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Entrevista: ‘Me sinto enferrujado’, diz Mel Gibson

Deixado de lado por Hollywood, ator tenta se redimir mais uma vez em 'Herança de Sangue' e se prepara para lançar novo filme como diretor

Por Mariane Morisawa, de Toronto 10 set 2016, 18h46

Nos anos 1980, havia poucos astros tão grandes quanto Mel Gibson, protagonista de séries como Mad Max e Máquina Mortífera. Na década de 1990, ele lançou-se como diretor de sucesso, ganhando o Oscar por Coração Valente. Mas no século XXI as coisas degringolaram.

Ele se divorciou da mãe de seus sete filhos, Robyn Gibson, e foi acusado de violência doméstica por sua segunda mulher, Oksana Grigorieva, com quem tem uma filha. Também enfrentou problemas com álcool e foi acusado de racista, sexista e antissemita. A partir daí, suas participações em filmes tornaram-se esparsas.

Dois anos depois de sua última aparição, em Os Mercenários 3, ele está em cartaz no Brasil com Herança de Sangue, de Jean-François Richet, interpretando Link, um alcoólatra em recuperação que precisa proteger a filha Lydia (Erin Moriarty), que se meteu com um pessoal da pesada. Em 2017, estreia no Brasil seu novo longa como diretor, Até o Último Homem, com Andrew Garfield.

Aos 60 anos de idade, com uma barba grande quase inteiramente branca, mas os mesmos olhos azuis inquietos de sempre, ele conversou em frases breves com o site da VEJA:

Você ficou meio afastado nos últimos anos. Por que decidiu voltar agora? Era uma história legal. Era um personagem que eu me achava capaz de fazer. Fiz muita pesquisa. Sou pai. Então tudo se encaixava. Gosto da esperteza do roteiro, da estrutura e do tom.

Fez laboratório num estúdio de tatuagem para interpretar um tatuador? Sim! O cara me deixou fazer uma tatuagem nele. Não sou muito bom, seria algo como uma carinha feliz (risos).

Tem tatuagem? Não. Não é para mim. Mas meus filhos têm, alguns deles têm. Os meninos.

Ficou nervoso nessa sua volta? Sim e não. É bom manter uma certa preocupação, uma dúvida se vai conseguir fazer, se vai valer o dinheiro investido.

Mas depois de tanto tempo sem atuar, duvidou de si mesmo? Ah, sim. Você se pergunta se ainda pode fazer. Me sinto enferrujado (imita barulho de engrenagens enferrujadas).

Preparar-se fisicamente aos 60 anos de idade fica mais difícil? Sim. É necessário fazer exercícios e manter-se em forma, mas também é bem mais fácil de se machucar. Hoje em dia, só de me abaixar sinto dor. Sabe como é, as coisas mudam.

Tem um bocado de ação no filme. Gostou de fazer? Sim, é diferente, vem do nada, e é feito de um jeito mais tradicional, sem tantos efeitos visuais.

Gosta dos filmes de ação sendo feitos hoje em dia? Sim, alguns são bons. Não vejo tanta coisa.

Algo que tenha gostado? Talvez Mad MaxAh, esse eu vi, mas foi ano passado! (risos) Eu gosto, é bem legal. É incrível o que fazem com efeitos especiais, explosões.

Em Herança de Sangue, como em muitos outros de seus filmes, seu personagem é o herói que se sacrifica. Isso é uma coincidência? Acho que é o ato de heroísmo máximo. Se há um motivo para morrer, como uma guerra justificada ou seu sacrifício pessoal por alguém que ama, é algo que levanta seu espírito. E as origens desse herói que se sacrifica são os mitos, as religiões, são coisas antigas, desde os maias. São as histórias que contavam nas cavernas e inspiram as pessoas. E é por isso que contamos histórias, para inspirar as pessoas.

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Qual a coisa mais heroica que já fez? Quem, eu? Almocei ao lado de um dublê uma vez (risos). Nunca fiz nada.

Seu personagem no filme sacrifica tudo por sua filha. Você tem muitos filhos. Ser pai é o trabalho mais duro?Não, ser mãe é o trabalho mais difícil. Porque os filhos dependem mais da mãe. Claro que o pai precisa estar presente, mas ser mãe é mais duro. Quando vejo o que a mãe faz… Eu sou só o ajudante. É incrível o que ela faz.

Roland Emmerich disse, sem hesitação, que você é o maior astro do cinema com quem já trabalhou. Por que não temos te visto tanto quanto antigamente? Não sei… Eu tirei uma “folga” (diz, ironicamente, dando uma risadinha).

E esta folga terminou? Acho que sim. Eu foco mais em histórias e na direção.

Que tipo de histórias te atraem? Varia. Mas gosto muito de coisas históricas. Aprecio ouvir histórias que realmente aconteceram. Porque a verdade é mais estranha que a ficção.

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O que é essencial para um ator dramático? Ser capaz de respirar e ter imaginação. Claro que há outros instrumentos que você pode usar, como a voz. E cada um tem seus pontos fortes, é preciso encontrar o seu. Para isso, é necessário ter autoconsciência.

Você está voltando à direção. Como foi a experiência? Independente. Por menos dinheiro. Mas é o jeito de fazer, a não ser que seja um filme de super-herói, que ganha um monte de dinheiro e tempo. Hoje as pessoas não querem arriscar. Nas sessões-teste, alguns espectadores disseram que parecia um filme de antigamente. Foi estranho de ouvir isso. Me deu medo, mas é bom ao mesmo tempo.

Por que se interessou pela história de Até o Último HomemMeu Deus, você conhece a história? É incrível! É uma história real sobre um homem que se recusou a tocar em armas e a matar por motivos religiosos, durante a Segunda Guerra. Ele não aceitava tirar a vida de outra pessoa. Mas ele queria servir seu país como médico. Foi perseguido no treinamento, chamado de covarde. E foi mandado para o pior lugar, Okinawa. Em dez semanas, morreram 300 mil pessoas. Ele nunca tocou numa arma, mas se arrastava para salvar pessoas. Foi o primeiro a ganhar uma medalha de honra tendo se recusado a lutar. É uma história fantástica. É inspiradora. É um filme de guerra, mas uma declaração anti-bélica.

Acha que ficou melhor como ator, com a experiência? Deveria. Mas nem sempre acontece. Alguns ficam piores com o tempo (risos). Não sei como é para mim. Eu tento evoluir, mas é muito difícil escapar de si mesmo. Às vezes você tende a pegar atalhos, a ficar na sua zona de conforto. É muito fácil fazer o que te deixa cômodo.

Seu personagem tem muitos problemas, está se tratando para alcoolismo, por exemplo. Era algo que queria explorar no cinema? Sim. Eu conheço caras assim. Gente de gangues de motoqueiros que se reformou, ficou sóbria e hoje ajuda outras pessoas. São pessoas boas, com um passado sombrio.

Muita gente te defende, como Jodie Foster e Robert Downey Jr. Acha que algum dia a indústria do cinema americana vai recebê-lo de volta e tudo vai voltar a ser como antes? Hum, não sei… Vamos ver. Se eu fizer um filme que dê dinheiro, é possível. É simples assim.

Só se trata de dinheiro? Acho que sim.

Você conhece a música My Way. É essa sua filosofia de vida? Não, nunca faço coisas do meu jeito. Quando eu faço as coisas do meu jeito, me meto em encrenca séria! (risos) Verdade! Preciso fazer de outra maneira.

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