Jon Batiste vai da sonata ao soul no ótimo disco ‘Black Mozart’
Em seu novo álbum, o premiado multi-instrumentista reimagina peças do compositor austríaco mesclando ritmos afro-americanos
Parte de uma dinastia musical de Nova Orleans — epicentro histórico da música negra americana —, Jon Batiste, 39 anos, aprendeu na infância com o tio-avô e mentor Alvin Batiste Sr., um exímio clarinetista e pioneiro do jazz, a “abrir os ouvidos” e se deixar cativar pela música de Mozart. Para tirar a pecha de “formal” que o sobrinho atribuía ao pianista, compôs um blues a partir da abordagem melódica do gênio austríaco, deixando o garoto de ouvidos (e boca) abertos. “A música com a qual ele se identificava ignorava os limites de gênero”, disse Batiste sobre o parente a VEJA, em uma chamada de vídeo de sua fazenda, nos arredores de Nova York (leia a entrevista). Bom aluno, o cantor, compositor e multi-instrumentista não conhece limites na hora de criar. Parte do clube dos vencedores do “EGO” — tem na estante estatuetas do Emmy e do Grammy e um Oscar, este pela trilha sonora da animação Soul —, Batiste joga em todas, com passagens pelo pop, jazz, blues, soul, clássicos e funk. Agora, honra essa versatilidade e o ensinamento do tio-avô com o lançamento de seu novo álbum, Black Mozart, que acaba de chegar às lojas e plataformas digitais, no qual mostra sua transposição do repertório de Wolfgang Amadeus Mozart para o vernáculo da música afro-americana.
Esse é o segundo volume de uma série de discos de piano do artista, iniciada em 2024 com a gravação de composições reimaginadas de Ludwig van Beethoven. O projeto ganha, também neste mês, dois outros álbuns dedicados à obra do pianista Thelonious Monk (1917-1982): o Monk Meditations e o Monk Movements — o primeiro dedica-se a capturar a essência espiritual da música do veterano e mestre do bebop, substrato do jazz baseado no improviso; o segundo pensa a obra de Monk de maneira visual. “Como se eu estivesse pintando através do piano”, descreve Batiste, poético.
Não é de hoje que artistas contemporâneos constroem pontes entre o repertório de clássicos e o vocabulário musical da época moderna. Que o digam George Gershwin (1898-1937), que na década de 1920 misturou ritmos urbanos com compositores como Bach e Debussy; ou seu contemporâneo Duke Ellington (1899-1974), que tirou o jazz dos clubes apertados para levá-lo às salas de concerto. De lá para cá, foram muitos os que colaboraram para tornar a música negra em papo de erudito. A incomparável Nina Simone (1933-2003), cantora de soul e pianista de formação clássica, é um exemplo, assim como a novata Raye — a inglesa de 28 anos mistura hip-hop e Vivaldi em uma mesma música sem peso na consciência. Mas Jon Batiste propõe algo muito maior.
Ousado, ele considera um equívoco classificar como “clássica” apenas a música advinda da Europa. “A forma reconhecida da grande composição, da grande obra da humanidade, vem de todos os matizes e de todos os povos diferentes”, diz. “Uma das grandes inspirações para esses álbuns é a expressão da diáspora africana também na música clássica”, explica ele, remetendo à dispersão forçada de povos africanos escravizados pelo mundo. “Eu venho de uma linhagem que sinto ser complementar à tradição da música clássica europeia: ela se mistura muito bem à música clássica afro-americana.” Ele defende suas ideias com dados. Batiste compara Monk, por exemplo, ao próprio Mozart, por considerá-lo igualmente capaz de combinar “construção matemática e estrutura rítmica”.
O resultado prático dessa teoria é caloroso. Em Black Mozart, ele expõe por completo sua paixão pelo material original com que está trabalhando e se diverte no processo, enquanto testa caminhos e incorpora os sons de seu corpo, sua respiração, pequenos gritos — até gargalhadas —, quando encontra um fraseado ou um acorde que fundamenta ou reforça a tese em que baseia os álbuns: ingressar no universo da música clássica sem seguir dogmas, mas desafiando-os, expandindo suas possibilidades. Promete fazer algo parecido no Brasil, onde se apresenta em 7 de setembro, no Rock in Rio, unindo os ritmos de lá com os daqui. Para ele, a música não tem limites, seja na sonata ou no soul.
“A música está no meu sangue”
Jon Batiste fala a VEJA sobre suas raízes, experimentações e expectativas para o Rock in Rio.
Como foi ser criado em uma família musical? Cresci em Kenner, próximo a Nova Orleans, onde muitos familiares vivem e trabalham no meio. O protojazz, de antes do jazz, está na minha linhagem. Foi uma bênção, a música está no meu sangue.
Você chama seu tio-avô Alvin Batiste de mentor. Como ele o influenciou? Ele tinha uma concepção musical muito global e abrangente, para além de gêneros. A música com a qual se identificava ignorava os limites entre a vanguarda, a música clássica, a improvisação de free jazz, a world music, a música de paradas marciais e a música folk antiga. Ele me influenciou a pensar além dos gêneros musicais.
Prepara algo especial para seu show no Rock in Rio? Adoro quando tenho a oportunidade de tocar no Brasil. A percussionista da minha banda, (a paulista) Nêgah Santos, está me ajudando a fazer a curadoria deste show. Ela também se identifica com a conexão entre Nova Orleans e o Brasil. E eu sinto que estamos construindo algo muito especial, que mescla nossas tradições.
O que falta explorar, depois de ter feito TV, trilhas de filmes, sucessos pop, música clássica, jazz e até uma sinfonia? Acho que não existem restrições. Quero continuar me desafiando e representar algo diferente na área cultural, algo que não tenha a ver apenas comigo, mas com linhagem, passado, presente e futuro. Quem ouve meu trabalho sabe que não acredito em limites na música.
Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008







