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Índia ao vivo e a cores

Exposição mostra cotidiano da Índia e busca preparar público para mostra de arte contemporânea daquele país, prevista para inaugurar no fim do mês

Por Mariana Zylberkan 14 fev 2012, 15h55

A maioria das peças que integra a exposição Índia!, em cartaz a partir desta terça no Centro Cultural Banco do Brasil, em São Paulo, foram encomendadas a artesãos locais e até mesmo compradas em lojas no país. O visual de alguns núcleos da mostra até se confunde com a loja de presentes do espaço, recheada de artigos coloridos e banhados em prata. A intenção da curadoria foi literalmente oferecer a Índia real aos visitantes e inserir o público no cotidiano e cultura daquele país como uma espécie de preparação para a mostra de arte contemporânea indiana, prevista para ser inaugurada em 25 de fevereiro no Sesc Belenzinho. Ambas as exposições foram realizadas simultaneamente no Rio de Janeiro e atraíram 600 mil visitantes entre outubro e janeiro. “Esse mergulho na cultura indiana é necessário pois há muito o que ensinar ao público brasileiro. Além disso, não teríamos espaço para expor todo o material de uma só vez aqui em São Paulo”, diz o curador Pieter Tjabbes.

Entre as 350 peças que compõem Índia!, há objetos utilitários, como copos e talheres usados nas casas indianas, utensílios feitos por artesãos para serem usados em templos, além de algumas raridades. O acervo cotidiano é capaz de mostrar a relação intrínseca entre arte e devoção religiosa presente na cultura indiana. Logo na entrada do Centro Cultural Banco do Brasil uma imensa imagem de Ganesh recebe pétalas de rosa num receptáculo de oferendas. “Antes de começar a trabalhar na peça, os artesãos fazem jejum de dois dias, repetem uma série de rezas e usam sete metais considerados sagrados, senão a peça pode se quebrar. O trabalho é uma devoção ao divino”, diz o curador.

Se arte é igual a reverenciar a Deus, o valor cobrado pelas peças é outra particularidade da arte indiana. Tjabbes conta que ficou impressionado com o baixo preço cobrado pelas peças encomendadas para a mostra. O exemplo mais emblemático é um painel de cerca de um metro em que o artista bordou a história da deusa Krishna em detalhes mínimos numa palha de folha de bananeira. “Ele demorou cinco meses para terminar, disse que ficou com os olhos doentes e nos cobrou o equivalente a mil reais pela peça. Quando o questionei sobre o baixo preço, ele disse que se esforça nos detalhes para fazer algo bonito e oferecer a Deus. Os artistas contemporâneos reconhecidos internacionalmente não compartilham desse desprendimento”, diz o curador.

O clima metafísico é simbolizado pela peça que abre a exposição. A pequena estátua Busto de Figura Feminina, aparentemente deusa-mãe, é datada do ano 200 a.C. e representa a fertilidade, que protege qualquer coisa que se inicia. Peças utilitárias preenchem o mesmo espaço que conta ainda com imagens dos dois principais fotógrafos indianos da atualidade: Raghu Rai e Raghubir Singh.

Há um andar inteiro dedicado às três religiões-base da Índia: budismo, islamismo e catolicismo. Esse núcleo conta com uma das peças mais antigas presentes na exposição, a Buddhapada, uma pegada associada a Buda, datada do século XI. “Ao morrer, Buda proibiu seus seguidores de reverenciá-lo e vetou qualquer intenção de criar imagens que o retratassem, por isso os artistas expressavam sua admiração por Buda ao recriar suas pegadas”, diz o curador.

Música, dança, narração de histórias e a indústria manufatureira indiana preenchem os demais espaços da exposição. Bollywood é homenageada no subsolo, onde um telão exibe trechos de filmes produzidos na Índia. “Não colocamos legendas de propósito para que seja observada a estética e linguagem do cinema indiano.”

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