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Antonio Fagundes: “A Globo está se arriscando”

Sem contrato, o ator diz que sente falta de 'inteligência e cultura' nas novelas e confirma: tem muito artista chato na TV

Por Sofia Cerqueira Atualizado em 22 out 2020, 16h48 - Publicado em 23 out 2020, 06h00

Do alto de mais de cinco décadas de carreira, mais de trinta novelas, incontáveis minisséries, meia centena de peças e outros tantos filmes, o ator Antonio Fagundes, 71 anos, se vê agora na condição de desempregado: entrou na leva de artistas que a TV Globo dispensou nos últimos meses. Sem mágoas, mas preocupado. “Entendo que não é um problema comigo”, diz, mas na sua opinião a emissora arrisca perder um público fiel ao “se desfazer de seu patrimônio” em meio a uma “inércia da dramaturgia” televisiva. Em quarentena rigorosa com a mulher, a atriz Alexandra Martins, 41, em sua casa na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, Fagundes estuda propostas de outras emissoras, enquanto passa o tempo com leituras (dez a doze livros por mês), filmes (três por dia), ginástica (a contragosto) e aulas de gastronomia. No dia da entrevista a VEJA ele ia aprender a fazer “carne louca”. Antes, por videochamada, em sua biblioteca de 10 000 volumes, falou sobre assédio, estrelismo, celebridades instantâneas e as propostas que vem recebendo.

O senhor foi dispensado pela Rede Globo após 44 anos de contrato. Estava preparado? Sabia que alguma hora poderia acontecer. Todos esses anos de casa foram bons para mim e, claro, para a empresa também. Logo que entrei na Globo, passei um período contratado por obra, por minha opção. Queria ter liberdade de fazer só o que me interessasse. Com o tempo me rendi, até porque tinha conquistado certa independência na escolha dos trabalhos. Só que a empresa mudou sua forma operacional. Entendo que não é específico comigo, que não fui mandado embora porque não sirvo mais. Até porque já estão querendo me contratar para o remake da novela Pantanal, no ano que vem. Mesmo assim, escuto muito: você deu 44 anos da sua vida para eles. Não, não dei nada para ninguém. Foi uma troca.

  • Há chance de o senhor ir para outra emissora? Posso dizer que estão acontecendo sondagens e propostas e estou muito bem e livre para aceitar o que quiser. São convites não só de outras emissoras, mas de plataformas de streaming e para fazer cinema. Tenho a intenção ainda de produzir longas-­metragens.

    Nos últimos meses, a Globo demitiu uma série de “pratas da casa”. Vê isso como um processo natural? A TV Globo está se desfazendo de seu patrimônio e arriscando sua história. Comparando, é como se um museu que durante décadas expôs a Monalisa de repente resolvesse se desfazer justamente dela. Pode ser bom, do ponto de vista administrativo e financeiro, mas corre-se um grande risco. A Globo não é uma fábrica de sapatos, trabalha com arte, emoção e fidelidade. Durante cinquenta anos, o público assistiu a essas pessoas nessa emissora e tem um carinho especial por elas. É como se a empresa propusesse esquecer todo o passado e começar o futuro. Pode dar certo, mas também pode não dar.

    Há espaço na televisão para os atores mais velhos? Ouço muitas reclamações, principalmente das atrizes. A questão está basicamente nas mãos dos autores, que se viciaram em fazer a coisa mais fácil. Quando você põe um casal romântico lindo, simpático e carismático, como a Paolla Oliveira e o Reynaldo Gianecchini, não precisa falar mais nada. Toda vez que trocarem olhares apaixonados, o público vai fazer “ahhhhh”. E se o homem tirar a camisa e mostrar os músculos, melhor ainda. Essa facilidade criou uma inércia na dramaturgia que precisa ser quebrada. Pôr um casal de idosos ou sem uma beleza apolínea dá um pouco mais de trabalho, requer mais inteligência e cultura.

    “Os autores se viciaram em fazer a coisa mais fácil. Quando põem um casal carismático e romântico no ar, não precisam criar mais nada. Agora, um par sem beleza apolínea dá mais trabalho.”

    Depois de ter sido galã durante tanto tempo, é difícil envelhecer na frente das telas? Pode soar estranho, mas para mim isso não tem o peso que se imagina. Primeiro porque, embora seja grato pelo título de galã, nunca me achei bonito. Costumo dizer que nunca fui meu tipo de homem. Não nego que, com a idade, às vezes me olho no espelho e penso: esse aí não sou eu. Depois pondero: até que o cara está bem. Nunca cogitei fazer plástica. E sempre sobrará o papel de um velhinho bruxo para eu fazer.

    As novelas vêm perdendo espaço para a TV fechada e para o streaming. A fórmula está gasta? Respondo com outra pergunta: o romance e o teatro estão gastos? O que acho é que, na ânsia de renovação, um gênero pode estar sendo destruído. Entre os grandes méritos das telenovelas estão os personagens aprofundados, as cenas longas, um outro tipo de velocidade. As pessoas paravam para assistir e aquilo lhes fazia bem. Abandonamos essa calma. Agora tem mil acontecimentos, tudo é mais superficial e as cenas não se concluem.

    Muitos atores são considerados difíceis. Há pessoas realmente chatas no seu ambiente de trabalho? Na televisão existem aqueles que agem como estrelas, como em qualquer lugar. A diferença é que, como estamos em evidência, as histórias ganham maior dimensão. Mas, sim, existem pessoas muito chatas na TV. Eu mesmo devo ser chato para um monte de gente.

