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Julia Quinn: ‘Não vejo apelo em personagens que tratam a mulher como lixo’

Autora de romances de época fala a VEJA sobre seus personagens bons-moços e sobre a futura adaptação de sua obra por Shonda Rhimes em uma série da Netflix

Por Raquel Carneiro Atualizado em 5 jul 2019, 17h16 - Publicado em 5 jul 2019, 07h00

É fácil reconhecer os livros de Julia Quinn nas livrarias. As capas são rebuscadas, com belas mulheres de vestidos bufantes ou homens elegantes com elementos vintage, como cartolas e fraques — títulos românticos completam o pacote, como A Dama Mais Desejada e Um Marido de Faz de Conta. A autora americana de 49 anos escreve, como sugere a descrição acima, tramas açucaradas, leves e bem-humoradas, que se passam em tempos distantes, especialmente entre os séculos XVIII e XIX. Sua receita faz sucesso. Tanto que ela soma mais de 10 milhões de cópias vendidas no mundo, sendo 1,15 milhão no Brasil – seu principal mercado fora de países em língua inglesa –, publicadas pela editora Arqueiro.

Livro ‘Um Cavalheiro a Bordo’, de Julia Quinn //Divulgação

Seu novo título, Um Cavalheiro a Bordo, terceiro da série Os Rokesbys, chega às livrarias na próxima semana. A saga é derivada de outra criação da pena da autora, a bem-sucedida Os Bridgertons, sobre uma família aristocrática formada por oito polidos irmãos (quatro homens e quatro mulheres), conduzidos por uma sábia matriarca. A história foi eleita por Shonda Rhimes para integrar seu portfólio na Netflix – a adaptação em oito episódios está prevista para 2020 e tem Julie Andrews no elenco.

Julia falou a VEJA sobre suas escolhas criativas e as críticas sobre seus heróis bons-moços – tipos considerados irreais para os padrões dos dias de hoje. Confira abaixo a entrevista:

 

Por que decidiu ambientar seus romances no passado? Sempre gostei de ler livros de época. Como escritora, penso que séculos nem tão distantes, como XIX e XVIII, são ótimos, pois são modernos o suficiente para que os personagens possam se comportar e pensar de maneira parecida com o que ainda pensamos hoje em dia. Entrar numa era medieval, por exemplo, é algo que não me arrisco, pois existia um misticismo, uma espécie de religiosidade que afetava diretamente o modo de agir das pessoas. Então gosto deste passado recente, moderno o suficiente para que o leitor se relacione, mas distante e simples de um modo que torne mais adequado imaginar um príncipe encantado.

Você está com seu marido há 30 anos. Seu relacionamento é uma influência para escrever sobre bons-moços? Talvez. Acho que existe uma conexão. Para mim, um romance precisa de homens bons. Existem muitos livros com mocinhos que fazem o tipo “bad boy”. Não entendo o apelo de um personagem que trata a mulher como lixo. Eu sou casada, bem casada, com um cara bacana, bom e honrado, e um pouco teimoso também. Quando crio um personagem, penso nisso. Quero que o leitor goste tanto do personagem que queira ser amigo daquela pessoa.

Qual crítica sobre sua escrita mais a incomoda? Justamente sobre meus personagens masculinos. Me irrita quando dizem que crio expectativas muito altas nas mulheres em relação aos homens. Ora, imaginar uma relação longa e monogâmica entre duas pessoas que se respeitam seria um exagero? Muitas leitoras perceberam que estavam em relacionamentos abusivos depois de lerem meus livros. E, claro, meus heróis não são perfeitos, pois ninguém o é. Então não escrevo sobre homens perfeitos, mas homens que tratam bem as mulheres e que, apesar de cometerem erros, refletem sobre isso e tentam melhorar.

