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É Tudo Verdade começa com ‘Tropicália’, um registro fiel e divertido do tropicalismo

Documentário traz depoimentos de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé e outros personagens do movimento

Por Carol Nogueira 22 mar 2012, 15h58

Responsável por abrir a 17ª edição do festival de cinema É Tudo Verdade em São Paulo, o filme Tropicália mostra com bom ritmo um dos movimentos culturais mais importantes do Brasil. Dirigido por Marcelo Machado, o documentário conta o que inspirou Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros músicos a produzir extensivamente na época, como foi a gravação do disco coletivo Tropicália ou Panis et Circensis, em pleno maio de 1968, e a prisão seguida de exílio em Londres de Caetano e Gil, após a edição do AI-5 (Ato Institucional nº5) em dezembro daquele ano, evento que marca o fim da Tropicália como movimento.

O grande destaque do filme são as imagens históricas e raras de arquivo de shows e entrevistas. Entre elas, há depoimentos de grandes nomes do movimento e de legado importantíssimo para a cultura brasileira, como o artista Hélio Oiticica (1937-1980) e o cineasta Glauber Rocha (1939-1981), além de vídeos dos lendários festivais da Record, incluindo apresentações de Os Mutantes e Gal Costa.

É de Gal, aliás, um dos depoimentos mais divertidos do documentário. A cantora comenta o show em que se apresentou pela primeira vez, ostentando um imenso cabelo black power e cantando Divino Maravilhoso, de Caetano e Gil, no qual, segundo ela, “metade da plateia vaiava e metade aplaudia”. Outro ponto alto do documentário é uma hilária entrevista com Tom Zé. “Mesmo com Caetano e Gil exilados, as músicas deles estavam aí para a juventude ouvir, mesmo com a sombra da ditadura”, afirma Tom Zé, enquanto se levanta e pega um pedaço de pano para replicar a “sombra”.

Há ainda um depoimento de Jorge Mautner, que curiosamente é tema do documentário que abre o mesmo festival no Rio, O filho do Holocausto, dos diretores Pedro Bial e Heitor D’Alincourt, nesta sexta-feira (23).

Visual – Com ajuda de uma equipe de primeira (tem Fernando Meirelles na coprodução executiva e o produtor Kassin na supervisão musical, entre outros), além de uma boa edição, o documentário é agradável aos olhos e tem cenas emocionantes. Numa delas, Caetano aparece cantando Asa Branca, de Luiz Gonzaga, em um registro recuperado de uma televisão francesa.

A mistura dos materiais obtidos por Tropicália, fruto de uma pesquisa séria e comprometida, também dá profundidade ao longa, que consegue explorar o movimento em todos os aspectos, desde seu contexto histórico até seu enlace com outras áreas da cultura para além da música — cinema, arte, TV… A única pena é que toda a pesquisa, ou ao menos os materiais escolhidos para montar o longa, vejam o movimento pela mesma perspectiva e façam um registro quase chapa branca, inclusive se valendo na maior parte do tempo de estética bastante similar à do período. É negativo, também, o impacto nos ouvidos causado pelo uso de áudios em “off” sobrepostos a shows. Mas tudo isso é mero detalhe no conjunto da obra: Tropicália ainda é o melhor registro já feito da época, e essencial para quem gosta de música ou cultura popular.

Festival – Mais importante festival de documentários do país, o É Tudo Verdade comemora em 2012 seus 17 anos de existência. Nesta edição, há mais de 80 obras em cartaz, provenientes de mais de 26 países. Todos os filmes têm ingressos gratuitos. Além de São Paulo e Rio, o festival acontece em abril em Brasília e, em maio, deve desembarcar em Belo Horizonte.

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