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Jon Batiste vai da sonata ao soul no ótimo disco ‘Black Mozart’

Em seu novo álbum, o premiado multi-instrumentista reimagina peças do compositor austríaco mesclando ritmos afro-americanos

Por José Emilio Rondeau 14 ago 2026, 06h00 | Atualizado em 14 ago 2026, 10h46
Jon Batiste vai da sonata ao soul no ótimo disco ‘Black Mozart’ Priorizar nos meus resultados Google

Parte de uma dinastia musical de Nova Orleans — epicentro histórico da música negra americana —, Jon Batiste, 39 anos, aprendeu na infância com o tio-avô e mentor Alvin Batiste Sr., um exímio clarinetista e pioneiro do jazz, a “abrir os ouvidos” e se deixar cativar pela música de Mozart. Para tirar a pecha de “formal” que o sobrinho atribuía ao pianista, compôs um blues a partir da abordagem melódica do gênio austríaco, deixando o garoto de ouvidos (e boca) abertos. “A música com a qual ele se identificava ignorava os limites de gênero”, disse Batiste sobre o parente a VEJA, em uma chamada de vídeo de sua fazenda, nos arredores de Nova York (leia a entrevista). Bom aluno, o cantor, compositor e multi-instrumentista não conhece limites na hora de criar. Parte do clube dos vencedores do “EGO” — tem na estante estatuetas do Emmy e do Grammy e um Oscar, este pela trilha sonora da animação Soul —, Batiste joga em todas, com passagens pelo pop, jazz, blues, soul, clássicos e funk. Agora, honra essa versatilidade e o ensinamento do tio-avô com o lançamento de seu novo álbum, Black Mozart, que acaba de chegar às lojas e plataformas digitais, no qual mostra sua transposição do repertório de Wolfgang Amadeus Mozart para o vernáculo da música afro-americana.

GÊNIO - Mozart segundo Jon: mestre da simetria e precursor do moderno
GÊNIO - Mozart segundo Jon: mestre da simetria e precursor do moderno (DeAgostini/Getty Images)

Esse é o segundo volume de uma série de discos de piano do artista, iniciada em 2024 com a gravação de composições reimaginadas de Ludwig van Beethoven. O projeto ganha, também neste mês, dois outros álbuns dedicados à obra do pianista Thelonious Monk (1917-1982): o Monk Meditations e o Monk Movements — o primeiro dedica-se a capturar a essência espiritual da música do veterano e mestre do bebop, substrato do jazz baseado no improviso; o segundo pensa a obra de Monk de maneira visual. “Como se eu estivesse pintando através do piano”, descreve Batiste, poético.

Não é de hoje que artistas contemporâneos constroem pontes entre o repertório de clássicos e o vocabulário musical da época moderna. Que o digam George Gershwin (1898-1937), que na década de 1920 misturou ritmos urbanos com compositores como Bach e Debussy; ou seu contemporâneo Duke Ellington (1899-1974), que tirou o jazz dos clubes apertados para levá-­lo às salas de concerto. De lá para cá, foram muitos os que colaboraram para tornar a música negra em papo de erudito. A incomparável Nina Simone (1933-2003), cantora de soul e pianista de formação clássica, é um exemplo, assim como a novata Raye — a inglesa de 28 anos mistura hip-hop e Vivaldi em uma mesma música sem peso na consciência. Mas Jon Batiste propõe algo muito maior.

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LENDÁRIO - Thelonious Monk: pianista adicionou o improviso ao jazz
LENDÁRIO - Thelonious Monk: pianista adicionou o improviso ao jazz (American Photo Archive/Alamy/Fotoarena/.)

Ousado, ele considera um equívoco classificar como “clássica” apenas a música advinda da Europa. “A forma reconhecida da grande composição, da grande obra da humanidade, vem de todos os matizes e de todos os povos diferentes”, diz. “Uma das grandes inspirações para esses álbuns é a expressão da diáspora africana também na música clássica”, explica ele, remetendo à dispersão forçada de povos africanos escravizados pelo mundo. “Eu venho de uma linhagem que sinto ser complementar à tradição da música clássica europeia: ela se mistura muito bem à música clássica afro-­americana.” Ele defende suas ideias com dados. Batiste compara Monk, por exemplo, ao próprio Mozart, por considerá-lo igualmente capaz de combinar “construção matemática e estrutura rítmica”.

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O resultado prático dessa teoria é caloroso. Em Black Mozart, ele expõe por completo sua paixão pelo material original com que está trabalhando e se diverte no processo, enquanto testa caminhos e incorpora os sons de seu corpo, sua respiração, pequenos gritos — até gargalhadas —, quando encontra um fraseado ou um acorde que fundamenta ou reforça a tese em que baseia os álbuns: ingressar no universo da música clássica sem seguir dogmas, mas desafiando-os, expandindo suas possibilidades. Promete fazer algo parecido no Brasil, onde se apresenta em 7 de setembro, no Rock in Rio, unindo os ritmos de lá com os daqui. Para ele, a música não tem limites, seja na sonata ou no soul.

“A música está no meu sangue”

Jon Batiste fala a VEJA sobre suas raízes, experimentações e expectativas para o Rock in Rio.

PRESTÍGIO - Batiste: ele é parte do seleto clube “EGO”, de vencedores do Emmy, do Grammy e do Oscar
PRESTÍGIO - Batiste: ele é parte do seleto clube “EGO”, de vencedores do Emmy, do Grammy e do Oscar (David Becker/Getty Images)
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Como foi ser criado em uma família musical? Cresci em Kenner, próximo a Nova Orleans, onde muitos familiares vivem e trabalham no meio. O protojazz, de antes do jazz, está na minha linhagem. Foi uma bênção, a música está no meu sangue.

Você chama seu tio-avô Alvin Batiste de mentor. Como ele o influenciou? Ele tinha uma concepção musical muito global e abrangente, para além de gêneros. A música com a qual se identificava ignorava os limites entre a vanguarda, a música clássica, a improvisação de free jazz, a world music, a música de paradas marciais e a música folk antiga. Ele me influenciou a pensar além dos gêneros musicais.

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Prepara algo especial para seu show no Rock in Rio? Adoro quando tenho a oportunidade de tocar no Brasil. A percussionista da minha banda, (a paulista) Nêgah Santos, está me ajudando a fazer a curadoria deste show. Ela também se identifica com a conexão entre Nova Orleans e o Brasil. E eu sinto que estamos construindo algo muito especial, que mescla nossas tradições.

O que falta explorar, depois de ter feito TV, trilhas de filmes, sucessos pop, música clássica, jazz e até uma sinfonia? Acho que não existem restrições. Quero continuar me desafiando e representar algo diferente na área cultural, algo que não tenha a ver apenas comigo, mas com linhagem, passado, presente e futuro. Quem ouve meu trabalho sabe que não acredito em limites na música.

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Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008

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