia – para dizer o mínimo – o avanço do movimento dos direitos civis, além de ter trabalhado arduamente para coletar, arquivar e distorcer a verdade, a fim de assegurar a sua posição de poder.

Tudo isso é mais ou menos verdade. O traiçoeiro personagem de J. Edgar, escrito por Dustin Lance Black, que levou o Oscar pelo roteiro de Milk – A Voz da Igualdade, envolve outros aspectos. Hoover era gay? Ninguém sabe ao certo. Ele certamente tinha uma relação muito íntima com Clyde Tolson, seu colega no FBI, interpretado no filme por Armie Hammer (de A Rede Social). Fica ainda menos claro se Hoover gostava de usar roupas femininas, mas Eastwood e DiCaprio decidiram manter os ares de mistério do roteiro de Black. “Obviamente, há uma história de amor no filme, quer se trate de uma história de amor gay ou de qualquer outro tipo”, disse Eastwood. “Ela fica em aberto para que o público a interprete. Minha intenção foi mostrar dois homens que realmente se amam. Além disso, não é mais da minha conta.”

A opção de DiCaprio por correr riscos é apreciada pela parte de Hollywood que venera filmes sérios, dando a ele um status de divindade por seu gosto por um tipo de drama que é espécie ameaçada nos grandes estúdios hoje. Mas, para a parte de Hollywood focada em negócios – agentes, chefes de estúdio -, fazer tantas cinebiografias é um erro. A preocupação é de que DiCaprio, em algum momento, se torne desinteressante para o público, caso não apimente a carreira com uma variedade maior de papéis.

Jeanine Basinger, chefe do departamento de cinema da Wesleyan University, chama isso de “o problema Paul Muni”. Muni foi talvez o principal ator da Warner Brothers na década de 1930, quando estrelou filmes com personagens poderosos, como em Scarface – A Vergonha de uma Nação. Ele também tinha uma propensão para papéis biográficos e ganhou um Oscar por A História de Louis Pasteur (1936). Mas ficou obcecado por papéis históricos e sua carreira foi prejudicada.

Eis que, então, o anti-rótulos Leonardo DiCaprio acaba rotulado por alguém do setor. Se ele se com isso, ele não admite. “Nunca. Não. Não me preocupo” responde rapidamente. A verdade é que Jeanine Basinger relembra com certa apreensão o caso de Paul Muni, mas não se preocupa tanto assim com o destino de DiCaprio. Para ela, o ator tem um grande talento natural, além de um currículo diversificado – com trabalho na série televisiva Growing Pains, na década de 1980, passando por Gilbert Grape – Aprendiz de um Sonhador e Titanic, até Os Infiltrados -, que é um bom presságio de suas futuras empreitadas. “A presença dele é sempre muito forte, mas ainda assim ele realmente consegue nos fazer acreditar que é outra pessoa”, disse Basinger. “É um talento impressionante.”

As indicações que DiCaprio teve ao Oscar foram por papéis em Gilbert Grape – Aprendiz de um Sonhador, no qual ele atuou aos 19 anos, O Aviador e Diamante de Sangue. Especialistas veteranos na premiação (que não trabalharam em nada relacionado a J. Edgar) acreditam que o ator deve obter mais uma indicação neste ano, junto a George Clooney por seu papel em Os Descendentes, de Alexander Payne (Clooney interpreta um homem que tenta se reconectar com suas duas filhas após a esposa entrar em coma).

J. Edgar vai ser um sucesso? Também não está claro. Contudo, DiCaprio está assegurado pela versão 3-D de Titanic, que virá à tona em abril. Se uma versão 3-D de O Rei Leão conseguiu arrecadar quase 100 milhões de dólares para a Disney em outubro, Titanic deve ter facilidade para emplacar uma enorme bilheteria. DiCaprio disse que não pensou muito no assunto e que está em paz com o fato de que é continuamente associado à imagem de Jack Dawson. “Eu não sou assombrado por essa imagem, mas ela certamente me persegue”, disse ele. “Quando estive na Amazônia, havia pessoas sem roupa – e não estou exagerando – que conheciam o filme. É algo que aceitei.”

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