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“Escrita é música”, diz Jon Fosse, Nobel de Literatura de 2023

O romancista, dramaturgo e poeta norueguês fala do uso de IA por escritores, de sua decepção com o marxismo e da conversão ao catolicismo

Por Alessandro Giannini, de Oslo
Atualizado em 3 jun 2024, 16h51 - Publicado em 17 Maio 2024, 06h00

O escritor norueguês Jon Fosse, de 64 anos, Nobel de Literatura de 2023, não gosta de aglomerações. Foi essa aversão a muita gente que o fez mudar o local da entrevista dada a VEJA, em Oslo, na semana passada. A poucos dias do encontro, ele enviou uma mensagem pedindo que o movimentado centro cultural nas cercanias do Parque do Palácio desse lugar a um bistrô tranquilo a poucos metros de distância. “Como me tornei conhecido, ia ser muito complicado”, disse Fosse, ao se sentar à mesa, com uma xícara de café com leite na mão. “Aqui vai ser mais sossegado.” Ele escreve quase sempre em nynorsk, o “neonorueguês”. Fez sucesso antes com o teatro, e só mais recentemente com os romances. No Brasil, já foram publicados Melancolia (Tordesilhas), drama protagonizado por um pintor atormentado e à beira da loucura, É a Ales (Companhia das Letras), saga de uma mulher em que presente e passado se misturam, Brancura (Fósforo) e Trilogia (Companhia das Letras). Há outros títulos no prelo. A seguir, os melhores trechos da conversa, feita em inglês.

Em seu discurso de aceitação do Nobel, o senhor menciona uma infância quieta e introspectiva. Como o silêncio virou literatura? Quando eu era adolescente, tocava bastante violão clássico, e também guitarra elétrica em uma boy band. Um pouco mais tarde, parei de tocar e até de ouvir música. Então, comecei a escrever. De alguma forma, tentei recriar em minha escrita o que experimentei no mundo musical. Para mim, a escrita é, em grande medida, um tipo de música. Mas a música e o silêncio são, de certa forma, opostos. É o que chamo de “linguagem silenciosa”. Ao escrever, o verdadeiro significado nem sempre é o que está escrito na página. Há algo mais, uma linguagem oculta tecida entre as palavras. É como criar uma conversa silenciosa.

Nesse sentido, então, o senhor aprovou o Nobel de Literatura concedido ao cantor e compositor americano Bob Dylan, em 2016? Simplesmente concordo com Bob Dylan. Embora ele nunca tenha dito isso explicitamente, suas ações em relação ao Nobel de Literatura foram irônicas. Ignorar as ligações do comitê, mandar o discurso no último minuto e aceitar o prêmio em uma cerimônia privada depois de um show — tudo isso sugere uma rejeição silenciosa. Recusar é um verbo forte, mas Dylan conseguiu esse efeito sem dizer uma palavra. Pegou o dinheiro e voltou ao seu negócio: fazer shows e vender mercadorias em seu site junto com coleções de poesia. Lembre-se, ele até adotou o nome artístico do poeta americano Dylan Thomas. Talvez achasse que o prêmio deveria ir para um verdadeiro poeta, e não a um compositor, como ele.

Para o senhor, o Nobel funcionou como um propulsor da carreira? Sabia que haveria muita confusão em torno do prêmio, da cerimônia, do anúncio etc. Mas o trabalho posterior — o que veio a reboque — tem sido enorme, com o interesse que a premiação criou. Já foram tantas traduções que perdi a conta. E não são só as novas publicações. Em muitos países, os livros passaram a vender muito bem. Esse foi o lado inesperado para mim, a criação de tanto interesse.

“Existe um tipo de literatura, como a policial, que pode muito bem ser feita por máquinas de inteligência artificial. Mas não são capazes de escrever literatura séria”

Mas, enfim, o Nobel valeu a pena? Durante pelo menos dez anos, havia muitas especulações sobre a minha premiação para o Nobel de Literatura. Em jornais e até sites de apostas. Isso alimentou um pensamento: talvez eu ganhasse o prêmio. Mas o medo me corroía. Banquetes, grandes festas, detesto tudo isso. No entanto, o desejo era inegável. Todo escritor anseia pelo Nobel, o auge do reconhecimento literário. Existem prêmios regionais — o Büchner, na Alemanha, o Booker, na Inglaterra. Mas o Nobel transcende todos eles porque é mundial, o sonho de qualquer escritor. Pelo menos, assim é conhecido e tem esse prestígio.

Haverá o dia em que o trabalho de um escritor possa ser trocado pela inteligência artificial (IA)? O que me impressiona é a possibilidade de traduzir. As inteligências artificiais traduzem até para a minha língua norueguesa, o nynorsk, de uma forma impressionante. Fica gramaticalmente correto, as palavras são escritas rapidamente. Depois, pedi para a máquina escrever um texto no meu estilo e ficou horrível. Acho que isso diz algo sobre as possibilidades e limitações da IA, que pode fazer coisas mais mecânicas, como traduzir corretamente do meu idioma. Há regras gramaticais, há o dicionário, existem alguns padrões para compor um ponto-final etc. Para esses trabalhos, elas são ótimas, mas…

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Mas… Mas ainda há outra dimensão na arte e na literatura, que é a criatividade. Não tem a ver com quantidade, mas com qualidade. Existe um tipo de literatura, como a policial, que pode muito bem ser feita por máquinas de IA. Mas não são capazes de escrever literatura séria. Isso é impossível, porque não há regras para isso.

Afinal, por que o senhor escreve em nynorsk, uma língua minoritária da Noruega? Aprendi o nynorsk na escola. É o meu idioma e vou usá-lo, não importa que seja falado por uma minoria. A vantagem é justamente essa. Não é tão usado. Não é usado em comerciais, por exemplo. Se uma coisa é usada e usada e usada, torna-se uma espécie de clichê. Por isso, dá uma espécie de frescor ou clareza, que torna mais fácil escrever boa literatura nela do que na língua majoritária.

