Entenda a polêmica envolvendo Ed Sheeran e discurso pró-Palestina
Cantor britânico sofre boicote por manter posição isenta, após demissão de Macklemore da 'Loop Tour'
Ed Sheeran se viu no centro de uma polêmica nesta semana, depois que o rapper Macklemore foi demitido como atração de abertura de sua turnê por se manifestar a favor da Palestina em shows nos Estados Unidos. A reação veio rápido: todos os artistas que abririam para Sheeran ao longo da Loop Tour cancelaram suas participações.
Sheeran tentou se defender, afirmando que a decisão partiu exclusivamente dos contratantes. “Eu tenho minhas opiniões pessoais sobre esse conflito devastador. O fato de eu escolher não falar publicamente não significa que eu não as tenha, nem que eu não me importe”, disse o cantor em comunicado.
O britânico ainda argumentou que seu público inclui crianças e jovens. “Aqueles que vêm ao meu show não esperam um fórum político”, afirmou. A página de fãs Ed Sheeran Brasil, com mais de 45 mil seguidores no X (antigo Twitter), mostrou que a visão do ruivo não é unânime ao apoiar Macklemore. “Também discordamos da ideia de que, diante de uma crise humanitária dessa dimensão, a neutralidade seja uma posição isenta de consequências”, escreveu o perfil.
Sheeran construiu sua imagem como o “amigo da vizinhança”: simpático, caridoso e pouco ameaçador. Em 2014, chegou a doar todo o guarda-roupa para bazares beneficentes ligados a instituições de saúde. Essa postura dócil o poupou de cobranças por posicionamentos políticos. “Eu tenho opiniões políticas, mas ninguém compra meus discos pensando: ‘O que será que ele pensa sobre política?'”, disse em 2017.
Isso não significa que o cantor nunca tenha se posicionado. Ainda em 2017, declarou apoio a Jeremy Corbyn, então líder do Partido Trabalhista britânico. Em janeiro de 2021, assinou uma carta com uma centena de artistas contra o Brexit. No ano seguinte, participou de um show beneficente em apoio à Ucrânia após a invasão russa.
A neutralidade neste momento representa uma garantia financeira. Além de multas e cobertura de gastos, o cancelamento da turnê significaria abrir mão de lucros expressivos: a The Mathematics Tour, turnê anterior de Sheeran, faturou 875 milhões de dólares (cerca de 4,5 bilhões de reais), uma das mais lucrativas da história.
Taylor Swift, amiga de Sheeran, tentou manter uma imagem isenta durante boa parte da carreira. Após a chegada de Donald Trump à Casa Branca, em 2017, o público passou a associá-la a posições republicanas. A cantora precisou se pronunciar para rechaçar essa leitura e, mais tarde, declarou apoio a democratas, incluindo Joe Biden. Apesar das críticas, manteve credibilidade ao se posicionar — um contraste com a estratégia atual de Sheeran.
Entenda a demissão de Macklemore
O caso começou em 4 de setembro, na Filadélfia. Antes da entrada de Sheeran no palco, Macklemore declarou apoio à criação de um Estado palestino livre e disse que queria que palestinos em Gaza e na Cisjordânia soubessem que não haviam sido esquecidos. Em seguida, cantou Hind’s Hall, música lançada durante os protestos pró-Palestina na Universidade Columbia, em Nova York.
As falas repercutiram enquanto Sheeran permaneceu em silêncio. Na segunda-feira, 14, Macklemore voltou a se manifestar após ser cortado da turnê. O próximo show está marcado para sábado, 19, também na Filadélfia. Segundo o rapper, a decisão partiu dos donos dos estádios por onde a turnê passaria, mas isso não isenta Sheeran: “Tomar um lado pode custar caro: dinheiro, parcerias de marca, patrocínios, festivais, shows particulares, relacionamentos e acesso. Eu perdi tudo isso”, disse nas redes sociais. “Mas não existe posição neutra entre o opressor e o oprimido. Quando um lado tem as bombas e o apoio financeiro e militar ilimitado dos Estados Unidos, recusar-se a tomar partido não te deixa no meio-termo.”
A Messina Touring Group, promotora da etapa americana da turnê, confirmou a pressão dos contratantes: “Fomos notificados pelos locais que sediarão as próximas datas da turnê de que não permitirão shows com a participação de Macklemore no line-up — o que resultaria no cancelamento da turnê e afetaria centenas de milhares de fãs.”
O posicionamento de Macklemore também gerou apoio da classe artística. Os outros artistas escalados para abrir shows da turnê — que ainda passará pelos Estados Unidos e pela América Latina —, incluindo Aaron Rowe, Lukas Graham, a banda Beoga e Finneas (irmão de Billie Eilish, que viria ao Brasil com Sheeran em dezembro), se manifestaram em apoio a Macklemore.







