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Em sua ‘segunda casa’, Eric Clapton exibe forma invejável

Saiba como foi o show do guitarrista britânico no Royal Albert Hall, seu palco preferido, em Londres (e veja o que esperar da turnê brasileira, em outubro)

Por Giancarlo Lepiani, de Londres 21 Maio 2011, 09h26

A versão de Eric Clapton que apareceu em Londres na noite de sexta-feira é quase irrepreensível. Ele está na ponta dos cascos

Qualquer tempo é bom para ver Eric Clapton ao vivo. A hora, no entanto, é especialmente favorável para ouvi-lo de perto. Já se vão algumas décadas desde que o guitarrista britânico ganhou dos fãs mais devotos o singelo apelido de “Deus” – e os cabelos (de novo compridos, como no início dos anos 1990) estão quase todos brancos. Imortal e onipresente ele certamente não é, mas existe, sim, algo de inexplicável no que é capaz de fazer com uma guitarra. Com sua passagem já marcada rumo ao Brasil, onde fará três shows em outubro – em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre -, Clapton realiza neste mês sua tradicionalíssima residência anual no Royal Albert Hall, em Londres, o palco que se transformou numa espécie de segunda casa para ele (leia mais abaixo). Na noite de sexta-feira, no quarto show de uma série de oito apresentações na arena vitoriana, “Deus” não fez milagre algum. Justamente por fazer tudo o que se espera dele, contudo, levou os fiéis às alturas. Ótima notícia para quem pretende reencontrá-lo – ou vê-lo pela primeira vez – na miniturnê brasileira.

Ainda não se sabe se os shows no país terão o mesmo formato que a temporada no Royal Albert Hall. Mas pelas escolhas recentes do repertório, pela formação atual da banda de apoio e pelo próprio momento da carreira, é seguro dizer que o Clapton que se verá em outubro é o melhor a já pisar no país. Em 1990, ele estava em alta, na turnê do álbum Journeyman, mas tocou para relativamente pouca gente – e mostrou um cardápio menos abrangente, pouco representativo de sua fértil carreira. Mais de uma década depois, em 2001, o repertório decepcionou, com algumas faixas abaixo de sua média costumeira, como Change the World e My Father’s Eyes. A versão de Clapton que apareceu em Londres na noite de sexta, porém, é quase irrepreensível. Em cerca de duas horas, mostrou um bom panorama de seu catálogo, dosou bem os diferentes gêneros que costuma explorar (sem atenção exclusiva ao blues, por exemplo) e trabalhou sonoridades variadas, o que é excelente sinal para alguém de 66 anos. E o melhor: Clapton está na ponta dos cascos, em invejável forma.

Como tocar na sala de casa

Eric Clapton já passou de 150 shows no Royal Albert Hall – e volta todo ano…

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Nascido em Ripley, pequena cidade de Surrey, arredores de Londres, Eric Clapton tem um hábito incomum para os grandes astros do rock e do pop. Entra ano, sai ano, ele faz uma temporada no Royal Albert Hall, em Kensington, de frente para o Hyde Park. Em 2009, ele completou 150 shows na tradicional arena, construída nos tempos da rainha Vitória (que homenageou o marido ao dar o nome do lugar). Eric Clapton se sente tão à vontade na casa que o escolheu para ocasiões memoráveis – como apresentações especiais com convidados como Paul McCartney, Jimmy Page e Buddy Guy, a aguardada reunião com os antigos companheiros de Cream e a gravação de seu melhor álbum ao vivo, ’24 Nights’ (na foto acima).

Assista a vídeos marcantes de Eric Clapton em alguns de seus shows no Royal Albert Hall

Domínio – Acompanhado por baixo e bateria, um par de tecladistas e uma dupla de cantoras de apoio, Clapton dividiu o show em três partes. Na primeira fatia, o blues ficou em primeiro plano, com Hoochie Coochie Man, de Muddy Waters, dando o tom. Foi em Old Love, porém, que ele alcançou o primeiro ponto alto da noite. Concluído o longo solo de guitarra que recheia boa parte da canção, torna-se difícil acreditar que exista na face da Terra alguém com maior domínio do instrumento. Mais um fator que pesa a favor do Clapton versão 2011 – ele já é um músico extraordinário há décadas, mas a cada ano toca com menos esforço, maior precisão, mais fluidez. Na segunda parte, um set semiacústico, com Clapton sentado, violão em punho. Mas nada de Tears in Heaven: esse é o trecho do show que mostra Still Got the Blues (em boa releitura), Same Old Blues (de JJ Cale) e a inescapável Layla, em versão mais sutil e cadenciada. No terço final, de volta à guitarra, Clapton toca Badge, Wonderful Tonight e Before You Accuse Me, clássicos de diferentes fases de sua trajetória.

Apesar de disparar seus solos com a fartura de sempre, Clapton não deixa de ceder espaço à dupla extraordinária que cuida dos teclados – o britânico Chris Stainton e principalmente o americano Tim Carmon, uma metralhadora de notas no órgão, que consegue a proeza de impressionar a audiência mesmo na presença de um papa da matéria. Mas o foco, evidentemente, sempre volta para Clapton. E mais típica dele que a Fender Stratocaster verde-piscina, só o fechamento do set com Cocaine. Esta é a primeira vez que a comportada plateia (que pagou algumas centenas de libras por um ingresso de frente para o palco) levanta de suas cadeiras no Royal Albert Hall. E aí pode estar uma outra diferença significativa para os shows brasileiros, agendados para grandes espaços, nada inimistas, provavelmente com ingressos de pista. De qualquer forma, apesar da já famoso distanciamento na relação ao público – que não se espere dele muito mais que um “boa noite” e um eventual “muito obrigado” aqui e ali -, Clapton tira de letra o fim de show ao estilo rock de arena. No bis, uma só canção, Crossroads, fecha a sequência impecável. Outro rapidíssimo “obrigado” no microfone e fim de papo: o palco está vazio. Com todas as preces dos fãs atendidas.

Eric Clapton tocará em Porto Alegre em 6 de outubro, no estacionamento da Fiergs. No dia 9, o show é no Rio de Janeiro, na HSBC Arena. No dia 12, a última apresentação no país acontece em São Paulo, no Estádio do Morumbi. Os ingressos devem começar a ser vendidos na próxima semana, no site http://www.livepass.com.br. As entradas para o show no Rio estarão à venda na quinta-feira, dia 26. Em seguida, em 15 de junho, tem início a venda para Porto Alegre. Ingressos para São Paulo, só em 23 de junho.

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