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Kim Kardashian, a cinderela maldita

Ao protagonizar um casamento-relâmpago com ares de golpe de marketing, a socialite americana se tornou um fenômeno instantâneo de popularidade por trair o que ainda é o sonho de boa parte da sociedade

Por Mariana Zylberkan 14 nov 2011, 07h55

Kim Kardashian. Duas palavras que, até pouco tempo, só faziam inspirar no Brasil a infame questão “Famosa quem?” se tornaram símbolo de oportunismo e traição. Não traição conjugal: ao que se sabe, ela não pulou a cerca do lar que dividiu por 72 dias com o jogador de basquete Kris Humphries. Mas traição de um ideal. A menina rica se casou com pompa – a cerimônia milionária foi transmitida na televisão e vista por 4 milhões de pessoas, só nos Estados Unidos – com um homem alto e bonito. E se separou logo depois, deixando no ar um odor de golpe publicitário e passando de penetra a convidada de honra na festa das personalidades mais comentadas do momento.

“Ela é uma espécie de Cinderela maldita que realizou o sonho de muitas meninas e estragou tudo no fim”, explica o filósofo Luiz Felipe Pondé, professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Para ele, não há nenhuma moralidade nessa situação, que passa mais por um juízo estético do que moral. “Ela simplesmente fez feio. Tudo é banal nessa história.”

Mais do que fazer feio, do ponto de vista psicanalítico, Kim Kardashian praticou uma violência contra o arquétipo romântico da mocinha que vive feliz para sempre com seu príncipe encantado. “Por mais que muitas mulheres digam, hoje em dia, que não querem se casar formalmente, essa vontade permanece latente. No íntimo, o desejo de ser protegida, realizado através do casamento, ainda é muito forte”, explica a psicóloga Ana Paula Mallet da Casa da Saúde da Mulher, entidade ligada à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Todas essas considerações, porém, ainda contam com um agravante, o ingrediente final para o explosivo fenômeno de popularidade chamado Kim Kardashian. É inerente ao ser humano o interesse por futilidades – como o casamento-relâmpago da socialite americana. “Existe uma teoria científica dentro do darwinismo que atribui à fofoca o motivo pelo qual o homem aprendeu a falar. Segundo essa teoria, a gente aprendeu a se comunicar apenas para fazer futrica”, diz Pondé.

Essa vocação humana para a superficialidades encontra terreno fértil nas redes sociais. Segundo o filósofo, ferramentas como Twitter e Facebook facilitam a aproximação das pessoas com as celebridades, o que explica a sensação de familiaridade nutrida pelos 11 milhões de internautas que a seguem no Twitter. E que tanta gente se sinta à vontade para criticá-la. “É como fofocar sobre a vizinha que casou e se separou em seguida.”

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Quem é Kim Kardashian – Como tantos que ostentam o título de celebridade, Kim Kardashian não demonstra habilidades artísticas, mas não lhe falta capacidade de chamar atenção. No melhor estilo “falem mal, mas falem de mim”, a socialite especializou-se em suscitar curiosidade entre o público com os passos que dá em falso. O primeiro deles, eficiente para torná-la conhecida, foi a divulgação em 2007 – aparentemente acidental – de um vídeo em que aparece fazendo sexo com o rapper Ray J, seu namorado na época. Depois disso, Kim e sua família buscapé-chique – composta por mãe e irmãs lindas, bem vestidas e barraqueiras – viraram reality stars com o programa Keeping up with the Kardashians, exibido pelo canal E! Entertainment Television.

Desde a estreia, em outubro de 2007, o reality show rendeu à emissora o recorde de audiência em toda a sua história, nos EUA. O último episódio da quarta temporada, que registrou média de 3,7 milhões espectadores, foi acompanhado por 4,8 milhões de pessoas, a segunda maior marca já registrada pelo E!, segundo o jornal americano Orlando Sentinel. Atualmente, o programa está na sexta edição.

Igualmente um sucesso de audiência, a transmissão do enlace de 10 milhões de dólares foi um momento solo para Kim, que brilhou acima do clã e, é claro, com um anel de diamante de 2 milhões de dólares. Foi a desproporção entre a grandeza do evento e a curta duração do casamento que levou às suspeitas, logo abraçadas pela imprensa americana, de que tudo não teria passado de uma estratégia de marketing.

“Vivemos numa época consumista, espetaculosa e de intenso culto à imagem. As pessoas famosas sabem disso e tentam prolongar ao máximo a exposição. O casamento proporciona isso por ser uma espécie de resquício dos contos de fada. A festa luxuosa é uma concretização do ideal romântico, alimentado pela maioria das pessoas”, explica a historiadora Rosa Maria Macedo, coordenadora do Núcleo de Família e Comunidade da faculdade de psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Ofendida com as acusações de golpe publicitário, Kim Kardashian rebateu as acusações e jurou que se casou por amor. Não adiantou muito. As duas palavras que passaram a simbolizar uma ameaça ao ideal romântico do matrimônio também já se tornaram slogan para o movimento gay americano, na luta pela aprovação do casamento homossexual. No Facebook, a entidade Equality National March lançou a campanha: “If You Think Gay Marriage Cheapens The Institution, Two Words: Kim Kardashian”. Na tradução livre, a frase diz: “Se você pensa que o casamento gay desmoraliza a instituição, duas palavras: Kim Kardashian”.

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