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‘Jogos Vorazes’ é maior que ‘Crepúsculo’, diz diretora da saga

Em entrevista, Catherine Hardwicke, que comandou o primeiro filme da franquia vampiresca, fala sobre fenômenos adolescentes, tendências do cinema e Kristen Stewart e Robert Pattinson

Por Meire Kusumoto - 26 nov 2015, 08h21

Em uma batalha entre Katniss Everdeen e Bella Swan, quem venceria? Se quesitos como força física e agilidade fossem levados em conta, provavelmente a heroína de Jogos Vorazes perderia para a de Crepúsculo, que no final do último livro e filme se transformou em vampira, ganhando poderes especiais. Mas, colocadas lado a lado como representantes de dois grandes fenômenos adolescentes, é bem possível que Katniss levasse a melhor. Essa, ao menos, é a opinião da americana Catherine Hardwicke, que dirigiu o primeiro filme da franquia Crepúsculo, em 2008. “Acho que Jogos Vorazes é maior”, disse em entrevista ao site de VEJA durante sua passagem pelo Brasil para participar do Rio Market, no final de setembro. “Jogos Vorazes é uma franquia muito interessante, eu amo a Jennifer Lawrence”, afirmou sobre a atriz que viveu a protagonista da saga criada por Suzanne Collins no cinema, encerrada com Jogos Vorazes: A Esperança – O Final, que estreou na semana passada.

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A diretora também fala como foi trabalhar com Crepúsculo quando a saga de Stephenie Meyer ainda não tinha o alcance a que chegou depois de estrear no cinema. “Ninguém sabia que seria um fenômeno cultural. Sabíamos que havia muitos fãs que gostavam do livro, mas os estúdios em Los Angeles não achavam que a adaptação seria um sucesso”, disse, lembrando que tratou o longa como uma produção independente, que bem poderia não dar lucro nenhum ao estúdio que resolveu bancar o projeto, a Summit Entertainment. Quase 400 milhões de dólares em bilheteria no mundo todo depois, Catherine entendeu que realmente estava diante de um blockbuster. Os próximos filmes, que não fora dirigidos por ela, só cresceram em arrecadação, chegando a impressionantes 829,7 milhões de dólares no último, A Saga Crepúsculo: Amanhecer – Parte 2 (2012).

Encerrada há três anos com a estreia do longa derradeiro, a série voltou a ser assunto em 2015, com o aniversário de dez anos de lançamento do primeiro livro e o anúncio de que a história de Bella e do vampiro Edward ganharia uma nova versão com os gêneros dos protagonistas trocados – em Vida e Morte (Intrínseca), o jovem Beau é um humano que se apaixona pela vampira Edythe. Mas os mortos-vivos ainda despertam tanto interesse assim? Catherine aposta que sim. “Acho que um novo tipo de vampiro vai surgir, assim como antes de Crepúsculo tivemos Entrevista com o Vampiro“, afirmou. Mas a diretora também aponta que o próximo fenômeno adolescente pode ser mais sério do que simples histórias sobrenaturais. “Ultimamente, tenho visto temas mais sérios nos livros, como suicídio e depressão na adolescência, ou questões femininas, como o retratado no clipe que eu dirigi de Til It Happens to You, da Lady Gaga, sobre abuso sexual nos campi de universidades”, disse. “Acho que as pessoas gostam de se divertir, de ver filmes cômicos, mas também estão interessadas em assuntos sérios.”

Leia a entrevista na íntegra com Catherine Hardwicke:

Como foi trabalhar com um fenômeno cultural como Crepúsculo? Foi muito interessante porque, quando estávamos trabalhando com o filme, ninguém sabia que seria um fenômeno cultural. Sabíamos que havia muitos fãs que gostavam do livro, mas os estúdios em Los Angeles não achavam que a adaptação seria um sucesso. Todos os estúdios disseram “não” para o projeto, Paramount, Fox, ninguém queria fazer o filme porque eles achavam que não ia lucrar nada. Então, uma nova empresa, a Summit Entertainment, topou fazer. Na época, eu pude fazer mais como se fosse uma produção indie, ainda não era um blockbuster, era apenas um filminho que poderia não dar lucro nenhum (risos). Foi fascinante vê-lo se transformar em um blockbuster, ver o burburinho começar, o número de fãs crescer e as pessoas ficarem mais e mais animadas conforme a gente ia divulgando fotos e trailers do longa e se transformar em um verdadeiro furacão. Foi muito legal acompanhar todos esses estágios.

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O que te levou a aceitar dirigir Crepúsculo? Li o primeiro livro e achei que a autora fez um ótimo trabalho ao compreender e retratar como é se apaixonar loucamente por alguém pela primeira vez. Fiquei com uma sensação de tontura e estupor enquanto lia. Pensei: “Cara, acho que seria muito divertido colocar isso em um filme”. Fiquei me perguntando se eu conseguiria provocar essas mesmas sensações com um longa. Amava a ideia de ter como um dos cenários uma bela floresta e pensava que nunca tinha visto um vampiro na natureza, só nos becos e ruelas de Londres ou Paris. Achava que seria lindo, porque amo a costa noroeste do Pacífico (onde se passa a história de Crepúsculo), com suas árvores e florestas.

