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João Cabral de Melo Neto ganha biografia tão meticulosa quanto sua obra

Livro acerta ao equilibrar explicações e interpretações sobre a obra do poeta pernambucano com passagens de sua vida

Por Diego Braga Norte Atualizado em 26 nov 2021, 11h39 - Publicado em 27 nov 2021, 08h00

Quando morava em Barcelona, no fim dos anos 40, o poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto deu aulas de literatura brasileira em uma universidade local. Decepcionou-se, porém, com o “espírito estudantil” que atribuía mais valor a rótulos e dados biográficos que às próprias obras literárias. É justamente esse risco, comum em livros sobre a vida de escritores, que João Cabral de Melo Neto — Uma Biografia, de Ivan Marques, evita. O trabalho acerta ao equilibrar explicações e interpretações sobre a obra do poeta pernambucano com passagens biográficas. Ficamos sabendo de suas leituras ao longo da vida, da constante busca por inovações estéticas, de seu perfeccionismo matemático, interesses literários e birras com alguns autores. Em meio a esse saboroso passeio, contudo, desvenda-­se o processo criativo do poeta e ilumina-se a importância da obra cabralina na poesia mundial — traduzido mundo afora, ele foi o brasileiro que mais perto esteve do Nobel.

João Cabral de Melo Neto: Uma biografia

Professor de literatura na Universidade de São Paulo, o biógrafo Marques é especialista em poesia nacional e revela um arsenal teórico precioso para radiografar a poética e a vida de João Cabral. E, diga-se, que vida! Nascido em Recife, em 1920, João Cabral era de uma família oligárquica, descendente de senhores de engenho. Mudou-se para o Rio de Janeiro para trabalhar e estudar para a prova do Itamaraty. Em 1947, parte para seu primeiro posto diplomático, em Barcelona. Depois viriam Londres, Brasília, Sevilha, Madri, Genebra, Berna, Assunção, Dacar, Quito, Tegucigalpa, Porto e, novamente, Rio — onde viveria até a morte, em 1999.

JOÃO CABRAL DE MELO NETO — UMA BIOGRAFIA, de Ivan Marques (Todavia; 560 páginas; R$ 109,90 e R$ 59,90 em e-book) -
JOÃO CABRAL DE MELO NETO — UMA BIOGRAFIA, de Ivan Marques (Todavia; 560 páginas; R$ 109,90 e R$ 59,90 em e-book) – ./.

Rigoroso, João Cabral levava ambas as carreiras muito seriamente — e o livro mostra como o poeta ficou particularmente abalado ao ser afastado do serviço diplomático em razão de uma campanha encabeçada por Carlos Lacerda, em 1952. Vítima de uma cruzada em tudo copiada do macarthismo americano — inclusive em seus componentes de histeria e paranoia —, o diplomata foi acusado de comunista e de conspirar contra os interesses nacionais. Sim, ele era simpatizante do comunismo, mas era mentira que conspirava contra seu país. Retornou ao Itamaraty só em 1954, e o episódio deixou marcas em sua vida.

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Missivista contumaz, sua extensa correspondência ajuda a conduzir a narrativa, pois nela o autor se abre com familiares e conversa de sua vida pessoal e profissional com nomes como Carlos Drummond de Andrade, Lêdo Ivo, Manuel Bandeira, Clarice Lispector, entre outros. Se em muitas biografias os autores recriam e reescrevem diálogos e situações, na de João Cabral o biografado só fala por meio de registros — cartas, artigos e entrevistas. Essa particularidade tira o ritmo mais descontraído e a leveza na leitura, mas garante a precisão factual e o rigor histórico. O meticuloso poeta certamente aprovaria.

Cadernos de Literatura Brasileira. João Cabral De Melo Neto – Número 1

Uma das subtramas mais interessantes da obra é a relação entre João Cabral e Drummond. O poeta mineiro foi ídolo, incentivador e modelo do pupilo pernambucano. De início, os dois foram amigos bastante próximos, a ponto de Drummond ter sido padrinho de casamento de João Cabral. Mas, em dado momento, tornaram-se rivais, com suas obras poéticas trilhando caminhos distintos. Enquanto João Cabral lapidava cada vez mais seus poemas minerais, talhando-os para extirpá-los de adereços, Drummond espraiou-se para uma poesia de temática mais acessível e com concessões ao erotismo. Era o antilírico versus o lírico — ainda hoje, um dos grandes Fla-Flus da literatura nacional.

Como em toda boa biografia, a vida e a obra do protagonista são narradas dentro de um quadro maior, que abrange as mudanças políticas, culturais e sociais do período retratado. Nesse panorama, Ivan Marques mostra como a obra cabralina evoluiu e serviu de referência do concretismo às letras de Caetano Veloso. Ainda assim, era um ourives em constante conflito com sua poesia. Demorou a aceitar Morte e Vida Severina, seu poema mais famoso — mas não o melhor. Escritos sob encomenda, os versos só fizeram sucesso após a montagem teatral do Tuca, em 1966, com músicas do jovem Chico Buarque. João Cabral, enfim, ganha uma biografia capaz de alcançar o maior mérito de uma obra assim: o de despertar uma vontade incontrolável de ler o biografado.

Publicado em VEJA de 1 de dezembro de 2021, edição nº 2766

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Cadernos de Literatura Brasileira. João Cabral De Melo Neto - Número 1
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