Homem-Aranha enfrenta as dores do crescimento em novo filme
Tom Holland estrela seu quarto filme solo no papel e põe o apelo do personagem à prova em meio à fadiga dos super-heróis
Quando foi apresentado ao mundo, no filme Guerra Civil, de 2016, o Homem-Aranha de Tom Holland dispensou apresentações. Conhecido de outros carnavais, o herói aracnídeo já chegou fazendo acrobacias entre os Vingadores e logo se tornou pupilo de Tony Stark, o Homem de Ferro. Depois de três filmes solo e outros dois ao lado dos Vingadores, ele encara um estranho recomeço. Em Homem-Aranha: Um Novo Dia (Spider-Man: Brand New Day, Estados Unidos, 2026), em cartaz nos cinemas, Peter Parker está em luto após a morte de sua tia May (Marisa Tomei) e passa por transformações físicas inesperadas — a começar pela novidade de que seu corpo agora produz teias sozinho, sem a ajuda do dispositivo mecânico que atrelava ao punho. Em um dramático rito de passagem para a vida adulta, Peter terá de encarar sozinho as dores do crescimento.
Curiosamente, ao ser escolhido para o papel, o ator inglês, então aos 19 anos, mas com carinha de 15 (leia mais na pág. 70), chegou para rejuvenescer o personagem — que já havia sido interpretado por Tobey Maguire e Andrew Garfield. Somados os oito filmes protagonizados pelo trio mais as duas bem-sucedidas animações recentes da franquia Aranhaverso, a franquia já arrecadou 11 bilhões de dólares em bilheteria global — marco que faz dele o super-herói mais rentável da história do cinema. Em tempos de crise no filão — em que nem mesmo a promessa de outro épico dos Vingadores anima o público como outrora —, recai sobre os ombros de Holland a missão de salvar os superpoderosos do ostracismo. Por sorte, a história está a seu lado.
O apelo do aracnídeo se sustenta desde que foi criado em 1962 pelo escritor Stan Lee junto ao desenhista Steve Ditko. Diferente de grande parte dos heróis da época, como os inabaláveis Superman e Capitão América, Parker era um adolescente que, entre vilões malvados, tinha ainda de lidar com acne, provas e desilusões amorosas. Dar poderes a um rapaz comum foi revolucionário — tanto que a Marvel, quando ainda era apenas uma editora de quadrinhos, ia mal das pernas e só se recuperou graças ao sucesso de vendas das revistas com o jovem saltitante. Logo vieram as primeiras adaptações audiovisuais: de uma série de TV americana a uma curiosa versão japonesa, que o imaginava como um motoqueiro vingativo — um prenúncio da versatilidade do personagem, que ganharia releituras diversas, como a recente série Spider-Noir, com Nicolas Cage como o herói em um mundo violento e em preto e branco.
Em Hollywood, demorou para Peter Parker achar seu lugar. Entre múltiplas intrigas de direitos autorais, diferentes cineastas chegaram a idealizar suas adaptações. O mestre do terror Tobe Hooper, de O Massacre da Serra Elétrica, queria que ele se transformasse em uma aranha de verdade. Já James Cameron exigiu um orçamento tão exorbitante que sua versão ficou só no papel. Em 2002, o Homem-Aranha, enfim, ganhou um filme à sua altura com a direção revigorante de Sam Raimi e Maguire no uniforme. Era o início da febre dos super-heróis no cinema. Nas duas décadas seguintes, a vertente lucrativa passou de mina de ouro a aposta de risco para os estúdios, por seus orçamentos altíssimos e retorno imprevisível. Para não deixar a peteca cair, Um Novo Dia tem suas armas secretas.
Feita com 225 milhões de dólares, a produção redobra a aposta em ótimas cenas de ação, mas sem esquecer da força que vem do material humano. Estão no elenco Mark Ruffalo, que volta ao papel de Hulk, e a atriz Sadie Sink estreando nesse universo como a mutante Jean Grey, dos X-Men. Sob os holofotes, de fato, estão Holland e Zendaya, que interpreta a namorada do herói, MJ. Os pombinhos se apaixonaram nos bastidores da franquia e agora estão casados. No roteiro, ela e todo o restante da humanidade esqueceram quem é Peter Parker graças a um feitiço do Doutor Estranho no filme anterior. O garoto, então, terá de reconquistar seu grande amor. Toda queda é a chance de um fascinante recomeço para o Homem-Aranha.
Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006







