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Leandra Leal: ‘Vivemos sob um governo negacionista que não faz o mínimo’

Atriz fala a VEJA sobre campanha em prol do uso de máscaras e da vacinação — e a necessidade de se posicionar politicamente

Por Amanda Capuano Atualizado em 28 jun 2021, 11h43 - Publicado em 28 jun 2021, 11h42

Uma das mais vocais críticas do governo de Jair Bolsonaro, a atriz Leandra Leal viralizou neste fim de semana nas redes sociais ao criticar o presidente durante o programa Altas Horas. “Acho que tem uma autocrítica que a sociedade tem que fazer agora. Como a gente deixou o Bolsonaro ser eleito presidente? Ele já falava sobre preconceito, já destilava o seu ódio, já falava sobre homofobia, já espalhava fake news. Não foi uma escolha difícil”, disse ela na atração exibida na madrugada de sábado para domingo, 27. Antes, Leandra já havia tomado a internet com um vídeo no qual demonstra a eficácia das máscaras como uma barreira física contra a Covid-19. A campanha feita com o apoio da Sociedade Brasileira de Imunizações surgiu como uma resposta ao crescente números de mortos da segunda onda da pandemia, que levou o Brasil a atingir a trágica marca de meio milhão de óbitos provocados pela doença. Leandra fala a VEJA sobre os vídeos, motivados por um sentimento de impotência em relação ao “momento criminoso” e à falta de ações federais para divulgar informações essenciais no controle da pandemia. Confira a entrevista:

Você viralizou nas redes com um vídeo em que recebe um banho de poeira para provar a eficiência do uso de máscaras. De onde surgiu essa ideia? Eu queria uma imagem que furasse essa bolha e comunicasse por si só. Tive essa ideia do pó para que as pessoas conseguissem ver que a máscara realmente funciona como uma barreira física. Depois disso, eu fui juntando alguns parceiros para criarmos juntos.

Além desse viral, você publicou uma série de outros vídeos conscientizando sobre a importância e a maneira correta de usar cada máscara. Por que decidiu fazer isso agora? A gente teve a ideia da campanha em um momento em que o Brasil estava vacinando há dois meses e entrando em uma onda superagressiva, com muitas mortes e casos por dia. A vacina é um protocolo de prevenção, e é preciso ter celeridade nesse processo, mas as pessoas precisam usar a máscara de maneira correta e seguir com os protocolos firmes até atingir os 80% da população vacinada. Os vídeos foram uma tentativa de bolar algo, através do audiovisual, para contribuir com a sociedade nesse momento.

Incentivar o uso de máscaras, em teoria, é papel do Ministério da Saúde. A ausência de campanhas por parte do governo pesou na sua decisão de fazer a campanha? A campanha surgiu de uma necessidade. Eu estava me sentindo muito impotente nesse momento trágico e criminoso que estamos vivendo. Vivemos sob um governo negacionista que não faz o mínimo, que é instruir as pessoas sobre como passar por esse momento. Durante a epidemia de Aids, eu lembro de ver comerciais de conscientização, então tinha essa sensação de que uma iniciativa audiovisual pudesse contribuir agora. 

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O primeiro vídeo da campanha foi sobre a vacinação. Qual a importância dele nesse momento? A ideia desse vídeo em específico foi colocar na voz de uma criança o quanto ela precisa que toda a sociedade se vacine para que ela possa ter memórias no futuro como nós temos da nossa infância. As memórias que você tem na infância dependem de uma sociedade inteira para existir. O combate à Covid-19 é um exercício coletivo, a gente precisa um do outro para não se contaminar e sobreviver. Precisamos que todo mundo se vacine para que a vacinação faça efeito, ou corremos o risco de ficar em um estado meio vacinado e com muitas variantes circulando, que é o cenário ideal para o surgimento de mais variantes. Você precisa se vacinar e usar máscaras corretamente não só por você, mas para que todo mundo consiga sair disso. 

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Há uma discussão sobre as celebridades “isentonas”. Você, ao contrário, sempre foi muito posicionada politicamente. Por que essa escolha? Estamos vivendo um momento muito extremo, é uma tragédia. Já são meio milhão de vidas perdidas, de pais, de mães, de filhos, de avós e netos. Nós, que temos a possibilidade de alcançar mais pessoas, de combater esse momento de alguma forma, devemos fazer isso. A informação está sendo passada nos meios oficiais de maneira equivocada. As pessoas estão perdidas, confusas, sem saber em quem confiar, e estamos vivendo um período de ataque à ciência. E eu, como artista, tenho uma plataforma com vários seguidores a quem eu posso produzir conteúdo e compartilhar informações. Espero que isso tenha elucidado as pessoas e que outros se inspirem para que tenhamos forças para manter uma rede para compartilhar coisas boas e essenciais. 

Figuras públicas, então, teriam uma responsabilidade em ajudar a difundir esse tipo de informação? Eu não acho que as pessoas são obrigadas a se posicionarem, mas a existência política e meu papel como cidadã são muito importantes para mim. Estar no diálogo e na luta é algo que faz parte da minha existência. Eu não consigo me imaginar vendo algo injusto acontecer e não estar de alguma forma batalhando pra que aquilo não aconteça. Essa é a minha forma de encarar o mundo e de encarar a vida. 

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Muitos artistas têm incentivado as pessoas a ficar em casa, usar máscaras e tomar vacinas, o que atrai ataques de negacionistas de apoiadores do governo. Você recebeu algum tipo de ameaça? Isso é algo que eu não levo em consideração. Nós estamos falando de 500.000 vidas – e eu acho importante usar a palavra vida, porque 500.000 mortes são 500.000 vidas que se perderam. Sofrer um ataque nas redes sociais não é nada comparado a isso. Eu tenho consciência de que eu estou alinhada com o que eu acredito, e o que eu puder fazer para fortalecer a luta de toda a sociedade contra essa pandemia e a luta pela democracia, eu vou fazer. 

Você contou com a ajuda de especialistas para produzir os vídeos? Sim, com certeza. Nós tivemos a Sociedade Brasileira de Imunizações nos orientando. Apesar de serem vídeos curtos, eles deram muito trabalho, porque foram várias reuniões com a Sbim e com parceiros. Para falar sobre uma pandemia e sobre ciência, é preciso de gente gente gabaritada e responsável. Nós precisamos de cientistas do nosso lado, porque eles devem ser ouvidos. Não foi algo que eu simplesmente joguei nas minhas redes sociais, foram várias idas e vindas até a edição final. 

Teremos mais vídeos pela frente? Eu tenho vontade de fazer outros vídeos, mas acredito que a gente conseguiu cumprir o objetivo de disseminar a importância do uso de máscaras e um sentimento de responsabilidade para com o outro. Esses vídeos têm uma duração maior do que o momento em que eles foram postados. Eles continuam sendo vistos e replicados porque eles têm uma penetração e uma duração longa. Eu acho que podemos fazer outros vídeos no futuro, mas não é de um dia para o outro, temos que fazer isso com responsabilidade.

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