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Fernanda Montenegro é eleita imortal da Academia Brasileira de Letras

Única concorrente à vaga deixada pelo diplomata Affonso Arinos de Mello Franco, a dama da dramaturgia agora ocupa a 17ª cadeira do órgão

Por Tamara Nassif Atualizado em 4 nov 2021, 17h06 - Publicado em 4 nov 2021, 17h01

Na tarde desta quinta-feira, 4, a atriz Fernanda Montenegro foi, enfim, condecorada com o título de imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL). Eleita sem concorrentes, em sinal de respeito à trajetória da dama da dramaturgia e do cinema nacional, ela agora ocupa a 17ª cadeira do órgão e sucede o escritor e diplomata Affonso Arinos de Mello Franco, falecido em março de 2020. A atriz recebeu 32 votos dos acadêmicos, dois em branco e um nulo.

Aos 92 anos, dos quais 76 foram dedicados à atuação, Fernanda é a nona mulher a receber a honraria da instituição – e a primeira atriz na história, em ambos os sexos. Ela se une a Rachel de Queiroz, Zélia Gattai, Diná Silveira de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, Cleonice Berardinelli, Ana Maria Machado, Rosiska Darcy de Oliveira e Nélida Piñon, e deve assumir o cargo em março do ano que vem, quando o órgão volta do recesso de fim de ano.

“Fernanda Montenegro é um dos grandes ícones da cultura brasileira. Intelectual engajada e sensível leitora do real. Sua presença enriquece os laços profundos da Academia com as artes cênicas. Com ela, adentram, luminosos, tantos, personagens, que marcaram gerações, passado, presente e futuro”, declarou o Presidente da ABL, Acadêmico Marco Lucchesi.

Com exceção à autobiografia Prólogo, Ato e Epílogo, publicada em 2019, ela também faz parte da parcela minoritária de imortais da ABL que não fizeram carreira no meio literário – extensão defendida desde 1904 por Joaquim Nabuco, um dos principais articuladores da ABL. Em carta a Machado de Assis, o primeiro presidente, disse: “Devemos fazer entrar para a Academia as superioridades do país. A Marinha não está representada no nosso grêmio, nem o Exército, nem o Clero, nem as Artes, é preciso introduzir as notabilidades dessas vocações que também cultivam as letras. E as grandes individualidades”. Machado assentia: “A sua teoria das superioridades é boa”. O órgão, então, tem como meta valorizar a cultura brasileira como um todo ao acolher os chamados “notáveis”, “expoentes em várias áreas do saber”, como explica o site oficial.

Ao lado de historiadores, políticos, padres, médicos e cineastas, Fernanda disse, em entrevista a VEJA: “Reconheço e agradeço o avanço cultural e humanista ao aceitarem, entre seus membros, uma atriz – profissão, por incrível que pareça, ainda alternativa. Muitas vezes tida preconceituosamente como marginal.” A atriz ainda declarou ver a ABL como um espaço de resistência cultural. “A cultura das artes vive um momento de desmonte, de desconexão, de destruição bestial. O atual comando político nem sabe o que é sujeito, verbo e predicado. Diante desta ignorância absoluta, que vem de um cérebro limítrofe, viva a nossa Academia Brasileira de Letras”, disse por escrito.

Antes do diplomata Affonso Arinos de Mello Franco, a 17ª cadeira, cujo patrono é Hipólito da Costa (1774-1823), já foi ocupada por expoentes de diversas áreas do saber. Estiveram: Antonio Houaiss, filósofo dicionarista e ex-ministro da Cultura de Itamar Franco; Álvaro Lins, advogado e crítico literário; Roquette-Pinto, pai da radiodifusão no Brasil; o poeta Osório Duque-Estrada; e o fundador Sílvio Romero, escritor e crítico. Agora, ela segue em boas mãos.

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