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“Eu fiquei menor”

Guru de artistas, Sri Prem Baba reconhece ter abusado da confiança de duas fiéis casadas com quem se envolveu, mas nega sexo sem consentimento

Por João Batista Jr. - Atualizado em 17 jul 2019, 17h42 - Publicado em 31 Maio 2019, 07h00

O psicólogo paulistano Jan­derson Fernandes de Oliveira, de 53 anos, conhecido como Sri Prem Baba, lotava auditórios no Brasil e no mundo com palestras sobre como atingir a calma e o equilíbrio espiritual. Com centros de meditação em São Paulo, Goiás e Índia, e seguidores que iam do meio artístico (Reynaldo Gianecchini, Bruna Lombardi e Marcio Garcia) ao político (Marconi Perillo e João Doria), ele viu seu apelo ruir. Em agosto de 2018, o jornal Folha de S.Paulo revelou que duas discípulas do “guru”, então casadas, o acusaram de abuso de poder e confiança — e disseram ter feito sexo com ele. Prem Baba (“pai de amor”, em sânscrito) confessou as relações amorosas e saiu em recolhimento diante da onda de ataques de que seria um predador sexual. Passou algum tempo na Índia, outro nos Estados Unidos, recluso, longe dos holofotes, antes de retornar ao Brasil. Cortou os cabelos e aparou a longa barba. Em seu apartamento de São Paulo, decorado com imagens de Ganesha, o deus hindu da fortuna e da sabedoria, ele falou com exclusividade a VEJA sobre as acusações.

O senhor abusou sexualmente de suas discípulas? Vou dizer com muita clareza: não sou um abusador. Eu me conheço bem o suficiente para afirmar que jamais serei. Realizo meu trabalho com seriedade e compromisso, o qual foi construído ao longo de muito tempo e dedicação. Cerca de 70% da minha comunidade é formada por seguidoras mulheres. E eu respeito todas elas.

O que aconteceu, então? Eu me envolvi com duas mulheres casadas de forma consentida. Com a primeira foi apenas uma relação sexual, há vinte anos. Ela era uma amiga que fazia parte do meu grupo de estudos. Eu ainda não era guru. Mas o epicentro da crise se deu com uma outra pessoa, que também conheci há cerca de vinte anos, quando nós dois éramos solteiros. Mas nossa relação evoluiu e, em dado momento, houve envolvimento amoroso por dois anos, iniciado em 2008, eu já como líder espiritual e ela casada. Achamos por bem não contar ao marido dela. O casal era meu discípulo. O tempo passou. Ela seguiu como minha amiga até bem pouco tempo antes de o caso vir a público, em agosto de 2018. Ela era agradecida por tudo o que tinha vivido comigo. De uma hora para outra, trouxe esses sentimentos guardados e mostrou ter entendido a nossa relação como um abuso de confiança. Foi um tremendo choque para mim. Ela queria contar ao agora ex-marido sobre o que havia acontecido. Eu acabei, então, contando a ele. Não tínhamos falado antes para proteger a ela e a mim, e quando contamos foi uma catástrofe. Eu desabei.

Mas, afinal, houve ou não abuso de confiança ou poder de sua parte? Ela atuava como facilitadora do meu ­trabalho, era uma pessoa relevante dentro do nosso movimento espiritual. Ocorre que o movimento começou a crescer e ela se sentiu excluída, achou que eu não cuidei adequadamente dela, a afastei. O ex-marido também ficou ferido porque não teve lugar dentro desse movimento que cresceu rapidamente. Reconheço que ela se sentiu excluída, embora eu não a tenha excluído de propósito.

O senhor sugere que ela relatou a relação por vingança? Não, ela tinha uma dor mesmo, estava machucada pela exclusão. Fiz exercícios de empatia para me colocar no lugar dela e do ex-­marido. Pude entrar no coração deles para identificar a causa de tanta dor, o que, afinal de contas, havia provocado a revolta. Para isso, usei uma técnica de meditação conhecida como tonglen. Ela permite nos colocarmos no lugar do outro, acolher a dor. Respirar o sofrimento e abrir um espaço para a compreensão.

