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Editora completa obra de Dostoiévski no Brasil com livro feito no cárcere

Último de uma coleção iniciada há vinte anos, traduzida direto do russo, 'Escritos da Casa Morta' revela aspectos perdidos do texto do autor

Por Tamara Nassif Atualizado em 4 nov 2020, 18h46 - Publicado em 4 nov 2020, 11h16

    Em 1917, eclodia na Rússia uma série de manifestações populares clamando pela derrocada do absolutismo czarista e pela alçada de Vladimir Lênin ao poder, resultando no período histórico hoje conhecido como Revolução Russa. Também foi o ano em que a vizinha Ucrânia testemunhava o nascimento de Boris Schnaiderman, escritor, tradutor e professor emérito da Universidade de São Paulo, responsável, entre muitos feitos, pela criação do departamento de Língua e Literatura Russa da USP e pelo longevo legado de traduções do russo para o português. Embora diluída em gerações de estudantes, a herança deixada por Schnaiderman pode ser vista na coleção de ficção de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), abraçada pela Editora 34 há mais de duas décadas e inaugurada pela publicação de Memórias do Subsolo, de 1864, tradução do premiado professor ucraniano, publicada pela editora em 2000. De lá para cá, o grupo editorial se tornou referência em publicações de Dostoiévski vertidas para o português diretamente do original e agora, com a contribuição de dezenas de outros tradutores, encerra a coleção completa de ficção do autor russo no Brasil, com o lançamento de Escritos da Casa Morta, de 1860, no próximo dia 6 de novembro.

    Traduzida por Paulo Bezerra, a obra marca não só a conclusão de um processo iniciado há mais de 20 anos, mas também a oportunidade de redescobrir Dostoiévski no original, já que muito do que chegava por aqui era readaptado de outro idioma, como francês ou inglês – a chamada “tradução indireta”. De acordo com o editor Danilo Hora, da Editora 34, em entrevista a VEJA, o “processo de edição preserva o tom direto e cru das impressões de Dostoiévski, sem firulas e procedimentos da ficção que traduções do francês, por exemplo, adicionam”.

    As traduções indiretas, segundo Hora, costumam suprimir aspectos temporais ou contextuais das obras para facilitar o entendimento. “Quando se trata da escrita de Dostoiévski, esses aspectos podem ser difíceis de decifrar e traduzir. Às vezes ele escreve de um jeito apressado, incompleto, e deixa algumas frases pela metade. Isso costuma ser arredondado pelos tradutores franceses, o que dá uma cara mais abstrata à obra.”

    Capa do livro ‘Escritos da Casa Morta’, de Dostoiévski //Divulgação

    No caso de Escritos da Casa Morta, a conservação da escrita original é especialmente importante por causa de seu caráter documental, marcado pelo “calor dos fatos” e pelas observações feitas por Dostoiévski a sua maneira de escrita. “Com essa preservação, o leitor consegue entender a dimensão pessoal que Escritos da Casa Morta tem até para o próprio Dostoiévski”, explica Hora.

    Com então 28 anos, em 1849, o russo foi preso e condenado à morte por sua participação em um grupo de intelectuais críticos ao regime político vigente. Instantes antes de ser fuzilado, no entanto, viu sua pena ser comutada para quatro anos de trabalho forçado em um presídio da Sibéria. Foi desta experiência que nasceu Escritos da Casa Morta, no qual o autor combina ficção com relatos documentais da realidade dos prisioneiros, registrados a partir de notas clandestinas no único livro permitido na prisão: a Bíblia. No livro, Dostoiévski analisa como o ambiente prisional (a “casa morta”, do título) influencia e é influenciada pelo comportamento dos prisioneiros, além de deixar uma reflexão sobre como eles são “mortos” ainda em vida – ideia muito aliada a conceitos de liberdade individual, restrição e perda de potencial, mas também por documentar situações desumanas de amontoamento em celas, superpopulação carcerária e excesso de violência.

    É neste ponto que a obra de 1860 dialoga com a realidade, segundo Hora: “Vivemos uma realidade insustentável quando se trata de condições de encarceramento e da perspectiva de vida futura de uma pessoa encarcerada”, diz. “É assustador pensar que um livro escrito no século XIX, em um lugar em que já consideravam a inospitalidade das prisões uma barbaridade, tem tanto a dizer sobre o mundo em que vivemos hoje.”

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