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Ex-mulher acusa presidente da Universal Music Brasil de internação à força

Em inquérito a que VEJA teve acesso, mais de dez pessoas prestaram depoimento e cinco especialistas enviaram laudos sobre ex-mulher de Paulo Lima

Por Jana Sampaio Atualizado em 30 jul 2021, 11h20 - Publicado em 30 jul 2021, 06h00

Às vésperas da 20ª edição do Gram­my Awards, a maior celebração da indústria musical do planeta, o executivo Paulo Lima, o todo-poderoso presidente da gigante Universal Music Brasil, tinha motivos para festejar: naquele ano de 2019, seus artistas, que vão de Caetano Veloso a Ivete Sangalo, passando por Tiago Iorc, Paula Fernandes e Anavitória, lideravam as indicações para prêmios na América Latina. Sem falar no estrondoso sucesso da turnê de trinta anos da dupla Sandy & Júnior, que também promovera. Lima havia acabado de desembarcar em Las Vegas quando um telefonema esfriou sua empolgação — foi informado de que sua mulher, a professora e escritora Helena Tavares de Souza Lima, havia obtido um habeas-corpus e deixado a clínica psiquiátrica onde ele a internara, contra a vontade, três semanas antes.

Fora da clínica, a primeira providência de Helena foi registrar ocorrência na 14ª Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro acusando o marido de tê-la mantido em “cárcere privado” por não se conformar com o pedido de separação. Um inquérito foi instaurado e agora o relatório final está prestes a ser encaminhado ao Ministério Público do Rio. Se a denúncia for aceita, Lima, detentor de uma das canetas mais influentes do mundo da música, se tornará réu no processo que determinará se cometeu violência contra a própria mulher ao interná-la. VEJA teve acesso aos dois volumes que compõem o inquérito. Ao todo, mais de dez pessoas prestaram depoimento e cinco especialistas, entre médicos e psicólogos, enviaram laudos sobre o estado de saúde de Helena, a grande maioria atestando que ela nunca sofreu de distúrbios mentais.

Lima se exime de responsabilidade pela internação. Relata que observou “mudanças comportamentais” em Helena, entre as quais “cheiro de bebida” e decisões contraditórias na época em que ela pediu a separação e que, quando o corpo médico da clínica recomendou que permanecesse lá, achou que era o melhor a fazer. Em nota enviada a VEJA, seus advogados insistem em que o processo de internação “foi indicado e conduzido por três médicos especialistas, que atestaram a necessidade da medida”. Já o psiquiatra e psicanalista Manoel Castro Sá, terapeuta de Helena há três anos, declarou à polícia que sua paciente nunca apresentou qualquer transtorno psiquiátrico, não fazia uso de psicofármacos e não se qualificava para uma internação involuntária.

Castro Sá afirma que repassou sua opinião ao médico Leonardo Lessa, contratado por Paulo Lima para atender Helena na clínica. Lessa teria respondido que ela, de fato, demonstrava lucidez nas consultas — o que não o impediu de lhe receitar estabilizadores de humor. A certa altura, diz ela, Lessa lhe disse claramente que, se desistisse da separação, teria alta rapidamente. “Este caso contém fortes indícios de que a internação não foi apenas irregular, mas criminosa”, avalia Rodrigo Costa, criminalista e professor de direito penal da Universidade Federal Fluminense.

Helena foi levada à clínica à força três semanas depois de pedir o divórcio de Lima, com quem estava casada há 24 anos e tem duas filhas. Além de não aceitar a decisão, ele invadiu a conta de e-mail dela e mostrou suas conversas com o novo namorado para a sogra, Maria Luiza Baugmarten, convencendo-a a autorizar a internação da filha como tentativa de salvar o casamento. No fatídico domingo, 20 de outubro, a médica Maria Antônia Pinheiro, amiga de Lima, entrou no quarto de Helena acompanhada de dois enfermeiros e anunciou que iria para a clínica, a pretexto de tratar um suposto transtorno bipolar.

Em documento anexado ao inquérito, a médica admite que baseou o diagnóstico em relatos verbais de Lima e na tal troca de mensagens. Uma vez internada, Helena ficou incomunicável. Conseguiu, no entanto, que uma pessoa que conheceu na clínica fizesse chegar um pedido de socorro às mãos do namorado, que acionou a advogada Natashy Vainstok. Ela obteve o habeas-corpus que pôs fim à internação. O episódio inspirou um projeto de lei de autoria do deputado federal David Miranda (PSOL-RJ) dificultando a repetição de casos desse tipo. “Proponho que a avaliação do paciente passe a ser feita também por um assistente social e um psicólogo e que se estabeleça o prazo de quinze dias para uma reavaliação”, explica Miranda. Professora há 25 anos, onze deles no tradicional Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro, Helena diz que quer que se faça justiça, para poder seguir em frente. “Nos primeiros meses não conseguia dormir e temia que alguém invadisse minha casa. Até hoje tranco todas as portas e evito ficar sozinha. Estou retomando a minha vida e quero que a verdade prevaleça”, afirma. Lima, por sua vez, prestou queixa contra Helena por denunciação caluniosa. Tanto ele quanto a sogra estão impedidos de se aproximar de Helena. A separação do casal, uma decisão complicada em qualquer circunstância, virou caso de polícia.

Publicado em VEJA de 4 de agosto de 2021, edição nº 2749

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