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‘José & Pilar’ é um filme para admiradores de Saramago

Documentário de Miguel Mendes é uma bela crônica do cotidiano do escritor e de sua mulher, Pilar Del Rio, e uma homenagem à história de amor dos dois

Por Lucila Soares - 24 set 2010, 20h28

Há sequências emocionantes, como a que registra a festa de aniversário organizada para o escritor em Azinhaga, sua cidade natal. “Se vocês fossem menos eu já tinha chorado. Mas vocês são tantos que nem chorar posso”, diz Saramago

José & Pilar é um filme de admirador, feito para admiradores do escritor José Saramago (1922-2010). Estabelecer essa moldura é essencial para acompanhar o documentário de Miguel Gonçalves Mendes. O diretor tem com Saramago e sua mulher, a jornalista espanhola Pilar Del Rio, uma cumplicidade quase tão escancarada quanto a que se revela entre os protagonistas ao longo de seu filme. O resultado é um documentário intimista e delicado, em que a estatura intelectual do único Nobel de literatura da língua portuguesa é muito menos importante do que seu cotidiano ao lado de Pilar. Da mesma forma, as referências ao papel fundamental que ela teve na carreira dele são menores do que o profundo afeto que transparece no jeito com que Saramago olha para ela, sorri com o canto da boca e, num arroubo inesperado, dá-lhe um tapinha no traseiro quando ela passa a seu lado.

O cenário principal do filme é a pedregosa ilha espanhola de Lanzarote, mais especificamente a ampla casa onde o casal viveu até a morte de Saramago, em junho de 2010. A partir do cotidiano que se desenrola ali, é possível acompanhar pelo ângulo doméstico fatos públicos que marcaram a vida do escritor, como o rompimento (e a reconciliação) com Portugal, a agenda exaustiva, a luta contra o câncer. E, também, ter a ilusão de estar compartilhando momentos de pura intimidade, como se a câmera não existisse. É o caso da cena em que Saramago está sentado em frente ao computador, inteiramente concentrado. A câmera passa por trás dele e revela o objeto de tamanha atenção: um jogo de paciência.

Há sequências emocionantes, como a que registra a festa de aniversário organizada para o escritor em Azinhaga, sua cidade natal. “Se vocês fossem menos eu já tinha chorado. Mas vocês são tantos que nem chorar posso”, diz Saramago. Outras muito engraçadas, como a que mostra um exausto escritor com um enorme microfone vermelho à sua frente reagir indignado quando lhe pedem uma mensagem natalina aos telespectadores. “Mas eu odeio Natal, como posso dizer isso?”.

O senão do filme é o ritmo. José & Pilar demandou quatro anos de trabalho de Miguel Mendes. A quantidade de material gravado, aliado ao extremo envolvimento do diretor com seus personagens, prejudicou a edição do filme, que resulta prolixo – embora, com seus 125 minutos, não seja objetivamente tão longo. A intenção de associar o documentário ao processo de criação, produção e divulgação do romance A Viagem do Elefante não se impõe como fio condutor da narrativa. Isso não chega a comprometer o resultado. Mas acaba tornando José & Pilar um tanto cansativo. Mesmo para admiradores.

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