Espelhos da alma: exposição em Nova York faz um passeio pela revolução dos retratos
Como grandes nomes da arte se desprenderam da perfeição das linhas para explorar as emoções das figuras que pintavam
Durante séculos, os retratos pintados ou esculpidos em mármore serviam para eternizar figuras que ostentavam glória e poder. A preocupação em registrar com precisão integrantes da realeza e do alto clero guiava os pincéis. Assim, esses trabalhos deixaram para a multidão que hoje lota os museus uma boa ideia das feições de seus modelos. Um mergulho no tempo mostra que lá atrás, no Egito Antigo, os faraós chegavam a encomendar a artesãos seus rostos em granito, medida fundamental na trilha para a imortalidade. A arte caminhou aferrada à busca pelo traço perfeito, um espelho da realidade, até que novos tempos trouxeram à cena uma concorrente de peso aos virtuosos artistas — a fotografia, um advento do século XIX. E o alerta soou nos ateliês, onde a necessidade de reinvenção, que já se punha à mesa da modernidade, se fez ainda mais urgente. Para aquecer o caldeirão das mudanças, vieram duas guerras mundiais, a psicanálise de Freud, a industrialização a toda — e aquelas aristocráticas poses revestidas de formalidade se viram obsoletas.
Com a intensidade de ventos tão transformadores, o clima era propício para transbordar nas telas angústias e medos de uma era farta em emoção, em que a subversão das linhas foi um desdobramento natural. É esse passeio pela revolução dos retratos que promove The Face of Life: Modern Portraits at The Met, exposição em cartaz até 8 de outubro no Metropolitan Museum, em Nova York. O precioso conjunto de oitenta obras produzidas entre 1900 e 1960, abrangendo nomes que se desviaram de maneira extraordinária do solo conhecido, entre eles Henri Matisse, Joan Miró e Pablo Picasso, mostra como o mergulho no interior dos personagens se sobrepôs ao que era visível, à base de cores vibrantes e variadas experimentações no campo da forma. Ao percorrer as galerias, o visitante se põe diante de um sacolejo que enriqueceu os portraits — se antes eram um serviço prestado ao retratado, eles se tornam quase que uma confissão do próprio artista, também ali representado. “O que o pintor sente e teme e a época em que vive começam a vazar para os quadros com uma franqueza sem precedentes”, observa Ana Cavalcanti, da Escola de Belas Artes da UFRJ.
Logo no início da exibição, o retrato que Pablo Picasso produziu da escritora americana Gertrude Stein, cujo apartamento em Paris, no agitado início do século XX, era um entra e sai da turma de vanguarda, é emblemático de uma atividade que foi ganhando subjetividade. Em 1905, Picasso ficou tête-à-tête com sua modelo dezenas de vezes e foi dar um giro na Espanha. Na volta, bateu a vontade de pintar de novo o semblante da amiga, extraindo inspiração da memória. A fisionomia original foi então substituída por uma espécie de máscara. Apresentada à peça, uma exaltada Gertrude disse que em nada se parecia com ela, a que o autor respondeu: “Acabará parecendo, você vai ver”. E assim foi. Passadas três décadas, a escritora reviu sua opinião. “Para mim, sou eu mesma, e é a única reprodução de mim que será sempre eu”, disse ela, que deixou como herança ao Met a imagem pela qual queria para sempre ser lembrada.
A ousadia de Picasso e outros abriu uma avenida para a arte dos retratos, que foi radicalmente se afastando do conceito original. “Mesmo obras que não são retratos stricto sensu é como se fossem, já que funcionam como um registro”, explica Stephanie D’Alessandro, curadora da mostra. Não espanta que, em tal escaninho, apareçam pessoas (e até objetos) que jamais posaram para o artista. Um exemplo é a tela Portrait of a German Officer, do modernista americano Marsden Hartley. Embora centrada em um oficial alemão por quem o pintor revelava admiração, a obra praticamente elimina a figura humana e a substitui por uma coleção de símbolos militares, bandeiras e números. A composição, em tudo abstrata, se desprende do retrato convencional e captura com fidelidade os ventos nacionalistas que sopravam antes da I Guerra. Outro que consta no rol dessa era de tamanha efervescência é o que o francês Maurice de Vlaminck fez do parceiro de ateliê André Derain, conhecido pelo temperamento forte. As cores quentes e contrastantes traduzem a rebeldia do personagem sem compromisso com linhas e contornos.
Como a roda das mudanças nunca para, o século XXI trouxe à baila uma espécie nova de portrait, que de novo pôs do avesso o que estava estabelecido. O autorretrato, que já havia deixado à humanidade belas telas, como as que o genial Van Gogh fez sob as tintas da melancolia no século XIX, é agora impulsionado em escala planetária pelas selfies, vocábulo que entrou com tudo no dicionário contemporâneo. Estima-se que 5,3 bilhões delas sejam tiradas por dia, uma modalidade na qual são as pessoas que gerenciam a própria imagem, aplicando filtros (e como) sobre o que desejam transparecer. “Vivemos uma era em que o retrato que postamos nas redes acaba nos representando mais do que nós mesmos ao vivo e em cores”, diz o antropólogo Bernardo Conde. Não custa revisitar palavras de Van Gogh em uma de suas famosas cartas ao irmão, na qual esclarece por que pintava a si e aos outros. “Quero que meus retratos sejam admirados não pela fidelidade fotográfica, mas como meio de expressão e exaltação do caráter”, dizia. Em tempos pré-internet, era um homem à frente de seu tempo.
Publicado em VEJA de 3 de julho de 2026, edição nº 3002







