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Gregório Duvivier: “Falta o público para que essa experiência seja teatro”

Estreante nas peças virtuais, o humorista apresenta nesta sexta, 14, a versão online do monólogo ‘Sísifo’

Por Jana Sampaio Atualizado em 18 ago 2020, 16h18 - Publicado em 14 ago 2020, 16h01

Longe dos palcos desde meados de março, quando encenou pela última vez o monólogo Sísifo, o humorista carioca Gregório Duvivier, 34 anos, fará sua estreia no mundo das produções virtuais nesta sexta, 14. Em vez da sala de teatro, o ator se apresentará direto da casa de sua mãe, onde também grava seu programa de entrevistas, Greg News, do canal por assinatura HBO. No texto da peça, inspirado no mito grego do homem que carrega diariamente sua pedra para vê-la rolar ladeira abaixo e começar tudo de novo, entram em pauta o momento político brasileiro e as desilusões de se viver em um mundo hiperconectado. O espetáculo, que foi rebatizado para A Montanha vai a Sísifo em razão das medidas de distanciamento social, será transmitido às 21h30 nas redes sociais do SESC. Em entrevista a VEJA, Duvivier, que lançou nesta semana o livro homônimo sobre a peça, falou sobre os desafios de se adaptar à nova linguagem e disse que a pandemia foi “o golpe de misericórdia em um setor que vem sendo muito maltratado por um governo que despreza a cultura”.

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Foi necessário adaptar o roteiro da peça para apresentá-lo virtualmente? Estamos ensaiando online, o que é uma loucura e uma novidade para mim. Como não temos mais o cenário tivemos que cortar do texto os trechos em que fazíamos menção à rampa (o cenário era todo inclinado). Algumas cenas eram muito físicas e a graça residia na exaustão do ator subindo um plano inclinado. Em compensação acrescentamos um texto inédito.

Embora as peças encenadas na internet atraiam a atenção do público, há quem não as considere como teatro. Essas críticas têm fundamento? Concordo que não seja teatro. Para mim, teatro é a reunião de pessoas no mesmo espaço e ao mesmo tempo. Mas também não é como se fosse uma live qualquer porque tem texto e ensaio. No fim das contas fica faltando o ingrediente mágico que é a plateia estar confinada junto com você. Estamos brincando de explorar um gênero que lembra teatro e que talvez venha para ficar, afinal, não sabemos quando poderemos ter muita gente dentro de um espaço fechado de novo.

No teatro, luz, som e sombra são fundamentais para criar o ambiente e as transições temporais, especialmente em monólogos, como é o seu caso. É solitário fazer teatro tendo o computador como palco? Iluminação é realmente fundamental e considero esse elemento como um ator que contracena comigo. Tenho a sorte de ter uma família que trabalha com cinema e arte, então terei uma equipe em casa, que são as pessoas que já estão comigo, que cuidará disso. Todo mundo ajuda do jeito que pode, fora quem que acompanham de forma remota, como o Vinicius Calderoni, que é diretor e co-autor do texto da peça.

Essa semana houve o lançamento do livro da peça. Como foi para você, que já escreveu outras obras, dividir o processo de escrita? Estou muito feliz e tenho um carinho muito especial por esse texto. Eu e Vinicius lançamos o livro pela Editora Cobogó, que é especializada em publicar textos de teatro e já tinha publicado quatro livros dele. As coisas que o Vinicius escreve são muito poéticas. O barato de publicar um texto é que qualquer estudante de teatro, em qualquer canto do Brasil, pode ler e também encená-lo. O livro vai onde o ator não consegue chegar. E se pararmos de fazer essa peça, ele vai continuar vivo.

Como observa os debates sobre cobrança de ingresso desse novo teatro? Quem sabe um dia isso possa acontecer, mas, por enquanto, sou favorável às iniciativas de levar o teatro para dentro da casa das pessoas. O Sesc tem sido fundamental na criação de uma resistência cultural, democrática e diversa. Tem-se feito arte da melhor qualidade por causa da liberdade que eles proporcionam. Eles estão garantindo que a arte esteja acontecendo e chegando às pessoas nos quatro cantos do país.

Considera essas apresentações um respiro em meio ao caos? Estamos com a cultura sucateada desde antes da chegada do coronavírus. Na verdade, a pandemia foi só o golpe de misericórdia em um setor que vem sendo muito maltratado por um governo que despreza a cultura. Resistir e fazer cultura nesse momento é muito bonito.

Com Thais Gesteira

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