Ed Motta lança novo disco e reflete sobre redes sociais: “Extremamente democráticas”
O músico de 55 anos volta a cantar em português em 'Toc-Toc', celebra a maturidade e revela como encara, com certa frequência, o cancelamento na web
Toc-Toc é seu primeiro disco em português desde 2013. O senhor já disse recorrer ao inglês por estética. O que mudou agora? Meu disco passado, Behind the Tea Chronicles, tinha uma narrativa cinematográfica complicada de verter para o português. Estou há treze anos fazendo música anglófona e senti falta da nossa língua. Muita gente me pede por isso, e quis fazer letras que dialogassem com a minha sonoridade. Desta vez, as palavras vão ao encontro do funk americano, que é um gênero mais acessível.
Qual a inspiração por trás dessa escolha? Meu passado. Escuto o electrofunk do início dos anos 1980 desde que era garoto. Ouvi muito Marvin Gaye e Stevie Wonder enquanto aprendia a tocar violão. Acredito que, com esse disco, vou naturalmente me comunicar melhor com meu público original.
Em maio, uma briga sobre a taxa de rolha em um bar no Rio de Janeiro repercutiu na internet e resultou em um processo de injúria que corre em sigilo. Busca com esse álbum mais alegre exorcizar as críticas? Não, pois o disco está pronto desde o fim do ano passado. Não há qualquer reflexo desse episódio na obra.
Esse não é seu primeiro cancelamento virtual. Como analisa o novo mundo das redes sociais? Eu acho fascinante. São extremamente democráticas, e todo mundo pode opinar. Isso proporciona uma catarse anárquica que gera tudo, desde os cancelamentos até a divulgação de um show. São desdobramentos da ferramenta, assim como a inteligência artificial.
Observa um público renovado por lá? Sim, existem ouvintes que poderiam ser meus netos, o que acho ótimo. Quero ser o velho desde garoto, sempre amei essa estética: até que, enfim, estou velho. Também descubro artistas pelo Instagram, muitos jovens promissores.
Quanto à inteligência artificial, o que pensa dela? Sou um entusiasta total. Migrei para o universo digital um pouco antes da pandemia. Hoje, prefiro streamings de alta definição, como Tidal e Qobuz, à mídia física. Faço perguntas para a IA o dia inteiro. Se escuto um álbum ou vou ao cinema, logo em seguida vou falar com ela, que entende de tudo profundamente.
Encara a IA como possível ferramenta de criação? Desde que seja usada de forma inteligente, a inteligência artificial ajudará os músicos. Tem muita gente com medo, mas houve um susto parecido com a internet — e não foi bem assim.
Além de Toc-Toc, o senhor também é o rosto de uma futura série de quadrinhos, As Aventuras de Ed Motta — Aplausos e Enigmas, escrita por PH Tirre e desenhada por Manoel Magalhães. Como isso se deu? Já estou na idade da biografia, mas isso não me anima. Muita gente também acha que eu poderia ser ator porque sou engraçado, mas é muito trabalho. Prefiro ser um personagem. Recebi esse convite e adoro HQs. Para mim, é sensacional ser visto como um músico que também é detetive nas horas vagas.
Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014