Por que decidiu não continuar como diretora da franquia? Para ser honesta, os livros seguintes não me trouxeram os mesmos sentimentos. Eles seguiram uma direção diferente, então não me senti próxima a eles, conectada da mesma maneira como com o primeiro livro. Eu também não sou uma grande fã de sequências, eu geralmente não aceito fazê-las, gosto de fazer coisas diferentes o tempo todo, como você pode ver pela minha filmografia, que tem um filme adolescente, um filme sobre skatistas, outro com vampiros. Gosto de novos desafios.

Você teve liberdade para fazer a adaptação do primeiro livro? Sim, tivemos muita liberdade porque, como eu disse, as expectativas em relação a esse filme não eram altas. E a escritora, Stephenie Meyer, estava muito ocupada, ela foi muito prolífica naquele ano, escreveu outro livro da saga Crepúsculo e o romance A Hospedeira enquanto estávamos fazendo o filme. Ela estava com muitas coisas nas mãos, então, não tinha muito tempo. Por isso, algumas cenas que mostramos no filme não estavam no livro, ou são mostradas de um jeito diferente. Por exemplo, a cena em que Bella diz a Edward que ela sabe que ele é um vampiro se passa em um carro, no romance, mas eu achei que isso poderia ser meio chato em um filme, por eles estarem presos em um banco, com seus cintos de segurança. Resolvi gravar na floresta, criar um ambiente mágico para esse momento.

E a autora gostou do resultado final? Sim, ela adorou, apoiou muito, encarou tudo de forma positiva. Ela costumava ir ao set, se envolveu com o projeto, mesmo estando muito ocupada. Ela também fez parte do filme e ficou feliz com ele.

Depois de trabalhar em Cinquenta Tons de Cinza, a diretora Sam Taylor-Johnson disse em uma entrevista que a autora do livro, E.L. James, foi bastante controladora durante o processo de adaptação do romance. O que acha disso? Se você criou algo, você encara aquilo como se fosse seu filho, então imagino que seja bastante difícil ter alguém ali mudando o seu filho. Ela escreveu o que achou que fosse certo, aquilo que seu coração mandou, então entendo a posição dela. Ao mesmo tempo, se eu visse alguém dirigindo algo que eu quisesse dirigir, eu diria: “Nããão! Eu queria de outro jeito”. Entendo os dois lados.

Acha que o mercado juvenil de cinema viu outro fenômeno tão grande quanto Crepúsculo? Jogos Vorazes, por exemplo, alcançou a mesma dimensão, na sua opinião? Com certeza, acho até que é maior. O mercado vem crescendo, o que é ótimo. Jogos Vorazes é uma franquia muito interessante, eu amo a Jennifer Lawrence. Ela é fantástica, primeiro por uma questão feminista, porque é uma jovem estrela muito fiel a seus próprios princípios, é desajeitada, engraçada, honesta e real. Amo o fato de ela ser uma das maiores artistas do mundo. A Shailene Woodley (da franquia Divergente) também é ótima. Há muitas jovens poderosas que estão por aí.

Acha que, depois de Crepúsculo, os vampiros perderam espaço na cultura pop? Acho que um novo tipo de vampiro vai surgir, antes de Crepúsculo tivemos Entrevista com o Vampiro. Pelos últimos 500 anos, as pessoas têm sido fascinadas pela imortalidade, então, aposto que um autor muito legal logo vai surgir com um novo tipo de vampiro.

Em quais atores da saga Crepúsculo você aposta? Anna Kendrick está fazendo um ótimo trabalho. Ela é linda e eu fiquei muito feliz de tê-la no primeiro longa, ela é muito engraçada. Ela tem feito filmes indie muito interessantes. A Kristen Stewart também está ótima, o Robert Pattinson também tem feito trabalhos bacanas, com cineastas novos. Fico muito feliz por eles estarem tocando projetos tão legais.

Quais são as tendências do cinema para o público adolescente? É complicado, porque todos estão procurando pelo próximo livro para adaptar, todos estão pensando naquilo que os jovens estão buscando agora, querem encontrar o novo Jogos Vorazes, o novo Crepúsculo. Os estúdios estão sempre procurando por algo que capture o que os adolescentes estão sentindo, mas você nem sempre sabe o que é. Mesmo que você tenha emplacado dois sucessos de uma pessoa, os jovens podem não gostar do próximo trabalho dela. Você tem que continuar procurando aquilo que acha original e verdadeiro. Ultimamente, tenho visto temas mais sérios nos livros, como suicídio e depressão na adolescência, ou questões femininas, como o retratado no clipe que eu dirigi de Til It Happens to You, da Lady Gaga, sobre abuso sexual nos campi de universidades. Acho que as pessoas gostam de se divertir, de ver filmes cômicos, mas também estão interessadas em assuntos sérios.

Como surgiu o convite para dirigir Til It Happens to You? Dirigi o filme Miss You Already, que tem em sua trilha sonora duas músicas da cantora Diane Warren, autora dessa canção e que me pediu para dirigir o clipe. Adoro a música, adoro a forma como Gaga canta. Quis fazer parte do projeto, mostrar para os homens que esse tipo de coisa não é legal, que realmente pode afetar as pessoas. Temos que celebrar a vida, não desrespeitá-la. Miss You Already é um filme sobre isso, sobre uma amizade entre duas mulheres e a celebração da vida mesmo quando você está passando por um momento ruim.

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