Os Bridgertons são seus personagens mais famosos. Como eles foram criados? Na verdade, não me lembro. Faz 20 anos que comecei a escrever sobre eles! Mas sei que, para mim, os leitores gostam de ler sobre famílias felizes. Na literatura, uma família feliz costuma ser considerada entediante, como diz Tolstói no começo de Anna Karenina. Então, eu queria falar sobre personagens criados com amor, com uma mãe que não traumatizou os filhos. É muito comum o romance em que os protagonistas sobrevivem a uma infância terrível, e por isso são do jeito que são. Não faço isso. Então os Bridgertons são uma grande família, divertida, com problemas típicos de famílias.

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Livros da série Os Bridgertons, de Julia Quinn, que ganhará adaptação pela Netflix //Divulgação

 

Como foi receber a notícia de que Shonda Rhimes estava interessada em adaptar essa família para uma série na Netflix? Um representante da Shonda ligou para perguntar se os direitos dos meus livros ainda estavam disponíveis. Eu respondi aos berros: sim! Ela é ótima, sou uma grande fã. Não posso falar muito ainda sobre a série, mas está em fase de produção e estou muito animada. Vou trabalhar como consultora do roteiro.

Você é americana, mas seus romances se passam na Inglaterra. Qual sua ligação com o país? Nasci em Nova York e moro atualmente em Seattle, mas sempre me senti conectada com a cultura inglesa. Como disse, gosto de ler livros de época, e muitos deles se passam na Europa. Assim que terminei o colegial, fiz um ano de intercâmbio na Inglaterra, que serviu de pesquisa para meus livros. E, recentemente, meu marido, que é médico, fez uma especialização por lá, então moramos por alguns meses em Londres.

Como é seu processo de pesquisa? Acho importante ressaltar que meus livros não são históricos, em que se reconta a vida de personagens reais. Escrevo romances de época, meus personagens são fictícios, colocados em um período de tempo real, mas eles não interagem com pessoas que existiram, apenas com eventos e regras que estão no pano de fundo. Então, para isso, faço uma longa pesquisa, para não errar ao descrever episódios históricos, costumes, e até hábitos de linguagem ou determinado tipo de piadas e humor que precisam estar de acordo com o que se dizia na época.

  • Você é uma autora prolífica. Como é sua rotina de escrita? Na verdade, não tenho uma rotina específica de escrita. Eu simplesmente me sento quando estou inspirada e escrevo o máximo que posso. Geralmente me vejo atrasada em relação ao prazo que minha editora me dá. Então, quando estou próxima da data de entrega, me afasto por um tempo, tiro uma semana ou mais em um lugar tranquilo, e corro contra o relógio.

    É verdade que você escreve enquanto anda em uma esteira? Na verdade, estou falando com você agora andando em uma esteira (risos). Mas raramente escrevo livros assim. Costumo caminhar e escrever quando faço coisas mais mecânicas, como responder e-mails e escrever esboços.

    Você diz ser feminista e fala sobre romances que algumas feministas refutam. O que é, na sua opinião, o verdadeiro feminismo? É uma questão complicada. Meus livros se passam em um período em que mulheres tinham direitos e oportunidades muito restritas em relação aos homens. A mulher era propriedade do pai e, depois, do marido. E isso é terrível. Então crio personagens femininas que são fortes, tem valores e sonhos, e que se desdobram dentro do que a época permitia para encontrar algum tipo de igualdade. E, para muitas delas, o sonho é se casar e ter uma família feliz. Este continua a ser o sonho de muita gente hoje. E não há nada de errado com isso. Para mim, o feminismo é isso: permitir que as pessoas façam suas escolhas, e que os demais respeitem essas escolhas, mesmo se for diferente da sua. Por fim, nos livros, busco a igualdade, mesmo que seja dentro do casamento, na relação com seu par.

    Como está sua agenda de trabalho agora? Bem, estou trabalhando na série dos Rockesbys. Serão quatro livros – o terceiro está para sair no Brasil, o último está previsto para 2020. Tenho um contrato para escrever mais uns dois romances, pelo menos, farei uma graphic novel e, claro, espero estar mais envolvida com a série de TV nos próximos meses.

     

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