‘É errado continuar cantando músicas interpretadas como agressivas’, diz Paulinho Moska
Coluna GENTE entrevista músico que se apresenta no Rock in Rio após 25 anos
Voltando ao Rock in Rio após 25 anos, o cantor Paulinho Moska, 58, diz que pretende utilizar sua participação no festival para homenagear as mulheres. “Essa festa também tem que ter ações para afirmar aquilo em que a gente acredita”, disse o ex-Inimigos do Rei. Escalado como uma das atrações do palco Global Village, ele adianta à coluna GENTE que pretende incluir faixas em seu show para referenciar duas artistas femininas: Rita Lee e Marina Lima, defendendo a importância de exaltar a luta das mulheres em um festival desse quilate. Sem rodeios, Moska se posiciona acerca da polêmica envolvendo João Bosco, artista que será reverenciado pelo Global Village, e que deu uma enorme bola fora ao defender uma canção que narra um episódio de agressão à mulher. Com 35 anos de carreira, o artista relembra os tempos em que produzir e consumir música envolvia um processo artesanal. A seguir, o bate-papo.
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Qual é a expectativa para retornar ao Rock in Rio após 25 anos? Em 2001 toquei para mais ou menos 70 mil pessoas e, de lá para cá, acho que realizei muitas coisas. Diversas canções minhas se tornaram mais conhecidas no rádio e na TV, fiz duas séries televisivas. Minha carreira inteira se desenvolveu nesses 25 anos, e a palavra que me vem à mente ao olhar para trás é, sem dúvida, amadurecimento. O convite para tocar no Rock in Rio não só coroa essa carreira, como também me força a pensar o que posso trazer de novo, para mim e para o meu público, para que esse dia tenha a importância que merece na minha carreira.
O que planeja para essa nova participação? Vou mudar mais da metade dos vídeos que passo em meus shows, por exemplo. Convidei o Batman Zavareze, que é um super artista visual, e ele vem trabalhando comigo nesses vídeos. Vamos mudar o figurino, e eu vou incluir duas canções em homenagem às mulheres. Canções que nunca cantei ao vivo e vou cantar pela primeira vez no Rock in Rio. Uma delas é Fullgás, da Marina (Lima), e a outra é Esse tal de Roque Enrow, da Rita Lee.
Qual é a razão para a escolha? Primeiramente, por conta da importância dessas duas na minha formação. Rita na minha adolescência, e Marina na minha juventude. Foram duas mulheres com uma música forte, discurso fundamentado para a defesa das questões femininas. Acredito que o Rock in Rio é um festival que nos faz pensar sobre as ações que podemos fazer. Desde o primeiro, ele já tinha espírito de manifesto, de apoio às minorias. Essa festa também tem que ter suas ações para se afirmar aquilo que a gente acredita.
O palco Global Village, em que você se apresentará, tem João Bosco como homenageado Ele foi criticado por defender a música Gol Anulado, que narra um episódio de violência doméstica. Qual sua opinião? O tempo presente é o que rege o mundo, e a gente tem que repensar tudo para fortalecer, sim, a causa das minorias. É um tema fundamental de agora. Claro que devemos olhar para o passado por uma ótica de compreensão acerca de como as coisas aconteciam, não sair condenando tudo que é do passado. Mas devemos aprender com ele e, nesse sentido, eu acho que o João erra, sobretudo pelos termos que ele usa, como “as pessoas deviam se medicar”. Óbvio que a gente não pode deixar de pensar que ele está sendo homenageado pela música genial que faz há muitos anos, e deve sim ser homenageado. Acredito que a canção do João e do Aldir não apoiava a situação. Aldir, compositor, era um cronista. Mas é errado continuar cantando uma canção que pode ser, hoje, interpretada como agressiva. A minha opinião é de que, sim, a gente deve repensar. Eu mesmo deixei de cantar uma ou outra música por achar que uma determinada frase não cabia mais.
Acha que ele poderia ter se posicionado de outra forma? Sem querer dizer o que o outro deve fazer, mas imagino que João poderia ter medido um pouco as palavras dele e chamado a atenção para o fato de ele ser um cronista, e não um apoiador de uma atitude machista e violenta em relação à mulher. Não acredito que Nelson Rodrigues deveria parar de ser lido porque fala absurdos sobre a realidade da época. Picasso pintou Guernica por causa de uma cidade que foi arrasada. Ele não estava promovendo a bomba, estava denunciando uma violência. Então temos que tentar nos equilibrar entre a questão da crônica que denuncia e o posicionamento contrário a quem apoia a violência.
Quais foram as músicas que você costumava ter presente nos seus shows e que hoje não cabem mais? Houve uma época em que eu adorava cantar samba aqui na Lapa, no Rio, e eu sempre tocava uma música do primeiro disco do Martinho da Vila que se chamava Brasil Mulato. A música exaltava a figura negra, dizia que um dia o Brasil seria mulato. Mas a palavra mulato vem de mula, do jumento. É como os brancos se referiam aos pretos. “Esse mulato”, como se fosse um negro de segunda categoria. Pelo fato de ter a palavra mulato, parei de cantar. Meus amigos negros me orientaram, e isso é muito importante. Nós, brancos, cis, héteros, classe média, com todos os privilégios que temos, devemos aprender. É importante que a gente aprenda e não tenha essa visão de “ah, é exagero”, porque como é que se luta por causas tão importantes sem exagerar?
O público do Rock in Rio em 2026 é diferente do público que você encontrou em 2001. Qual é a sua expectativa? Já vi muitos movimentos populares dominarem o Brasil com uma música mais direta, com letra menos profunda. Já vi esses movimentos mais de dez vezes ao longo da carreira. Eles chegam, dominam rádios, shows, jornais, têm o público aos seus pés, vendem milhares de discos e depois somem. Não estou falando que toda a geração de agora vai passar, que tudo isso não tem qualidade. Não é isso. É só que não se deve temer (o novo público) quando você tem na sua mão o principal, que é uma boa música e uma boa letra. A música tem que ser bonita, a letra tem que ser profunda. Eu acho que vou poder conquistar muita gente que vai estar lá para ver outros artistas, e que pode se surpreender com a qualidade do que estou dizendo nas minhas letras. Sou um consumidor à moda antiga, diria. Um daqueles que se preocupa com o que vai estar na letra, em como a canção está estruturada. As rimas matematicamente pensadas para caber na melodia que se repete, o refrão que se repete.
A indústria da música mudou profundamente devido à ascensão do streaming, das redes sociais e dos algoritmos. Na sua visão, o que os artistas ganharam e o que perderam? As pessoas hoje, principalmente com a inteligência artificial, sentem que fazer música é fácil. E eu sou do tempo que não. Nós perdemos um pouco dessa minúcia que envolve a construção de uma obra. Pensar em como compor a música, a letra, finalizar a canção, fazer o arranjo, ensaiar, ir ao estúdio, gravar com os microfones. Tudo isso é orgânico. E, quando você começa a passar pelos processos digitais e tecnológicos, perde muito dessa coisa artesanal. Antigamente você comprava um disco e o escutava lendo as letras. Em relação ao que a gente ganhou, acho maravilhoso que a música possa ser acessada por qualquer um, em qualquer lugar. É maravilhoso que um adolescente possa ter, dentro do seu celular, 50 milhões de opções de músicas. Isso é uma dádiva: escutar o que quiser, sem precisar comprar, ir na loja e ver se chegou o disco.