    E assédio? Já presenciou algum caso? Ver mesmo, nunca vi, mas soube de histórias. Como não fui investigar o que escutei, prefiro não citar nomes. Hoje está mais difícil acontecer, as mulheres estão atentas. Agora, ao longo da carreira também ouvi situações em que a pessoa não levava tão a sério certas abordagens e talvez concordasse com aquele comportamento. Mas não há dúvida de que nossa sociedade é absolutamente machista.

    Considera-se machista? Presto atenção 24 horas por dia para não ser machista, racista, sexista e não me sentir superior a ninguém. Mas toda a nossa formação nos empurra nessa direção. Fui criado na tradição de que homem não chora e tem de vestir azul. Lembro que uma vez eu quis usar camisa vermelha e quase apanhei em casa, mas acabei vestindo.

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    O meio artístico foi invadido pelas chamadas celebridades instantâ­neas. Elas são um engodo? Só o tempo e o mercado dirão. Houve uma época em que se defendia que só atuasse quem tivesse formação específica. Sempre achei isso um absurdo. Não vejo problema em um modelo ser ator ou um youtuber fazer TV ou teatro. Do que eu discordo é que, nessa mistura, gente de fora acabe invadindo com outras coisas aquela única sala que a gente tem para fazer uma peça. Quem pode alugar o Pacaembu, que faça isso. Se 100 000 pessoas querem assistir a um cara sentado em uma cadeira falando da própria vida, sorte dele.

    O conceito de fama mudou? Para mim, não. Sempre separei a fama do sucesso. Qualquer pessoa pode ficar conhecida instantaneamente, basta pôr uma melancia no pescoço e sair nu. Vai viralizar nas redes e aparecer em todos os telejornais. No dia seguinte, porém, terá de inventar outra coisa. Se durante anos seguidos ela se mantiver famosa, aí é outra história.

    O senhor já foi vítima de fake news que vão desde notícias sobre uma briga em um posto de gasolina até a sua suposta morte. Fica incomodado com isso? Não, mas me impressiona o fato de uma notícia caluniosa ter mais repercussão do que a verdade. No caso do vídeo da briga no posto, bastava um pouco de atenção para qualquer um ver que não era eu. Para quem perde um tempinho checando, fake news não pegam. Pelo amor de Deus, quem ainda acha que a terra é plana? A pessoa que cai em fake news merece.

    Quando a Regina Duarte virou secretária de Cultura, o senhor disse que ela poderia se queimar. Sua previsão se concretizou? Completamente. Não se queimou só de um lado, mas de todos, inclusive com aquelas pessoas que dizia apoiar. Elas a mandaram para fora do governo de uma forma bem feia. Aliás, como sempre fazem.

    Aceitaria o cargo, se fosse convidado? Claro que não.

    O ator Mario Frias assumiu o lugar de Regina. Como avalia sua atuação dentro e fora das telas? Essa é pegadinha, hein? Não estou tirando o corpo fora, mas nunca vi nada desse rapaz como ator. Sou absolutamente contra a ideia de chamar um artista para a Secretaria de Cultura. São universos opostos. O que um ambiente tem de nocivo, o outro é liberdade, paixão, vontade de fazer. Acaba sendo uma carnificina, tanto para o artista quanto para quem seria contemplado com as decisões. Agora, não dá para avaliar a atuação de Mario Frias porque ela não existe. Ele vai fazer o que o presidente quiser.

    “Sou contra a ideia de chamar um artista para a Secretaria de Cultura. São universos opostos. O que um ambiente tem de nocivo, o outro é liberdade, paixão, vontade de fazer.”

    O senhor já apoiou candidatos como o ex-presidente Lula. Arrependeu-­se? Não me arrependi, mas mudei de opinião. Percebi que, se tenho força para ajudar um candidato a ser eleito, não possuo a mesma capacidade de tirá-lo quando faz coisas erradas. Sem esse poder, em última análise, eu estou sendo usado. Continuo com minhas convicções, mas nunca mais vou apoiar ninguém.

    Como está sendo a experiência de continuar isolado em casa? Olha, uma descoberta. Nos últimos 54 anos, meu tempo de profissão, estava sempre na TV, no teatro ou em uma locação de cinema. Ficar em casa era um luxo. Agora tenho feito curso de gastronomia on-line e lido de dez a doze livros por mês. Vou inclusive lançar o meu próprio livro, com indicação de títulos de que eu gosto. De vez em quando também jogo videogame, coisa da qual aprendi a gostar depois dos 60 anos. Desde março, não ponho os pés fora de casa. Morro de saudade dos meus quatro filhos, que só vi uma vez, de longe. Pedimos tudo por delivery. Até meu cabelo foi cortado pela Alexandra, que se mostrou uma cabeleireira de primeira.

    Alexandra é trinta anos mais jovem. A diferença mais incomoda ou mais traz vantagens? Idade não quer dizer nada. Quando duas pessoas são curiosas e interessadas, isso não existe. A Alexandra acaba atraída por coisas de que eu gosto e vice-versa. Sou apaixonado por livros, ela, por música. Eu detesto ginástica, ela ama. Aliás, estou tentando feito um desesperado me interessar por exercícios. Ela faz num ritmo alucinante e sai numa felicidade só. Eu já entro de bico.

    As novas regras de distanciamento vão prejudicar as novelas? A necessidade de tantos protocolos pode atrapalhar, mas não vai impedir o trabalho. Já o beijo em cena é outra questão. Depois de várias novelas sem ele, o público certamente vai querer um beijinho. A dramaturgia terá de achar uma solução.

    Publicado em VEJA de 28 de outubro de 2020, edição nº 2710

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