Em boa parte de seus livros, os personagens são assombrados pelo passado. Por que isso? É a vida. Cada ser humano tem o seu passado, que está consigo o tempo todo. Não conhecemos a capacidade do cérebro, não sabemos quão grande ele é. De certa forma, lembramos de tudo. Não lembramos das coisas conscientemente, mas elas estão em algum lugar. E continuam impactando-nos, dessa ou daquela forma. Em Septologia (ainda inédito no Brasil), meu romance mais longo, misturei o presente e o passado, e diferentes períodos do passado se misturam de uma forma estendida no tempo. Acho que minha escrita tem a ver com a minha maneira de ver e de vivenciar a vida.

Há alguma influência do contexto político de hoje, com a volta da extrema direita em países da Europa, a sombra de Trump nos Estados Unidos? Cresci ou tornei-me um jovem consciente nos anos 1970, na Noruega. E, nesse período, tínhamos um grupo marxista-leninista. Havia também os maoistas, extremamente fortes no campo cultural. Eles não tinham poder na sociedade, mas no campo literário, sim. Eram dogmáticos. Queriam que o escritor escrevesse de uma forma social e realista, como nas sociedades tradicionais marxistas ou comunistas. Se você não fizesse assim, seria excluído. Foi o que me deu uma espécie de resistência a esse tipo de literatura política explícita. A literatura que tenta convencer as pessoas de alguma coisa, ou que tenta ser política de uma forma muito direta, não é boa literatura.

E qual é a literatura que o senhor faz? Quase sempre o que escrevo é sobre os estranhos, as pessoas estranhas. Esse é o meu povo. Os estrangeiros. E a que lugar pertencem nesse tipo de cenário político. Mas continuo pensando que num mundo feio, onde há muitas coisas ruins acontecendo o tempo todo, uma literatura pura, que simplesmente é literatura, não pode ser uma coisa ruim. Há um pouco de política em toda literatura. Mesmo que o autor não tenha a intenção de ser político. A grande literatura não tenta ser política de uma forma direta. Ela tenta apenas ser literatura, ainda que exista algo político lá. Mas não é algo que o autor esteja tentando forçar em você. Para convencer alguém a ser marxista, cristão ou nacionalista, ou a libertar os homossexuais, por aí.

O senhor se converteu ao catolicismo. Por quê? Eu não tinha nenhuma crença. Não pertencia ao grupo marxista-leninista. Mas me considerava um marxista e era ateu, da maneira intelectual tradicional. O que me convenceu ou me tirou dessa posição foram de fato as minhas experiências com a própria escrita. Eu sento, escrevo e ouço alguma coisa. Simplesmente acontece. Nunca falo sobre minha própria vida nem faço pesquisas. Apenas ouço alguma coisa. E comecei a me perguntar de onde vem isso? O que está acontecendo? Como faço para escrever isso? O que é? Eu não poderia explicar isso com minhas ideias. Então, tive que aceitar a existência de uma espécie de lado espiritual na vida. Coisas invisíveis, como diz a tradição católica. Freud talvez o chamasse de inconsciente. Mas não foi inconsciente. Não estava dentro de mim. Estava fora de mim. Essa, enfim, é a minha verdadeira experiência. Você não pode negar o que realmente experimenta, ou então estará mentindo para si mesmo e para os outros. Daí deixei Marx para trás e comecei a ler textos nesse outro caminho.

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“As ciências nos deram uma base materialista, nos deram muito conhecimento. Mas há outra dimensão da vida. Não é só quantidade. Não se pode explicar Bach de uma forma materialista”

Como é sua experiência como católico, hoje? Deus está muito perto e longe. Muito, muito longe e muito, muito perto. O estranho para mim foi quando comecei a ingressar na comunidade católica. A prática da Eucaristia me fez acreditar em Cristo. Não a história em si, ou a Bíblia. Decidi pensar em mim mesmo como católico. Tento ir à missa uma vez por semana — não necessariamente aos domingos.

Portanto, já não se considera mais de esquerda? Sou ainda. Não sou materialista, com certeza. Mas ainda se pode aprender muito com o marxismo. Quando ouço o papa falar, por exemplo, sinto que é um esquerdista. Digamos que as ciências que têm uma base materialista, um fundamento, nos deram muito conhecimento e continuam nos dando muito mais. Então, eu também não nego isso. Mas há ainda outra dimensão da vida. Não é só quantidade. Não se pode explicar a música de Bach de uma forma materialista. Tenho certeza de que é impossível. Há assuntos em que discordo, claro, da corrente de esquerda.

Ao acompanhar sua trajetória, de tantas mudanças, está certo dizer, então, que “escrever pode salvar vidas”, como afirmou no discurso de aceitação do Nobel? Comecei a escrever aos 12 anos. Encontrei um lugar dentro de mim, um lugar secreto ao qual minha escrita estava ligada, sobre o qual não sei nada e não quero saber. Escrevi pequenos poemas e pequenas histórias nessa idade. Isso foi há cinquenta anos. Para uma personalidade como a minha, acho que esse lugar para me abrigar ou me esconder, de certa forma, me deu uma espécie de paz necessária para sobreviver. Caso contrário, teria bebido muito. Metade do dia eu escrevia, no resto do dia, bebia. Se eu não estivesse escrevendo, acho que poderia estar bebendo o dia todo. Parei de beber completamente na mesma época em que me converti. E então, até certo ponto, a missa tomou o lugar do bar e do álcool na minha vida.

Publicado em VEJA de 17 de maio de 2024, edição nº 2893

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