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Filme ‘Pressão’ evidencia um herói coadjuvante da Segunda Guerra

Produção ilumina o trabalho de um entre vários cientistas esquecidos e, agora, devidamente glorificados nas telas

Por Raquel Carneiro Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 29 ago 2026, 08h00
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O clima no litoral da Normandia, na França, é instável — ou melhor, traiçoeiro. As praias voltadas para o Canal da Mancha, corredor marítimo entre o norte do país e a costa inglesa, testemunham mudanças constantes, intercalando chuva e ventania. Logo, planejar férias no local — ou a maior ação militar da história humana — exige o apoio de uma boa previsão do tempo. Foi amparado por um time de meteorologistas que o célebre general Dwight D. Eisenhower (1890-1969), responsável pela Operação Overlord, conhecida como Dia D, traçou a incursão de mais de 150 000 soldados nas praias da Normandia em 6 de junho de 1944. A ação abriu a frente terrestre dos Aliados garantindo, no ano seguinte, a vitória contra a Alemanha nazista. O bastidor desse planejamento conduz o filme Pressão (Pressure, Reino Unido/França/Estados Unidos, 2026), que chega aos cinemas na quinta-feira 3, desafiando o enredo clássico do filão de guerra.

O MÉDICO E O MONSTRO - Nuremberg: psicologia nazi
O MÉDICO E O MONSTRO - Nuremberg: psicologia nazi (Diamond Films/.)

Ao destacar a bravura e o sacrifício dos homens nas trincheiras, Hollywood cristalizou na memória popular o heroísmo dos que empunharam armas — que o diga a impactante sequência de abertura de O Resgate do Soldado Ryan, de 1998, situada justamente no Dia D. Parece menos atrativo observar a parte burocrática antes da ação — especialmente se o protagonista for um cientista de carisma ínfimo. Surpreendentemente, é o que Pressão faz com êxito. Baseado na peça de mesmo nome do dramaturgo David Haig, o filme dirigido por Anthony Maras se volta para a dura missão dada ao meteorologista escocês James Stagg (1900-1975), interpretado pelo ótimo Andrew Scott. Sob o comando de Eisenhower, papel de Brendan Fraser, Stagg e outros especialistas deveriam, respaldados nas condições climáticas por vir, validar a melhor data para o ataque, então marcado para ocorrer no dia 5 de junho.

GÊNIO - Cumberbatch como Turing: decifrador de códigos
GÊNIO - Cumberbatch como Turing: decifrador de códigos (Jack English/The Weinstein Company/.)
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Os métodos de previsão em 1944 eram precários e limitados. Uma corrente de estudo seguia a compilação histórica: se o clima foi ensolarado na maioria dos dias 5 de junho já registrados, era grande a chance de que as mesmas condições se repetissem nos demais anos. Na contramão dos colegas, Stagg reuniu mais dados e informações sobre as correntes de vento e a pressão atmosférica conforme o Dia D se aproximava. As condições para aquela data foram se revelando tempestuosas, mas era impossível cravar uma previsão certeira. Diante do prazo-limite para a decisão, o cientista aceitou a enorme responsabilidade de dizer aos militares que adiassem o ataque. Sugeriu, portanto, uma nova data distante — e, pouco depois, achou a brecha da manhã do dia 6. Foram poucas horas de boas condições marítimas e de visibilidade — o que pegou os alemães desprevenidos. “O destino da própria humanidade dependia de como eles se sairiam naquelas 72 horas antes da ação”, analisou Fraser a VEJA.

OFUSCADO - Scott (à esq.) caracterizado como Stagg (à dir.): o homem do tempo
OFUSCADO - Scott (à esq.) caracterizado como Stagg (à dir.): o homem do tempo (Focus Features; GL Archive/Alamy/Fotoarena/.)
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A trajetória de Stagg lembra outro cientista que foi peça-chave na vitória dos Aliados: considerado o pai da computação, o inglês Alan Turing (1912-1954) foi retratado no filme O Jogo da Imitação (2014), com Benedict Cumberbatch na pele do matemático. Também pouco sociável, mas brilhante, Turing criou uma máquina capaz de decifrar o código então indecifrável usado pelos alemães para se comunicar com seus submarinos. Outro longa recente que explorou o ponto de vista paralelo à linha de frente é Nuremberg (2025). A trama apresenta o trabalho do psiquiatra Douglas Kelley (1912-1958), vivido por Rami Malek, que analisou o comandante nazista Hermann Göring, papel de Russell Crowe. Diante de um homem carismático e um pai amoroso, Kelley garantiu que os nazistas não eram loucos ou monstros, mas humanos passíveis de serem julgados por seus crimes. O processo foi essencial para trazer à tona provas do genocídio promovido por Hitler contra judeus e minorias. Os heróis anônimos estão espalhados pela história — finalmente, graças ao cinema, começaram a receber as merecidas glórias.

Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2026, edição nº 3010

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