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Irmão de Michael Jackson: “Ele era só um cara e virou um gênio da música”

Aos 67 anos, Tito Jackson relembra a convivência com o astro e liga a fama do Jackson 5 — que agora relança seus trabalhos — à luta pela defesa dos negros

Por Marcelo Canquerino Atualizado em 15 abr 2021, 12h17 - Publicado em 16 abr 2021, 06h00

O grupo Jackson 5 marcou época não só por suas canções felizes, mas também pelas coreografias elaboradas. Ainda se lembra delas? Não há como esquecer. É o tipo de coisa que levo comigo para sempre. Eu não era um dos dançarinos principais, era mais um músico no grupo, com meus irmãos Jermaine e Randy. Os dançarinos eram Michael, Marlon e Jackie. Mas aprendíamos os passos e, de vez em quando, dançávamos com eles.

Seu irmão Michael eternizou os passos de dança do moonwalk. Era algo que ensaiavam juntos? O moonwalk era um passo que fazíamos quando crianças brincando na calçada. Nunca imaginamos que Michael o faria com tanta habilidade no palco e que se tornaria o que virou.

Michael foi um artista genial, mas controverso até depois da morte, em 2009. Como enxerga o legado de seu irmão? Sempre soube que Michael era um dos artistas mais talentosos do mundo, mesmo quando ele era criança. Eu ficava imaginando até onde chegaria. E ele foi muito além. Michael era só um cara, que era também meu irmão, e se tornou um gênio da música e do entretenimento. Ele sabia como prender os olhares.

Os três últimos discos do The Jacksons — nome do grupo após os anos 80 — ganham agora em abril um relançamento digital expandido. Como foi revisitar essas memórias? Foi ótimo, pois são músicas eternas e atemporais, especialmente Can You Feel It, que ganhou uma versão remixada. Essa canção de 1980 fala com o mundo de hoje. Traz uma mensagem de esperança e união de que todos precisamos.

O novo remix do hit traz trechos do famoso discurso de Martin Luther King em que ele diz que tem um sonho no qual brancos e negros serão tratados como iguais. No meio, surge o discurso da vitória de Barack Obama quando reeleito à Presidência. Por que essa escolha? Porque a mensagem da música é a mesma dita em ambos os discursos. Obama prega o que doutor King dizia: liberdade, direitos civis e oportunidades igualitárias. A mesma razão pela qual as pessoas protestam hoje no Black Lives Matter. Can You Feel It basicamente fala que nós somos todos iguais, e essa é a chave que precisamos virar em nossa mente enquanto sociedade.

Enxerga hoje uma relação entre o Jackson 5 e o movimento pelos direitos civis dos negros que eclodiu nos Estados Unidos nos anos 60? Quando o Jackson 5 surgiu, não existiam muitos artistas negros em evidência, especialmente com a nossa idade. Michael, por exemplo, tinha 8 anos, e eu, que era um dos mais velhos, tinha 13. Era a primeira vez que crianças negras entravam na casa de americanos brancos nos Estados Unidos falando de amor, paz e felicidade. Em determinado momento, crianças brancas e negras tinham algo em comum: ambas ouviam as músicas do nosso grupo. Elas tinham, finalmente, um assunto para conversar. E isso foi uma mudança radical.

Publicado em VEJA de 21 de abril de 2021, edição nº 2734

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