Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia

‘Fizeram do uso da máscara um ato político’, diz Corey Taylor, do Slipknot

Vocalista mascarado da banda de metal fala a VEJA sobre primeiro disco solo, depressão, sobriedade e o uso de máscaras na pandemia

Por Felipe Branco Cruz Atualizado em 23 set 2020, 15h06 - Publicado em 23 set 2020, 13h53

Nos últimos 25 anos, o vocalista Corey Taylor, 46, acostumou-se a cantar de maneiras diferentes em suas duas bandas. No Slipknot, sua voz é assustadora e gutural, potencializada pelo horripilante visual provocado pelas máscaras infernais usadas pelos integrantes. No Stone Sour, ele é mais melódico e grave, imprimindo um ar, por assim dizer, mais comportado. Mesmo diferentes, as duas bandas ainda não foram capazes de abarcar toda a sua versatilidade destrinchada nas 13 faixas de seu primeiro trabalho solo, o álbum CMFT (sigla para Corey Motherfucker Taylor), que será lançado em 2 de outubro. No trabalho, que passeia pelo glam rock, hardcore, hip-hop e até pelo country, Taylor interpretou músicas que jamais seriam gravadas pelas suas outras bandas. Algumas das faixas foram escritas por ele há mais de 15 anos, outras surgiram há menos de seis meses.

ASSINE VEJA

A vez das escolas Leia esta semana em VEJA: os desafios da retomada das aulas nas escolas brasileiras. E mais: Queiroz vai assumir toda a responsabilidade por ‘rachadinha’
Clique e Assine

Em entrevista por vídeo a VEJA, Taylor falou sobre o disco, suas influências e também sobre seus dramas do passado, como o alcoolismo, o vício em drogas e a depressão. O vocalista do Slipknot ainda falou sobre a questão atual das máscaras, recusadas por parte da população em plena pandemia . “Se eu consigo usar uma máscara em cima de um palco por duas horas, você, definitivamente, consegue usar uma máscara por cinco minutos para ir na padaria”, disse.

Confira abaixo a entrevista:

As 13 músicas de seu disco solo, CMFT, são bem diferentes do trabalho que você fez com o Slipknot e Stone Sour. Por que? CMFT é um panfleto sobre minhas influências, sabe? Sobre o que eu gosto de ouvir e que cresci ouvindo. Então, o disco tem reflexos do punk da velha guarda, do glam, do hardcore e do hip-hop. Alguns desses materiais eu tenho guardado há mais de 15 anos, como a música Kansas. Muitas dessas canções foram feitas em diferentes estágios da minha vida, inclusive da adolescência, quando ainda estava na escola. Outras foram feitas há sete meses ou enquanto eu estava na estrada com o Slipknot. Quis gravar algumas delas com o Slipknot e o Stone Sour e não rolou, não tinham a mesma vibe, mas eram coisas que eu queria cantar. Então eu as guardei para mim. Mas, uma vez que a música já existe, ela vai se encaixar em algum lugar. Não queria soar como algo que eu já tivesse feito, não fazia sentido me lançar em carreira solo se não fosse para fazer diferente. Eu queria que saísse do coração. 

  • Essa foi a razão, então, para convidar Rob Halford, Lars Ulricht, Marylin Manson, entre outros artistas, para participar do clipe de CMFT Must Be Stopped Sim. Mas não só eles, muitos outros também, como o Nikki Sixx, do Mötley Crüe e outros amigos. Todos eles vieram abençoar a minha carreira. O mundo da música é uma bolha e estamos todos conectados.

    Algumas faixas também têm uma pegada country, como Kansas e HWY 666. Foi proposital? Um pouco, sim. Eu cresci no Iowa e toda a minha família ouvia country music. Eu estava cercado por ela e se não fosse pelo country, não existiria Elvis Presley. Não limito meus gostos musicais. 

    Continua após a publicidade

    Sua extensão vocal vai do gutural no Slipknot a interpretações mais lentas nas novas faixas de seu disco solo. Concorda com quem diz que, atualmente, você tem uma das vozes mais versáteis do metal? Minha voz é muito versátil mesmo. Eu ainda consigo cantar heavy metal, sabe [ele faz som gutural com a voz] e ela [a voz] resistiu muito bem ao longo dos anos. Na verdade, desde que eu parei de fumar há seis anos, ela ficou muito melhor, o que é ótimo. Eu consegui recuperar meu alcance vocal de novo. Agora eu consigo rosnar profundamente, o que é bem legal [risos]. Acho que eu tenho muita sorte. 

    Se eu consigo usar uma máscara em cima de um palco por duas horas, você, definitivamente, consegue usar uma máscara por cinco minutos para ir na padaria. É simples

    Corey Taylor, da banda Slipknot

    Você já fez diversos shows no Brasil, tanto com o Slipknot quanto com o Stone Sour. Qual é a melhor memória que guarda do país? Provavelmente, minha melhor lembrança é do Rock in Rio de 2011, quando as minhas duas bandas tocaram no festival. Eu me lembro também do Rock in Rio de 2015, quando o Slipknot tocou no mesmo dia que o Faith no More, que é uma das minhas bandas favoritas. Então, assisti-los tocando, depois fazer nosso show e, na sequência, confraternizar com eles nos camarins, foi sensacional. Mike Patton, do Faith No More, tem um alcance vocal impressionante. Definitivamente ele é uma das minhas maiores influências como cantor. O que ele faz com a voz dele, eu nunca vi.