“Posso transar se quiser, mas já passei muitos anos sem sexo. Não há contradição. Não pratico o caminho da proibição, mas o da transcendência. Canalizo energia para o meu trabalho espiritual”

Em entrevista dada à Folha de S.Paulo em 2015, o senhor disse: “Enquanto não formos capazes de ser felizes no casamento, nós vamos dar passagem para filhos que também serão infelizes ao reproduzirmos padrões”. Não considera hipocrisia ter dito isso, já que o senhor ficou com uma mulher casada sendo amigo e guru dela e do então marido? Estamos falando de um ser humano em desenvolvimento, de episódios ocorridos há muitos anos. Com a maturidade que tenho hoje, jamais faria o mesmo. Essa mensagem de 2015, sobre a reprodução da infelicidade, foi fruto natural das experiências que adquiri.

Mas o senhor manteve a relação com ela quando já era celebrado como guru espiritual, aos 43 anos, ou seja, não era uma pessoa jovem. Há um detalhe: o marido dela chegou a beijar o seu pé em rituais espirituais. Não acha isso desonesto? Reconheço que errei. Sofro e estou sofrendo as consequências do meu erro. Ao mesmo tempo, o trabalho que faço é muito sério. Falhei como homem, e apenas como homem, não como guru. Construí meu trabalho com afinco e dedicação, não de forma desonesta. Tive uma falha humana. Eu me arrependo, já chorei muito pelo reconhecimento da minha responsabilidade. Houve um erro moral. Mas o que vou fazer, me matar?

O senhor falou com as duas mulheres após o escândalo eclodir? Contratei uma pessoa para fazer uma mediação. Quero me aproximar delas e de seus ex-­maridos. Internamente, para mim mesmo, já pedi perdão aos envolvidos. Posso dizer uma coisa: amo todos eles e um dia espero que me perdoem. Eu, verdadeiramente, confio no amor. Em algum momento vamos nos abraçar e pedir perdão um ao outro.

Como alguém pode confiar no senhor sem ter dúvidas de que seja hipócrita? Coloco nos meus livros a minha experiência. Aprendi, inclusive, a partir dos relacionamentos com essas mulheres. Serviram como um grande material de escola porque pude aprender com os erros. Mas é claro que me dói saber que houve uma trinca na confiança e na minha credibilidade.

Algumas pessoas compararam o senhor ao médium João de Deus, acusado de ter abusado sexualmente da filha e de centenas de mulheres que recorriam a ele em busca de uma cura espiritual. Pelo amor de Deus, ­isso foi muito dolorido e surpreendente para mim. Entrei em uma noite escura, em um vale da sombra e da morte. Esse não sou eu. Estava sendo condenado por um crime que não cometi. Eu errei como um humano erra. Já me conscientizei e peço perdão. Não tenho nada a ver com o João de Deus. No meu caso, tive dois envolvimentos amorosos. Falar de sexo é sempre uma grande polêmica, sobretudo quando misturado à espiritualidade. Mas não usei a minha posição para induzir alguma pessoa a atender a uma necessidade particular. É um equívoco essa comparação com o João de Deus. Eu sempre fui um defensor da mulher.

O senhor pode fazer sexo mesmo sendo guru espiritual? Faço parte da linhagem Brahma Chakra, que nos leva a nos libertar da dependência do sexo. Aos poucos, ele deixa de fazer parte do cotidiano. De qualquer forma, anular a prática sexual não é uma obrigação.

O senhor foi casado três vezes e teve esses casos extraconjugais. Se o sexo faz parte de sua vida, por que seguir essa doutrina espiritual? O sexo não é o pilar da minha vida, tenho uma companheira espiritual que também é adepta do Brahma Chakra. Posso transar se quiser, mas já passei muitos anos sem sexo. Não há uma contradição. Não pratico o caminho da proibição, mas o da transcendência. Canalizo a energia para o meu trabalho espiritual.