    O show da banda Slipknot no palco Mundo, no terceiro dia do Rock in Rio, em 25/09/2011
    O show da banda Slipknot no palco Mundo, no terceiro dia do Rock in Rio, em 25/09/2011 Marcelo Sayão/EFE/VEJA

    Você usa durante horas uma máscara que cobre o rosto inteiro nos shows do Slipknot. O que diria para as pessoas que não estão usando máscaras na pandemia? O triste foi que fizeram do uso, ou não, da máscara um ato político. De repente, uma pessoa da sua família pode morrer e o coronavírus vai se tornar algo bem real para você. Acho que é muito fácil para as pessoas privilegiadas saírem por aí falando que não precisam de máscaras e que tudo isso é besteira e boato. E, então, não entendem porque outras pessoas ficam bravas com elas por não usar máscaras em público. O que eu digo é: se eu consigo usar uma máscara em cima de um palco por duas horas, você, definitivamente, consegue usar uma máscara por cinco minutos para ir na padaria. É simples. É preciso ter empatia pelo outro e perceber que somos um só. Não é uma gripe trivial. É algo bem real e quanto mais pessoas perceberem isso, mais rápido a vida vai voltar ao normal. Se você não usar a máscara, uma pessoa pode espirrar do seu lado, te infectar e você morrer. 

    No Slipknot, um dos integrantes usa uma máscara assustadora de palhaço. Seria ele o mais assustador da banda? Eu nunca tive medo de palhaços, mas entendo o terror que ele causa. Acho que tudo depende da maquiagem. A maquiagem da maioria dos palhaços é uma marca registrada, você sabia? Ninguém pode fazer a mesma maquiagem do outro palhaço. Eles são donos daquela imagem. Então, quer dizer, um palhaço em um circo todo iluminado com musiquinhas felizes em um dia de sol, só vai trazer alegria. Mas, esse mesmo palhaço em uma esquina escura, sozinho, segurando alguns balões e rindo para você, é muito assustador. Então, depende do cenário e do momento. Eu acho que um bom palhaço consegue fazer as duas coisas [risos].

    Eu cresci no Iowa e toda a minha família ouvia country music. Eu estava cercado por ela e se não fosse pelo country, não existiria Elvis Presley. Não limito meus gostos musicais

    Corey Taylor, da banda Slipknot

    Você fala abertamente do vício em drogas e álcool que enfrentou no passado. Como está atualmente? Eu usei drogas por 20 anos. Estou limpo há mais de 10 . Então, tenho lidado bem. Muita gente diz que o álcool é a pior droga. Definitivamente, o álcool é a droga mais fácil de comprar. Para mim, quanto mais fácil conseguir a droga, mais difícil de consertar o estrago que vem com ela. Algumas pessoas conseguem beber uma ou duas doses por noite. Outras, como eu, tendem a ir cada vez mais fundo. Uma dose significa duas. Duas significam quatro e quando você percebe, já está completamente fora de controle. Mas não diria que o álcool é a pior droga. Há coisas bem piores, como a heroína e os opioides, que causam estragos muito maiores. Quero dizer, com moderação, é possível consumir álcool, mas não existe isso com os opioides, porque eles causam dependência rapidamente. 

    É mais difícil ficar longe das drogas e do álcool durante as turnês? Agora está mais fácil. Eu consegui chegar ao ponto em que consigo conversar com as pessoas que estão bebendo ao meu lado sem ter que beber também. Era algo que eu não conseguia fazer. Quer dizer, cada dia é uma lição diferente em que você tem que reiterar sua sobriedade. Algumas pessoas fazem listas de coisas que elas são gratas por estarem sóbrias. Isso é algo que eu faço também. Eu consigo cuidar da casa, das crianças e quanto mais tempo você fica sóbrio, mais fácil essas coisas ficam também. Mas tudo isso pode escorregar com facilidade pelos seus dedos, e você voltar a beber. Não dá para tomar só umazinha. É um trabalho diário de reeducação. 

    Você também enfrentou um período difícil de depressão. O que diria para quem chama a depressão de “frescura”? Para mim, o mais importante foi aceitar o fato de que eu estava doente e que precisava lidar com isso. Quem ignora a depressão, tende a cometer os mesmos erros e cair nas armadilhas da doença, como manter um comportamento autodestrutivo, automutilação, agressão, vício, entre outras coisas. É difícil, mas uma vez que você admite para si mesmo que tem um problema como esse, isso passa a ser algo com o qual precisa lidar. Tive que ignorar quem faz pouco caso da depressão. Essa é a minha vida e eu preciso lidar com ela. Apenas pelo fato de ainda existir um estigma sobre saúde mental e depressão mostra o estado em que estamos. Se todos entenderem que é uma doença, vai ficar mais fácil para apoiarmos quem precisa de ajuda. 

    Continua após a publicidade
    Publicidade