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O que o senhor fez depois da revelação das denúncias? Pus em prática meus próprios ensinamentos, tratei de me recolher para buscar dentro de mim a porta que tinha aberto para que todos esses problemas saíssem. Eu prego o ensinamento da autorresponsabilidade: estamos exatamente onde nos colocamos. Desapontei as pessoas, que ficaram decepcionadas, com crise de fé e de confiança. Isso foi dilacerante. Não cheguei a tomar remédios, mas busquei ajuda com amigos. Rezei, meditei, me recolhi. Fiquei na Índia entre janeiro e março deste ano, entre Rishikesh e Allahabad, e em abril fiz um retiro de silêncio por uma semana, no Patchwork Retreat Center, nos Estados Unidos.

A sua filha de 15 anos soube das acusações? Claro, foi bastante difícil. Ela ficou com vergonha de sair na rua, de ir à escola. Vivíamos com um grupo fazia muito tempo, então ela viu pessoas bem próximas afastar-se. Foi um baque para todos.

“Tive uma falha humana. Eu me arrependo, já chorei muito pelo reconhecimento da minha responsabilidade. Houve um erro moral. Mas o que vou fazer, me matar?”

O senhor teve medo de ser hostilizado? Fiquei apreensivo. Nos meses de agosto e setembro de 2018, houve uma mobilização muito grande contra mim na internet, onde existe ódio e polarização. Ali fui comparado a João de Deus. Na primeira notícia que surgiu, eu era retratado como um abusador de poder — horas depois já me chamavam de estuprador. Aquilo foi como se uma espada entrasse no meu coração. Passei por um terremoto, agora estou limpando os escombros.

Nos últimos anos, o senhor se tornou amigo e conselheiro de celebridades como Reynaldo Gianecchini, Bruna Lombardi e Marcio Garcia e virou figura frequente em colunas sociais de jornais. Chegou a ficar deslumbrado com a fama? Falhei em não mostrar o meu lado humano. As pessoas me viam fazendo a transmissão espiritual, em eventos ou palestras. Sem perceber, eu me tornei divinizado. Isso criou muita idealização, daí agora eu estar sendo cobrado.

Esses artistas que o rodeavam prestaram solidariedade? Não vou citar nomes, mas recebi apoio. De toda forma, a queda é solitária. Algumas pessoas me chutaram e fizeram bullying, outras ficaram neutras, com receio de o escândalo respingar na imagem delas. Mas houve quem ofereceu a mão para me levantar. Eu fiquei menor. Volto com uma comunidade sem o mesmo tamanho, houve uma fuga de gente.

É possível recomeçar? Houve uma morte: o Prem Baba pop acabou. Esse novo ciclo começa com mais simplicidade, mas ao mesmo tempo mais profundo. Quando essa crise surgiu, eu tinha começado a escrever um livro chamado Parivartan — A Grande Transição Planetária. Ele aborda justamente o fim do velho mundo e das indústrias do sofrimento. Agora, retomei a escrita e devo lançá-lo no fim deste ano.

O que o senhor tem a dizer aos detratores que o consideram um charlatão, tal qual o guru indiano Osho, personagem do seriado Wild Wild Country, da Netflix? Isso me dói bastante. Meu trabalho é sério e impactei milhares de almas no mundo todo. Muitas pessoas tiveram a vida transformada através da minha mensagem, como encontrar um propósito para acordar. Sobre o Osho: eu vi o documentário, mas nada mudou o que penso sobre ele, cujos livros são muito poderosos.

O senhor era conhecido pelo cabelo e barba longos. Por que mudou o visual? Eu tinha em mente terminar um ciclo em fevereiro de 2019, mas essa crise fez tudo se antecipar. O corte do cabelo e da barba representa o fim de um ciclo.

O senhor tem medo de não atrair novos fiéis? Não tenho mais. Estou tranquilo em ensinar a poucos. Sou um homem melhor. Jamais faria as mesmas coisas. Agradeço à crise por ter a chance de começar do zero.

 

Publicado em VEJA de 5 de junho de 2019, edição nº 2637

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